SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Os preços do petróleo voltaram a subir nesta quinta-feira (12), superando novamente a casa de US$ 100 (R$ 515,91) para o barril Brent, após nova onda de ataques contra as infraestruturas petrolíferas dos países do golfo Pérsico.
Às 9h35, o barril Brent, referência internacional, era cotado a US$ 98,43 (R$ 507,81), uma alta diária de 7,03%, após ter atingido o pico de US$ 101,53, às 23h30 de quarta-feira (horário de Brasília). O preço do petróleo não atingia os três dígitos desde terça-feira (10). Na semana, o valor máximo foi de US$ 119,46 na segunda-feira (9).
O aumento ocorre mesmo após a AIE (Agência Internacional de Energia) ter aprovado a liberação de 400 milhões de barris de petróleo de suas reservas, o maior movimento desse tipo na história da organização que reúne 32 países, incluindo os Estados Unidos.
O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, prometeu que 172 milhões de barris serão disponibilizados “a partir da próxima semana”.
Mas a medida deve demorar quase um mês para ser executada, de acordo com o presidente francês, Emmanuel Macron, e é vista por especialistas como um paliativo. “Na linguagem das mesas de operações, a liberação da AIE é o equivalente a apontar uma mangueira de jardim para um incêndio em uma refinaria”, comentou Stephen Innes, da SPI Asset Management.
Para os analistas do ING, a “única maneira de ver os preços do petróleo serem negociados em baixa de forma sustentada é fazendo com que o petróleo flua pelo estreito de Hormuz. Se isso não for feito, significa que as altas do mercado ainda estão à nossa frente”.
O mercado reagiu da mesma forma e voltou a elevar o preço do petróleo. O barril WTI (West Texas Intermediate), usado nos EUA, também subiu nesta quinta e chegou a atingir US$ 95,96 (R$ 495,07). Às 9h20, ele registrava alta de 7%, cotado a US$ 93,35 (R$ 481,60).
BOLSAS EM QUEDA
Com os novos ataques, os investidores voltaram a evitar os ativos de risco e as principais Bolsas do mundo estão em queda nesta quinta. O índice Euro STOXX 600, referência na União Europeia, caía 0,88%, às 9h25. As principais Bolsas do continente seguiam a mesma tendência em Frankfurt (-0,22%), Londres (-0,53%), Paris (-0,63%), Madri (-1,47%) e Milão (-1,05%).
As três Bolsas dos EUA também estavam em desvalorização antes da abertura do mercado, com a Nasdaq perdendo 0,44%, a Dow Jones, 0,62%, e a S&P 500, 0,47%.
Os principais índices da Ásia fecharam em queda, com destaque para Tóquio (-1,04%), Taiwan (-1,56%) e Seul (-0,48%). Na China, o índice CSI300, que reúne as maiores companhias listadas em Xangai e Shenzhen, retrocedeu 0,36%, e o índice SSEC, de Xangai, perdeu 0,10%.
ATAQUES A NAVIOS E DEPÓSITOS EM VÁRIOS PAÍSES
A guerra, iniciada em 28 de fevereiro com os bombardeios de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã, adquiriu uma dimensão regional e ameaça o abastecimento mundial de petróleo, já que o tráfego foi paralisado no estratégico estreito de Hormuz.
O bloqueio do estreito de Hormuz tem implicações significativas para o comércio de petróleo e gás natural. Do canal, saem cerca de 20% do óleo bruto produzido em todo o mundo, e um bloqueio de longo prazo pode afetar em massa o fornecimento de combustíveis vitais para a economia mundial.
Contudo, no 13º dia do conflito, os danos às infraestruturas petrolíferas são cada vez maiores. Dois navios-tanque foram incendiados no mar do Iraque após supostos ataques vindos do Irã na madrugada de quinta-feira (noite de quarta no Brasil). Segundo autoridades iraquianas, as embarcações foram alvos de navios carregados de explosivos e os ataques causaram a morte de uma pessoa. A televisão estatal iraquiana exibiu imagens de um grande incêndio em um navio.
