Associativismo ou estagnação: o Brasil vai escolher?
A pergunta que fica não é se o associativismo funciona. Os dados mostram que funciona. A questão é outra: por que ainda tratamos como secundário aquilo que, na prática, já se provou essencial?

O Brasil errou no diagnóstico do próprio problema. Não falta empresa, falta conexão entre empresas. Em um país com mais de 25 milhões de negócios ativos, a insistência em tratar crescimento como uma questão exclusivamente macroeconômica ignora um fator central: a incapacidade de cooperação da base produtiva. O resultado é uma economia volumosa, mas pouco eficiente.
A consequência desse modelo é visível. O país amplia o número de empresas, mas mantém a produtividade estagnada há décadas, segundo o IBGE. Pequenos e médios negócios, que representam cerca de 94% das empresas ativas, seguem operando de forma isolada, com baixa capacidade de negociação, inovação e acesso a mercados. O Brasil cresce em quantidade, mas não consegue transformar esse volume em competitividade.
Essa fragmentação tem custo econômico direto. Empresas desarticuladas perdem escala, desperdiçam oportunidades e reduzem seu potencial de inovação. Não por acaso, estudos da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam que empresas inseridas em redes colaborativas têm maior probabilidade de inovar e exportar. A diferença não está apenas no porte ou no setor, mas na capacidade de atuação coletiva.
É nesse ponto que o associativismo deixa de ser uma agenda institucional e passa a ser uma estratégia econômica concreta. Ao organizar empresas, alinhar interesses e criar ambientes de cooperação, ele reduz ineficiências estruturais e amplia a competitividade. Mais do que representar, associações empresariais conectam, e essa conexão gera resultado.
Santa Catarina é um exemplo claro desse modelo em funcionamento. O estado registrou crescimento estimado de 3,9% do PIB em 2025, com avanço de 4,4% nas exportações e a menor taxa de desemprego do país, de 2,2%. Também alcançou mais de 1,6 milhão de empresas ativas, com destaque para pequenos negócios e microempreendedores. No setor de serviços, o crescimento foi de 3,2%, acima da média nacional de 2,8%, segundo o IBGE, o quinto ano consecutivo de expansão e o terceiro acima da média do país.
Os números não são isolados. Santa Catarina também registrou recorde histórico de US$ 12,2 bilhões em exportações em 2025, com forte presença do agronegócio e diversificação de mercados internacionais. Esse desempenho está diretamente ligado a um modelo econômico descentralizado, sustentado por uma rede consistente de entidades empresariais e pela cultura de cooperação.
Esse padrão se repete em outras regiões do país. Estados com maior organização produtiva e presença de entidades estruturadas, como São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, concentram cadeias mais competitivas e maior capacidade de inserção nacional e internacional. O ponto em comum é claro: onde há articulação, há mais desenvolvimento.
O associativismo atua onde políticas públicas nem sempre conseguem alcançar. Ele organiza demandas, constrói agendas comuns e reduz assimetrias de informação. Ao reunir empresas de diferentes portes, permite acesso coletivo a soluções que seriam inviáveis de forma individual, como qualificação, inteligência de mercado e interlocução institucional. Em um país marcado por desigualdades regionais, essa coordenação deixa de ser diferencial e passa a ser necessidade.
Ainda assim, o tema segue subestimado no debate econômico nacional. Discute-se competitividade olhando para Brasília, mas pouco se observa o que acontece nos territórios, onde empresas de fato operam. O crescimento sustentável não será resultado apenas de reformas estruturais, mas da capacidade de organização da base produtiva.
Tratar o associativismo como algo secundário é insistir em um modelo que já demonstrou suas limitações. Por outro lado, ampliá-lo exige evolução. Incorporar tecnologia, dados e novas formas de engajamento empresarial é fundamental para manter sua relevância em uma economia cada vez mais dinâmica - debate que, inclusive, ganha espaço em iniciativas recentes em Santa Catarina, com encontros que reúnem lideranças empresariais para discutir o papel da articulação no desenvolvimento econômico, a exemplo do Conexa, previsto para os dias 18 e 19 de maio, em Florianópolis.
A pergunta que fica não é se o associativismo funciona. Os dados mostram que funciona. A questão é outra: por que ainda tratamos como secundário aquilo que, na prática, já se provou essencial?
*Célio Bernardi é presidente da Associação Empresarial de Florianópolis (Acif), advogado e empresário no ramo da tecnologia
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