Presidente da Alaiab: “Falta uma regulamentação regional para venda de alimentos e bebidas na América Latina”

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Camilo Montes, presidente da Alaiab, também integra a Andi, que representa empresas da Colômbia
(Divulgação)
  • Setor que movimenta US$ 285 bilhões ao ano na região esbarra em legislação conflitante, o que impede um crescimento mais robusto do comércio
  • Entidade que representa 435 mil empresas, majoritariamente pequenas e médias, quer aumentar o diálogo com o poder público nos próximos anos
Por Nathalia Lino

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
A falta de harmonização regulatória entre países da América Latina, com níveis distintos de exigência e ausência de padrões comuns, tem limitado a competitividade da indústria de alimentos e bebidas da região – formada por mais de 435 mil empresas, 96% delas micro, pequenas e médias (MPMEs). “A fragmentação regulatória dificulta o comércio intrarregional e gera custos adicionais para as empresas”, diz Camilo Montes, presidente da Aliança Latino-Americana de Associações da Indústria de Alimentos e Bebidas (Alaiab), em entrevista à AGÊNCIA DC NEWS. Segundo ele, enfrentar esse desafio exige ampliar o diálogo com o setor público, fortalecer a troca de informações técnicas e avançar na conscientização do consumidor, de forma a construir regulações mais lineares e capazes de atender, de maneira transversal, às demandas dos países da região. “Esse é o futuro do comércio cada vez mais globalizado.”

Em documentos técnicos apresentados pela entidade, a Alaiab sustenta que a construção de marcos regulatórios regionais – especialmente em áreas sensíveis como o etiquetado nutricional – precisa partir de evidência científica robusta, diálogo público-privado e alinhamento com referências internacionais, como o Codex Alimentarius, conjunto de padrões alimentares criado pela ONU em 1963. A avaliação do presidente da entidade é que normas fragmentadas, sem coordenação regional, criam obstáculos técnicos ao comércio de um setor que movimenta cerca de US$ 285 bilhões por ano e emprega mais de 7 milhões de pessoas diretamente na América Latina e no Caribe. “A orientação nutricional eficaz deve se concentrar no que o alimento contém e em como contribui para dietas equilibradas”, disse Montes, “mais do que na forma como foi elaborado”.

Nesse sentido, o executivo, sem revelar números, afirma que os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) variam significativamente conforme o país e o tamanho das empresas, mas afirmou haver uma tendência clara de crescimento contínuo nesta área. “A indústria está apostando em novas formulações, tecnologias de conservação, embalagens mais inteligentes e processos mais eficientes e sustentáveis”. Essas inovações, ainda de acordo com o presidente, permitem otimizar o uso de recursos, reduzir perdas e melhorar a eficiência em toda a cadeia de valor, ao mesmo tempo em que é impulsionada a criação de empregos qualificados. O executivo, que também é representante da Associação Nacional de Empresários da Colômbia (Andi), foi reeleito como presidente da entidade para o período 2025-2027 e agenda para o próximo ciclo é também estimular a produção menos poluente e embalagens mais sustentáveis. Confira a entrevista.

AGÊNCIA DC NEWS – Como foi o ano de 2025 para as empresas dos setores de alimentos e bebidas? Qual a expectativa de vocês?
CAMILO MONTES –
A perspectiva para o fechamento de 2025 é de um otimismo prudente. Projetamos que a indústria de alimentos e bebidas na América Latina e no Caribe continuará apresentando uma trajetória de crescimento sustentado e resiliente, embora dependente da evolução do contexto macroeconômico e regulatório. Estamos otimistas porque temos um propósito formidável: contribuir para a segurança alimentar de nossa região e do planeta.

AGÊNCIA DC NEWS – Hoje, qual é a principal reclamação do setor?
CAMILO MONTES –
A indústria de alimentos e bebidas não se queixa; o que apresentamos é o grande desafio regulatório presente na região, por um lado, com ampla fragmentação por não considerar toda a cadeia de valor e, em alguns casos, a instabilidade regulatória, que gera incerteza e dificulta o planejamento de longo prazo.

AGÊNCIA DC NEWS – Essa instabilidade trava o comércio global?
CAMILO MONTES –
Sim. Impacta significativamente a indústria de alimentos e bebidas na América Latina e no Caribe. A região encontra-se no meio de uma transformação regulatória importante, e o setor enfrenta vários desafios urgentes.

