Primeira-ministra japonesa aposta em isenção fiscal e retórica contra imigrantes em eleição decisiva

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PEQUIM, JAPÃO (FOLHAPRESS) – A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, está prestes a viver sua primeira grande prova eleitoral. Após fazer história ao se tornar a primeira mulher a exercer o cargo de premiê do Japão, a conservadora dissolveu a Câmara Baixa e convocou para este domingo (8) uma eleição que colocará em xeque sua plataforma, baseada em uma política fiscal expansionista e retórica contra imigrantes.

A aposta é alta. Conquistar maioria seria questão de honra para qualquer premiê vindo do Partido Liberal Democrático (PLD), a sigla que domina a política japonesa nas últimas sete décadas –desde 1955, o PLD só esteve fora do poder duas vezes, entre 1993 e 1994 e novamente de 2009 a 2012. Dos 32 premiês que governaram o país nos últimos 70 anos, 26 eram liberais democratas.

O PLD, porém, viu seu poder enfraquecido pelas derrotas eleitorais de 2024, quando perdeu a superioridade na Câmara Baixa, a mais poderosa do parlamento japonês, e de 2025, ao fracassar na Câmara Alta.

Sem maioria pela própria legenda, o partido hoje consegue aprovar medidas por meio da coalizão feita com o Partido da Inovação do Japão (JIP, na sigla em inglês). Ainda assim, a aliança garante apenas uma superioridade apertada.

Agora, todas as 465 cadeiras da Câmara Baixa estão em jogo. Para que o PLD garanta a maioria simples, seja de forma independente ou por meio de coalizão, será necessário atingir 233 assentos. A aliança da oposição, conquistada por meio de um acordo entre o Partido Democrático Constitucional do Japão e o Komeito, que desembarcou da antiga e duradoura aliança com o PLD pouco antes do pleito que elegeu Takaichi, também vê na votação deste domingo a possibilidade de ganhar a maior fatia da Casa.

Se triunfar, a governante terá poder suficiente para passar medidas de aumento de gastos sem depender de siglas menores. Se perder a maioria na coalizão, disse que renunciará. Ainda que saia vitoriosa, terá que encarar a oposição na Câmara Alta, que o premiê não pode dissolver.

Pesquisas de opinião indicam que Takaichi terá uma vitória tranquila. Segundo levantamento do jornal Asahi publicado no domingo (1º), o PLD deve ultrapassar as 233 cadeiras necessárias para a maioria e, se levada em consideração a aliança com o JIP, a primeira-ministra terá em suas mãos cerca de 300 assentos para garantir a aprovação de suas medidas.

Já uma pesquisa de opinião realizada pela emissora pública NHK e divulgada na segunda-feira (2) mostra que 58% aprovam o gabinete de Takaichi, enquanto 26% desaprovam.

A governante de 64 anos também surpreendeu com o alto apoio entre os mais jovens, com 31,8% dos entrevistados entre 18 e 29 anos e 32,5% daqueles entre 30 e 39 declarando apoio ao PLD, o que configurou uma margem ampla em relação aos demais partidos.

Sua base principal, porém, ainda está entre os grupos mais velhos, oscilando entre 32,5% e 39,3% para os grupos entre 40 e 79 anos, e chegando a 43,7% entre os entrevistados com mais de 80 anos.

Uma de suas principais promessas de campanha propõe uma suspensão do imposto de 8% sobre o consumo de alimentos, o que ajudaria famílias a lidar com o aumento de preços. A proposta tem apoio da população, segundo a pesquisa da NHK.

Embora popular, especialistas argumentam que o movimento é arriscado, pois o país, que tem uma enorme dívida pública, não teria como arcar com os custos da medida.

“Em vez de aumentar a prosperidade dos japoneses comuns, há o risco de que a irresponsabilidade fiscal alimente a inflação e provoque maior enfraquecimento do iene, além de elevar os custos de endividamento, empobrecendo a todos”, afirma o professor Edward Vickers, docente na Universidade de Kyushu.

Takaichi também promete um aumento expressivo nos investimentos militares, indo de encontro à Constituição pacifista do país, que abdica da guerra como instrumento de política externa. Seu governo planeja uma elevação dos gastos da defesa para 2% do PIB (Produto Interno Bruto), o dobro do 1% gasto por décadas.

A preocupação com a capacidade militar é também uma resposta às pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que pede aos aliados da região para fortalecerem sua defesa comprando tecnologias americanas e respondendo ao ambiente considerado instável para Washington. Na sexta-feira (6), Trump declarou apoio a Takaichi nas urnas, dizendo que ela “merece reconhecimento pelo trabalho que vem fazendo”.

A governante chegou ao poder em um momento em que o Japão vê crescer o número de imigrantes -e ela tem planos para lidar com a questão. Sua aposta está no endurecimento das regras migratórias como uma de suas plataformas eleitorais.

Vickers, residente permanente no país há 15 anos, afirma estar apreensivo com a retórica anti-estrangeiros e com as promessas de introduzir uma fiscalização mais rigorosa sobre aqueles que entram no Japão.

“Takaichi está fomentando a xenofobia em um momento em que a população japonesa envelhece rapidamente, a força de trabalho está em forte declínio, a economia depende cada vez mais do turismo e as universidades japonesas se tornam cada vez mais atraentes para estudantes estrangeiros”, diz.

“Os estrangeiros não são a fonte dos problemas do Japão, eles fazem parte da solução.”

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