Às vezes, nem a mão santa resolve!
Sua empresa é a que comporta um Oscar ou a que fará o papel de o revelá-lo para o mundo e estimulá-lo a buscar maiores desafios e estrutura? Não adianta apelar para o clichê de que as pessoas são o verdadeiro ativo do seu negócio: é preciso convencer

O Oscar Schmidt se foi aos 68 anos. Bastante jovem para tempos em que a expectativa de vida permite-nos sonhar ir longe e as estimativas são de grande aumento do número de pessoas centenárias. Um dos maiores ídolos do esporte brasileiro, não lhe faltava carisma e uma capacidade de colocar os sentimentos para fora. Quem o conhecia, deve se lembrar dele chorando ou muito emocionado em quadra. A vitória sobre os Estados Unidos nos Jogos Panamericanos de 1987 foi épica. Recebeu merecidas homenagens.
Mas o que ele tem a ver com psicanálise e empreendedorismo? Um bocado! Falar de Oscar e pensar em obsessão, é pensar em realização, é testemunhar alguém indo em busca do seu desejo.
Se teve algo que falavam dele e ele nunca concordou foi com o apelido de Mão Santa. Educadamente soltava um: “Mão Santa o caramba! Mão treinada!”. Sempre fez questão de contrapor o quanto treinava, algumas centenas de arremessos por dia, depois dos treinos. E, diz a lenda que ele próprio ajudou a alimentar, que não ia embora enquanto não acertasse 20 arremessos de três pontos, linha que fica a quase 7 metros da cesta, na sequência. Errasse, no 5 ou no 19, a contagem era zerada. São poucas as pessoas que conseguem se comportar assim.
Por um breve período da minha vida o basquete foi minha maior fonte de dedicação e sonho. Um médico disse que eu teria por volta de dois metros, o que reforçou a situação. Parei de crescer muito antes disso e ainda rompi os ligamentos do joelho e priorizei entrar na faculdade. Eu levava jeito, cheguei a jogar no infanto do Monte Líbano. Chamar para si a responsabilidade de um jogo apertado requer muita confiança e nesse ponto o basquete é insuperável. Segundos chegam a parecer eternidade.
Nunca tive a disciplina do Oscar e nunca encontrei ninguém que tivesse, nem parecida. Mas todo técnico quer um Oscar no time? Não se pode esquecer que era um fominha assumido, capaz de chamar para si quase todos os holofotes. Verdade que seu jeito carismático devia driblar alguma saias justas, mas não é fácil. Que tipo de líder alguém assim demanda?
No seu negócio você consegue desenvolver Oscares? Consegue compor da melhor forma possível a equipe? Manter a turma motivada? Mesmo encarando os desafios normais do mercado e as limitações inevitáveis a todo negócio? Sua empresa é a que comporta um Oscar ou a que fará o papel de o revelá-lo para o mundo e estimulá-lo a buscar maiores desafios e estrutura? Não adianta apelar para o clichê de que as pessoas são o verdadeiro ativo do seu negócio: é preciso convencer!
Todo empreendedor bem-sucedido precisa de sorte, de bons produtos, mas principalmente de uma habilidade de lidar bem com pessoas. Dar espaço e saber cobrar e estimular. Se fosse fácil, o mundo seria apenas virtuoso. É claro que é importante ficar atento a si mesmo, saber e ter a coragem de reconhecer minimamente como se funciona, sem idealizações. Nisso a psicanálise pode ajudar, a constituir alguém capaz de liderar um Oscar, capaz de dar conta do próprio ego e assumir seu papel.
A psicanálise não quer melhorar a performance de ninguém, não determina certo ou errado, não tem guia de comportamento nem promessas de ação. Não contrate um psicanalista para tal que ele não vai entregar, tampouco vai prometer essa entrega. Mas está cheio de gente por aí que promete, vende, mas também não entrega. Como líder do negócio ou de equipe, você precisa alinhar expectativas.
As estruturas na psicanálise são uma forma interessante de olhar para os humanos, ainda que não sejam discutidas na relação entre analista e analisante. São a maneira como cada um deu conta de lidar com a falta e com as restrições inerentes à vida. Correndo risco de ver Freud e Lacan revirarem no túmulo, pode-se dizer que os neuróticos sofreram com os limites impostos pela cultura e lei, mas a aceitaram, ainda que com sofrimento e culpa, e bota sofrimento e culpa nisso. O psicótico recusou esses limites e se impõe uma ruptura com a realidade para dar conta. Já o perverso admite que há esses limites, mas os denega, se recusa a aceitar e encontra uma forma de manipular as circunstâncias para seu próprio prazer.
Sigmund Freud quando estruturou a psicanálise a imaginou como uma alternativa para os neuróticos, pessoas que vieram depois expandiram essa visão. Jacques Lacan teve uma importância grande na questão dos psicóticos.
Não tenho conhecimento de um técnico de basquete ou de futebol que leve a fundo a psicanálise como sua aliada. É comum termos psicólogos de esporte, podem funcionar, mas é quase como o tal apelido do Oscar, funciona se os caras treinarem muito, muito mesmo. Ainda que no esporte, o questionamento importante na vida, e estimulado no divã, pode não fazer tão bem. Frações de segundo não podem ser desperdiçadas. Na vida o cronômetro funciona em outra escala, felizmente.
Aliás, a determinação do cestinha brasileiro, e maior pontuador do mundo até ser ultrapassado há pouco por LeBron James e com vários recordes indica um comportamento obsessivo. Na medida em que buscou o perfeccionismo, tentou controlar as variáveis treinando acima da média, perseguindo recordes e mais. Mas também pode ser visto como um histérico à medida em que nunca se satisfez, em que imprimia uma intensidade emocional, desejava ser reconhecido.
Foi menos histérico quando concordou que atingiu o que sonhava ao ser admitido no Hall da Fama do Basquete. Lá, diante de alguns dos principais colegas e estrelas do esporte, falou com firmeza e sem receio de errar, e parecer obsessivo: “eu treinei mais do que todo mundo nesse teatro!”.
Perguntado sobre seu maior lamento, não hesitava em dizer que foi o erro no jogo contra a União Soviética na Olimpíada de 1988, o Brasil perdia por dois pontos, faltava pouco tempo, o time preparou a bola para um arremesso dele, e daquela vez não entrou. O Brasil acabou ficando em quinto lugar, os soviéticos seguiram e foram campeões. A medalha olímpica não veio numa carreira cheia de conquistas e recordes, nem um atleta tão recordista como ele conseguiu tudo o que queria, poderia observar Freud. Que já reconhecia nossa capacidade de sempre querer há mais de século, desde quando a União Soviética nem existia.
Oscar também não ficou na NBA porque teria que abrir mão de jogar pelo Brasil, algo que lhe era importante. Do que você está disposto a abrir por outra atividade que seja também importante? Esses pesos e medidas podem e devem ser discutidos numa análise, mas um analista nunca vai te mandar fazer 500 arremessos por dia. Como formar ou administrar Oscares no seu time? Taí um baita desafio!
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