AGÊNCIA DC NEWS – Como isso afeta o setor?
CAMILO MONTES –
Dificulta o comércio intrarregional e gera custos adicionais para as empresas, especialmente para as pequenas e médias. Além disso, há falta de harmonização com padrões internacionais reconhecidos, como o Codex Alimentarius, o que pode limitar a competitividade das empresas. As indústrias que representamos sempre cumprem as regras estabelecidas pelos países para sua operação. Mas a constante fragmentação regulatória impõe uma barreira de crescimento significativa.

AGÊNCIA DC NEWS – Como funciona essa fragmentação? Varia muito de país para país?
CAMILO MONTES –
Sim, e algumas delas nem sempre estão fundamentadas em evidências científicas robustas, o que pode resultar em medidas desproporcionais ou ineficazes. Da mesma forma, quando há pouca inclusão e escuta do setor privado nos processos regulatórios, limita-se a possibilidade de desenhar políticas públicas mais equilibradas, práticas e adaptadas à realidade da indústria, afetando a qualidade do diálogo e a implementação efetiva das normas.

AGÊNCIA DC NEWS – Como reverter esse obstáculo?
CAMILO MONTES –
É fundamental fortalecer os canais de comunicação e participação entre autoridades e setor privado, promovendo a colaboração público-privada e garantindo que as decisões regulatórias sejam baseadas em evidências científicas e análises de impacto.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual o peso desse setor para a economia da América Latina?
CAMILO MONTES –
A indústria é composta por mais de 435 mil empresas, das quais 96% são MPMEs, e contribui com mais de US$ 285,2 bilhões para o PIB regional. A indústria de alimentos e bebidas gera mais de 7 milhões de empregos diretos na América Latina e no Caribe. E, para cada um deles, são criados em média 4,1 empregos indiretos, contribuindo significativamente para o desenvolvimento econômico

AGÊNCIA DC NEWS – O investimento em inovação segue alto em todos os países?
CAMILO MONTES – A Alaiab reconhece a inovação como um pilar estratégico para o desenvolvimento sustentável e a competitividade do setor. Embora os níveis de investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) variem significativamente conforme o país e o tamanho das empresas, existe uma tendência clara de crescimento contínuo nesta área. Apesar de não fornecermos números exatos e consolidados de investimento regional (devido à diversidade de países e à natureza privada dos dados), como exemplo, podemos destacar que a indústria está apostando em novas formulações, tecnologias de conservação, embalagens mais inteligentes e processos mais eficientes e sustentáveis.

AGÊNCIA DC NEWS – Essas inovações permitem otimizar o uso de recursos?
CAMILO MONTES –
Sim. Também reduzir perdas e melhorar a eficiência em toda a cadeia de valor, impactando positivamente a produtividade. Ao mesmo tempo, impulsionam a criação de empregos qualificados, fomentam o desenvolvimento de fornecedores e fortalecem os ecossistemas locais de pesquisa e tecnologia.

AGÊNCIA DC NEWS – Há uma busca maior do consumidor por alimentos mais saudáveis e evitar os ultraprocessados, como a indústria tem se adaptado?
CAMILO MONTES –
Consideramos que o uso do termo ultraprocessados carece de base científica sólida, pois confunde o nível de processamento com a qualidade nutricional dos alimentos. Isso pode contribuir para estigmatizar tecnologias alimentares seguras, úteis e essenciais para garantir a disponibilidade de produtos acessíveis e de qualidade. Os resultados em saúde são determinados pelos padrões dietéticos totais, pela qualidade nutricional, pelo tamanho das porções e por fatores de estilo de vida, e não apenas pelo nível de processamento.

AGÊNCIA DC NEWS – Como mensurar a qualidade nutricional de forma mais fiel, então?
CAMILO MONTES –
A orientação nutricional eficaz deve se concentrar no que o alimento contém e em como contribui para dietas equilibradas, mais do que na forma como foi elaborado. Tentar desqualificar alimentos e bebidas pelo nível de processamento não tem conduzido a melhores resultados de saúde pública na região.