Horas antes, três outros navios haviam sido atingidos no Golfo: um navio de bandeira tailandesa, um navio porta-contêineres atingido na costa dos Emirados Árabes Unidos e uma embarcação atingida no Bahrein. A Guarda Revolucionária do Irã reivindicou a responsabilidade pelo ataque ao navio da Tailândia e alegou que o ataque foi motivado pelo não cumprimento de uma ordem.
Houve também ataques a depósitos de combustíveis relatados por Bahrein e Omã, e a um campo de petróleo em Shaybah, no leste da Arábia Saudita, que foram confirmados pelos países atingidos. Drones causaram danos novamente no aeroporto internacional do Kuwait e explosões foram ouvidas no centro de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Uma alta autoridade militar iraniana alertou na quarta-feira que o país poderia travar uma guerra prolongada que “destruiria” a economia mundial, enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, insistiu que o Irã estava enfrentando uma derrota iminente.
AGÊNCIA FALA EM MAIOR CHOQUE DE OFERTA DA HISTÓRIA
A AIE ( Agência Internacional de Energia) afirmou que a guerra no Oriente Médio está criando o maior choque de oferta de petróleo da história. Segundo a entidade, os países do golfo Pérsico reduziram a produção de petróleo em pelo menos 10 milhões de barris diários com o bloqueio do estreito de Hormuz.
“A produção de petróleo bruto foi reduzida em pelo menos 8 milhões de barris por dia (mb/d), em conjunto com 2 mb/d” relacionados a derivados de petróleo (incluindo os condensados), que foram “paralisados”, destacou a AIE em relatório.
Em particular, segundo a agência, foram registradas “importantes reduções da oferta” no Iraque, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, que foram atacados pela represália do Irã aos ataques que sofreu dos EUA e de Israel.
A situação pode representar uma oportunidade para vários produtores da América Latina, como Brasil, Venezuela e México, porém com valores de frete elevados.
O conflito já fez com que mais de três milhões de pessoas se deslocassem dentro do Irã para fugir dos confrontos, segundo a agência de refugiados da ONU.
A IMPORTÂNCIA DE HORMUZ
O estreito de Hormuz fica próximo ao Irã e tem apenas 54 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito.
Teerã prometeu que nem um litro de petróleo será exportado do golfo Pérsico enquanto os ataques dos EUA e de Israel continuarem, embora dados da indústria sugiram que suas próprias exportações, afetadas por sanções, continuam passando.
Forças americanas disseram ter atingido 28 embarcações iranianas de colocação de minas na quarta-feira, em meio a temores de que Teerã pudesse tornar o estreito de Hormuz inavegável.
Os novos ataques do Irã nesta quinta-feira vieram depois que Trump insistiu que Teerã estava “praticamente no fim da linha”. “Não significa que vamos acabar com isso imediatamente, mas eles estão”, disse o presidente dos EUA.
Ele também ameaçou que Washington poderia atacar infraestruturas que levariam uma geração para serem reconstruídas, ao mesmo tempo em que indicou que preferiria mostrar contenção.
“Se a Casa Branca imagina que o conflito vai parar quando Donald Trump decidir… estão cometendo um erro e ignorando as lições da história”, afirmou Pierre Razoux, diretor de estudos da Fundação Mediterrânea de Estudos Estratégicos, à agência de notícias AFP.
“O regime iraniano, que não tem mais nada a perder, vai travar uma guerra de desgaste contra os Estados Unidos e Israel para puni-los por sua agressão”, avaliou.
O Exército de Israel disse nesta quinta-feira que iniciou uma nova onda de ataques “em larga escala”, incluindo um que, segundo afirmou, teve como alvo um local usado para o desenvolvimento de armas nucleares.