A anta que vestiu fraque
Declarações ofensivas de um delegado de polícia a Lula fazem parte do clima em que petistas e tucanos polemizam , apesar de culpas semelhantes de corrupção
O mundo gira, a Lusitana roda, e o tempo voa, mas uma coisa o PT não esquece: o infeliz comentário atribuído a um delegado de polícia da equipe de colaboradores do juiz que preside a Operação Lava Jato, Sérgio Moro, que chamou o ex-presidente Lula de "uma anta".
O comentário do delegado continua servindo de munição para brincadeiras de amigos e provocações de inimigos, mas o ex-presidente tem reagido às piadinhas com fair-play.
Brincadeiras e provocações à parte, o PT prefere recomendar aos agressores que ninguém deve ser xingado e nem humilhado, sobretudo um "retirante nordestino" que chegou em São Paulo na boleia de um caminhão empoeirado e, anos depois, trocou o macacão de operário por um traje social da grife Ricardo Almeida, para assumir duas vezes a presidência da República.
Os petistas estranharam, na época, que a expressão chula tivesse saído da boca de alguém que cursou uma faculdade e que se especializou na arte de caçar e depois "virar babá" de bandidos.
Desde que tomou conhecimento da declaração, o partido passou a ter a sensação de que o delegado estaria fazendo coro com a oposição que ainda acha que Lula tem parcela de culpa no conjunto de denúncias de corrupção na Petrobrás, porque alguns diretores da estatal envolvidos no escândalo das propinas foram indicados para os cargos quando era o presidente.
Os petistas preferem reagir aos ataques do PSDB e à ameaça de punir a presidente Dilma Rousseff com a aprovação do pedido de impeachment, justificando que a Polícia Federal tem sido atuante nos governos do PT, mas que foi "inoperante" nos governos do PSDB, citando como exemplo a denúncia que o jornalista Paulo Francis fez em 1996/97 - primeiro governo de Fernando Henrique - de que diretores da Petrobrás estariam fazendo depósitos milionários em bancos suíços.
Segundo o PT, a denúncia "caiu no vazio". O partido lembra ainda que o ex-gerente da Petrobrás, Pedro Barusco, denunciou na delação premiada à Operação Lava Jato que já recebia propina na Petrobrás no governo FHC, mas a revelação não mereceu destaque na imprensa.
Tucanos e petistas continuam se armando para troca de chumbo grosso na próximas campanhas, a começar pela eleição de prefeito no ano que vem: o PSDB insistindo na denúncia de que o PT alimentou a corrupção na Petrobrás durante 12 anos, comprometendo os governos de Lula e de Dilma, e o PT acusando os tucanos de envolvimento em outro escândalo semelhante, o do propinoduto - que também teve a duração de 12 anos - no Metrô e Trens Metropolitanos de São Paulo, manchando os governos de Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin, além de lembrar da denúncia de que a reeleição de FHC teria sido comprada no Congresso.
No linguajar de tucanos e petistas, portanto, corruptos e corruptores existem em profusão, lá, cá e acolá, de preferência abrigados e atuando em perfeita sintonia com o PT, PSDB e PMDB, partidos que sempre estão no Poder e que contratam as milionárias obras com as empreiteiras mais fortes do país, e que hoje assistem muitos de seus diretores presos na Operação Lava Jato pelo envolvimento com o pagamento de propinas a ex-diretores corruptos da Petrobrás.
Atrelados aos partidos que elegem os cerca de 6 mil prefeitos, 27 governadores e mais o governador do Distrito Federal e o presidente República, corruptos e corruptores ficam à vontade para roubar o Estado e os contribuintes.
Foi dito e repetido que, no Brasil, não existe uma única obra pública que não seja irrigada pela propina. Uma coisa que o eleitor ainda espera é que PT e PSDB façam uma pausa na troca de farpas de hoje e certamente as que virão nas futuras campanhas eleitorais, para que expliquem, com mais transparência - embora tardiamente - que tipo de acordo fizeram com os empreiteiros e outros segmentos do empresariado, quando sacaram de seus cofres ou de seus caixa-2, R$ 300 milhões cada um dos partidos, para pagar as milionárias campanhas de Dilma Rousseff e Aécio Neves, na eleição do ano passado.
As campanhas de Dilma e Aécio, portanto, custaram, juntas, R$ 600 milhões, e os principais doadores foram os empreiteiros. Essas doações milionárias são feitas aos candidatos que têm a preferência dos eleitores e que aparecem nas pesquisas com chance maior de se eleger.
Os empreiteiros sabem que os valores doados serão ressarcidos quando assinam contratos de obras com os candidatos eleitos e empossados, sejam nas prefeituras, governos estaduais e presidência da República.
Geralmente, nos contratos das obras são camuflados juros e correção monetária, além de superfaturamento de preços, de onde saem as propinas para irrigar os bolsos dos diretores corruptos das estatais.