AGÊNCIA DC NEWS – E como diminuir o estigma da indústria de alimentos e bebidas?
CAMILO MONTES –
Somos conscientes de que a indústria de alimentos e bebidas é parte da solução e não do problema. Os membros da Alaiab estão reformulando produtos para reduzir nutrientes sensíveis à saúde pública, como açúcares, sódio e gorduras saturadas; oferecendo rotulagem transparente que permita melhores decisões ao consumidor; e realizando marketing responsável, especialmente dirigido a crianças, para que as famílias estejam melhor informadas.

AGÊNCIA DC NEWS – E como esclarecer essas questões para entes públicos e para a sociedade civil?
CAMILO MONTES –
Os esforços devem focar na promoção de dietas diversificadas, no apoio à reformulação e, sobretudo, em melhorar o acesso a alimentos saudáveis e acessíveis para todas as populações. Tudo isso feito em diálogo constante com o poder público, usando práticas internacionais e sem alinhar nível de processamento com qualidade nutricional.

AGÊNCIA DC NEWS – Outro tópico sensível para governos e cidadãos é sobre a produção de resíduos, em especial das embalagens. Como vocês enxergam essa questão?
CAMILO MONTES –
Como indústrias de alimentos e bebidas, nosso compromisso está centrado em promover uma evolução constante rumo a uma economia circular para as embalagens.

AGÊNCIA DC NEWS – Isso envolve logística reversa?
CAMILO MONTES – 
A economia reversa, inserida no conceito mais amplo de economia circular, constitui hoje uma oportunidade estratégica e uma necessidade operacional inadiável para garantir a sustentabilidade e a rentabilidade futura do setor de alimentos e bebidas. Esse processo é definido como o retorno das embalagens pós-consumo (após serem utilizadas pelo consumidor) desde o ponto de uso até a cadeia de valor, para sua coleta, reciclagem, reutilização ou disposição adequada.

AGÊNCIA DC NEWS – Mas para isso é necessário o que o cidadão, em geral, mude seu entendimento sobre o que é resíduo…
CAMILO MONTES – 
O foco está em fomentar um sistema no qual as embalagens sejam vistas como recursos valiosos. Para isso, é fundamental continuar impulsionando o diálogo e a colaboração para fortalecer as capacidades de coleta e valorização, reconhecendo que as estratégias devem se adaptar às condições e realidades de cada país.

AGÊNCIA DC NEWS – Como aplicar isso na prática?
CAMILO MONTES – 
O setor assumiu um compromisso firme com a sustentabilidade das embalagens e atua ativamente em sua transformação. Nesse contexto, as empresas avançam no redesenho de suas embalagens para torná-las mais eficientes, recicláveis e reutilizáveis.

AGÊNCIA DC NEWS – Isso reduz também a emissão de carbono, não?
CAMILO MONTES – 
Sim. E as empresas do setor estabeleceram metas ambiciosas de redução de emissões, variando entre 25% e 50% até 2030, e muitas já trabalham voluntariamente com uma visão de neutralidade de carbono para 2050.

AGÊNCIA DC NEWS – Esses investimentos em inovação e sustentabilidade já podem ser sentidos nos negócios?
CAMILO MONTES –
O retorno dos investimentos não se reflete apenas em resultados financeiros de curto prazo, mas também no fortalecimento das capacidades produtivas, na modernização tecnológica, na melhoria da sustentabilidade ambiental, no cumprimento regulatório e no aumento do valor estratégico das operações tanto para as empresas quanto para os países da região.

AGÊNCIA DC NEWS – Você assumiu novamente recentemente. Quais os principais objetivos da sua gestão?
CAMILO MONTES –
A estratégia da Alaiab busca consolidar um bloco regional unificado, inovador e resiliente, em que a cooperação público-privada e a facilitação do comércio sejam motores que permitam à indústria de alimentos e bebidas da América Latina e do Caribe não apenas competir, mas liderar globalmente. Queremos fortalecer o diálogo público-privado e a colaboração técnica entre países para reduzir barreiras regulatórias e facilitar um comércio mais fluido e eficiente na região.

AGÊNCIA DC NEWS – O que você já conquistou e o que falta?
CAMILO MONTES –
Conseguimos consolidar uma agenda comum em 16 países da América Latina e do Caribe, baseada em princípios compartilhados e respeitando as particularidades de cada país, o que permitiu projetar uma voz regional mais forte, coesa e representativa em espaços de diálogo e incidência internacional. Ainda persistem desafios para avançar rumo a uma maior harmonização regulatória e aprofundar a cooperação técnica em temas-chave.

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