PIB desacelera e fecha 2025 com alta de 2,3%, menor taxa em 5 anos

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

RIO DE JANEIRO, RJ, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em um cenário de juros altos para conter a inflação, a economia brasileira desacelerou em 2025 e fechou o acumulado do ano com crescimento de 2,3%, apontam dados do PIB (Produto Interno Bruto) divulgados nesta terça (3) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O PIB confirmou o quinto ano consecutivo de expansão, mas a taxa foi a menor desse período, que abrange a recuperação após a crise da pandemia. A alta alcançou 3% ou mais nos quatro anos anteriores —em 2024, o avanço foi de 3,4%.

A desaceleração tem sido chamada de suave por analistas e era aguardada devido ao aperto dos juros, que dificulta o consumo e os investimentos produtivos.

O resultado de 2025 veio em linha com a mediana das projeções do mercado financeiro, que era de 2,3%, conforme a agência Bloomberg. O PIB está no maior patamar da série histórica do IBGE, iniciada em 1996.

No quarto trimestre de 2025, a economia ficou praticamente estagnada, com leve taxa positiva de 0,1% frente aos três meses imediatamente anteriores. O número também veio em linha com a mediana das previsões coletadas pela Bloomberg (0,1%).

A variação do PIB havia sido nula (0%) no terceiro trimestre de 2025, conforme informações revisadas pelo IBGE —o resultado divulgado inicialmente era de 0,1%.

Também houve taxa próxima de zero no segundo trimestre (0,3%), após avanço superior a 1% no primeiro (1,5%).

Essa trajetória mostra que o crescimento ficou concentrado no início de 2025, quando a economia teve o impulso da safra recorde de grãos.

A agropecuária fechou o acumulado do ano com alta de 11,7% em relação a 2024, bem acima de serviços (1,8%) e indústria (1,4%). O campo deu a principal contribuição para o avanço do PIB.

Segundo o IBGE, a agropecuária respondeu por 32,8% do volume adicionado ao indicador no ano passado, seguida por indústria extrativa (15,3%), outras atividades de serviços (14,6%) e informação e comunicação (9,4%).

A coordenadora de contas nacionais do instituto, Rebeca Palis, disse que as principais contribuições vieram de segmentos menos influenciados pelos juros e com presença em exportações.

A indústria extrativa, por exemplo, fechou 2025 com alta acumulada de 8,6%. Houve crescimento da extração de petróleo e gás. Assim, o ramo extrativo sustentou o avanço da indústria geral no ano (1,4%).

A indústria de transformação, por outro lado, mostrou variação negativa de 0,2%. Trata-se de um segmento mais afetado pelos juros.

O BC (Banco Central) iniciou em setembro de 2024 um ciclo de aumento na taxa Selic, que chegou a 15% ao ano em junho de 2025. O patamar dos juros está inalterado desde então.

A Selic de dois dígitos encarece o crédito e tende a esfriar a demanda por bens e serviços com o passar do tempo. Assim, espera-se que a pressão sobre os preços também ceda.

O consumo das famílias acumulou crescimento de 1,3% em 2025, abaixo de 2024 (5,1%). É o resultado mais fraco desde a queda de 4,6% registrada em 2020, na pandemia.

A recuperação do emprego e da renda serviu de incentivo para o consumo no Brasil, mas esse componente encontrou a barreira do endividamento das famílias, além dos juros, segundo o IBGE.

Os investimentos produtivos na economia também perderam ritmo. A alta foi de 2,9% em 2025, abaixo de 2024 (6,9%).

O consumo do governo, por sua vez, cresceu 2,1%. Foi praticamente o mesmo nível verificado um ano antes (2%).

Já as exportações aumentaram 6,2% no ano passado, acima dos 2,8% de 2024. As importações avançaram 4,5%, menos do que no ano anterior (15,6%).

GUERRA NO IRÃ E PIB EM 2026

A divulgação dos dados ocorre no momento em que a guerra no Irã provoca incertezas no mundo. O conflito já pressionou as cotações de petróleo e, caso se prolongue, pode elevar as exportações de países como o Brasil.

Isso, contudo, traz riscos para a inflação no país, de acordo com economistas. A commodity influencia os preços de combustíveis.

Na mediana, as previsões do mercado financeiro indicam alta de 1,82% para o PIB brasileiro em 2026, conforme o boletim Focus publicado pelo BC na segunda (2).

Já a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda divulgou em fevereiro uma estimativa de expansão de 2,3% para este ano.

Economistas veem estímulo menor da safra em 2026 e impacto ainda restritivo dos juros sobre o consumo e os investimentos produtivos.

O mercado espera que o BC comece a cortar a Selic neste mês, mas a taxa tende a fechar o ano em dois dígitos. A estimativa do Focus está em 12% para o final de dezembro.

Em ano eleitoral, o governo Lula (PT) aposta em medidas vistas como possíveis estímulos ao consumo, incluindo a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000, além da manutenção da política de valorização do salário mínimo.

IBGE DIVULGA PIB APÓS NOVA TURBULÊNCIA

O IBGE publicou os resultados do PIB após mais um capítulo de sua crise interna, que coloca o presidente Marcio Pochmann e parte dos servidores de lados opostos.

O motivo da nova turbulência foi a retirada da pesquisadora Rebeca Palis do cargo de coordenadora de contas nacionais. O departamento é o responsável pelo cálculo do PIB.

A direção comunicou a decisão em 19 de janeiro, pegando o corpo técnico de surpresa. Pelo menos três pesquisadores da mesma área entregaram cargos de gerência depois do anúncio. O servidor Ricardo Montes de Moraes foi escolhido como substituto de Rebeca.

Ela, contudo, ainda foi responsável pela apresentação dos dados à imprensa nesta terça. Durante a coletiva, a reportagem perguntou sobre os motivos da troca, mas a assessoria do IBGE disse que a entrevista abrangeria apenas os resultados do PIB.

A mudança na coordenação provocou grande repercussão porque a equipe chefiada pela pesquisadora conduzia processo considerado complexo de revisão nas contas nacionais.

A atualização é recomendada para captar de tempos em tempos as transformações na economia, como impactos digitais e usos do meio ambiente.

Em janeiro, o sindicato dos servidores do IBGE (Assibge) chegou a falar em “caça às bruxas” no instituto. Rebeca foi um dos nomes que haviam assinado manifestações de técnicos com críticas à direção anteriormente.

Após a polêmica, Pochmann usou o X (ex-Twitter) para defender a sua gestão em uma série de postagens. Ele afirmou que o instituto ia “muito bem” e citou “mentiras patrocinadas por algumas fontes”.

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Ranking do PIB de 2025

Irlanda – 6,7

Indonésia – 5,1

China – 5,0

Israel – 4,4

Polônia – 3,6

Dinamarca – 3,0

Espanha – 2,6

Letônia – 2,5

Lituânia – 2,5

República Tcheca – 2,4

Brasil – 2,3

Estados Unidos – 2,2

Colômbia – 2,2

Noruega – 2,2

Suécia – 2,0

Portugal – 1,9

Países Baixos – 1,7

México – 1,6

Eslovênia – 1,6

Coreia do Sul – 1,5

G7 – 1,5

Zona do Euro (20 países) – 1,3

França – 1,2

Reino Unido – 1,0

Rússia – 1,0

Eslováquia – 0,8

Itália – 0,8

Estônia – 0,8

Áustria – 0,7

Canadá – 0,7

Hungria – 0,5

Suíça – 0,5

Alemanha – 0,4

Finlândia – 0,3

Japão – 0,2

Fontes: OCDE e IBGE

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