Varejo farmacêutico independente tem retração inédita, alerta Febrafar
Pela primeira vez na série recente, número de lojas fechadas supera o de abertas no país na virada de 2025 para 2026. Para especialistas, associativismo e acesso à tecnologia são caminhos para aprimorar gestão e reverter tendência

O mercado de varejo farmacêutico está encolhendo. Esse movimento é puxado principalmente pelo fechamento de farmácias independentes: apenas em 2025 foram 6.555 lojas fechadas contra 5.459 abertas, resultando em um saldo negativo de 1.096 unidades. Os dados são da IQVIA (especialista global em análises avançadas, soluções tecnológicas e serviços de pesquisa clínica para o setor de saúde).
O dado, inédito, é um alerta que o setor não pode ignorar, segundo Edison Tamascia, presidente da Febrafar (Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias) e empresário do setor farmacêutico com mais de 50 anos de atuação no segmento.
Depois de atingir 94.237 unidades em dezembro de 2025, o número caiu para 93.975 em janeiro de 2026 e seguiu em queda para 93.850 em fevereiro. Embora a variação percentual pareça pequena, o movimento carrega um significado importante: o crescimento deixou de ser automático e passou a depender de eficiência operacional e escala.
Para Tamascia, os números ainda não indicam uma crise do setor - que segue crescendo em média dois dígitos anualmente -, mas uma elevação do nível de exigência do mercado. "O varejo farmacêutico brasileiro entrou em uma nova fase. Não é mais um mercado que cresce por inércia nem um ambiente que permite improvisos. A pressão aumentou, as margens ficaram mais estreitas e a régua subiu. Operar bem deixou de ser diferencial e virou condição básica para continuar no jogo”, afirma.
O Brasil ainda mantém uma característica singular no cenário internacional, pois mais da metade do varejo farmacêutico é formada por operações independentes. Esse modelo sempre foi viável devido à proximidade da cadeia, com indústria acessível, distribuidores regionais fortes e um associativismo historicamente relevante. No entanto, esse equilíbrio vem sendo colocado à prova.
“O jogo ficou mais técnico”, avalia. “Hoje não basta comprar bem ou negociar pontualmente. O varejo exige gestão, método, controle de estoque, leitura do comportamento do consumidor, estratégia de categorias e disciplina operacional. A farmácia que atua sozinha, sem estrutura e sem apoio, enfrenta um ambiente cada vez mais competitivo e menos tolerante ao erro.”
A análise dos últimos cinco anos reforça essa tendência, aponta o presidente da Febrafar. Enquanto grupos mais estruturados ampliaram sua presença, o pequeno varejo perdeu participação, e isso ocorre menos por falta de esforço do empresário, e mais pela complexidade crescente do negócio. “Decisões baseadas apenas em percepção ou experiência deixaram de ser suficientes.”
Nesse novo cenário, o uso de dados tornou-se decisivo. “Dados não são mais um diferencial restrito aos grandes grupos. Eles fazem parte da gestão. Quem não consegue enxergar com clareza o que acontece no ponto de venda, no comportamento do consumidor e na performance das categorias está operando em desvantagem”, destaca.
União que faz a força
É nesse contexto que o associativismo ganha ainda mais relevância. “Associativismo não é só escala. É acesso à inteligência, processos, treinamento, acompanhamento e troca de experiências. Sozinho, o empresário fica exposto; junto, ganha estrutura para competir”, diz Tamascia.
Dentro desse contexto, segundo ele, entram os ganhos do associativismo, que, em sua avaliação, se consolidou como o caminho mais seguro para o varejo independente competir nesse novo cenário. Não se trata apenas de ganho de escala, mas de acesso a inteligência, processos, tecnologia, capacitação e acompanhamento estratégico. E qualquer farmácia pode participar do modelo associativista.
O modelo também permite que o empresário mantenha sua autonomia, mas com uma estrutura profissional que amplia sua capacidade de competir. "Na prática, isso significa acesso a melhores condições comerciais, ferramentas de gestão, uso de dados para tomada de decisão, treinamento de equipes e suporte estratégico contínuo. Isso reduz riscos e aumenta a eficiência do negócio", explica.
Nesse processo, lembra o dirigente, a Febrafar tem um papel central, por reunir mais de 19 mil farmácias em todo o país, organizadas em 73 redes associativistas, com presença em 3.899 cidades e atuação nos 27 estados. "Mais do que escala, atuamos como uma plataforma estratégica que integra tecnologia, inteligência de dados, programas de fidelização e soluções de gestão. Representamos um faturamento de mais de R$ 41,8 bilhões, com projeção de chegar a algo entre R$ 46 bilhões e R$ 47 bilhões com a consolidação da nossa base de dados."
Para apoiar, orientar e ajudar a fomentar o dia a dia dos negócios das farmácias independentes, operam um ecossistema de tecnologia com soluções que utilizam IA para apoiar desde a definição de mix de produtos até a execução no ponto de venda e o relacionamento com o consumidor.
Só o programa de fidelização da rede associativista, por exemplo, reúne mais de 65 milhões de consumidores cadastrados e movimenta mais de R$ 1 bilhão por mês - o que mostra que, de acordo com Tamascia, o sistema associativista não representa apenas um grupo de farmácias, mas uma estrutura organizada, com estratégia, tecnologia e ferramentas que permitem ao varejo independente competir de forma sustentável.
"Hoje, operar sozinho se tornou um risco alto demais. O associativismo oferece a estrutura necessária para enfrentar a complexidade do mercado com mais segurança, eficiência e competitividade", destaca.
Ao ser questionado se a tendência de retração no setor também pode ser reflexo do projeto de lei sancionado recentemente, que permite a venda de alguns produtos farmacêuticos em supermercados, o presidente da Febrafar disse ao Diário do Comércio que não vê relação direta entre a retração observada no número de farmácias e a nova legislação.
Esse movimento, segundo ele, está muito mais ligado a uma mudança estrutural do mercado, que se tornou mais exigente, mais técnico e menos tolerante à ineficiência. Também faz questão de reforçar que a entidade nunca foi contra farmácias em supermercados.
"O que sempre defendemos foi a igualdade de regras. A exigência de ambiente segregado, presença obrigatória de farmacêutico e o cumprimento rigoroso das normas sanitárias garantem que não haja desequilíbrio concorrencial", explica. "O ponto central hoje não é o formato de operação, mas a capacidade de gestão. O varejo farmacêutico continua forte e em crescimento, mas deixou de avançar por inércia. Quem não tem eficiência operacional, controle e estratégia acaba ficando para trás."
A Febrafar congrega 70 redes associativistas e representa mais de 19 mil PDVs em todo o país. Já Tamascia preside a Farmarcas, organização responsável por 11 redes de drogarias associativistas, mais de 1,7 mil PDVs, e a rede Ultra Popular.
Presença digital = fator de sobrevivência
O varejo farmacêutico está passando por uma transformação pesada, e muitos não perceberam ainda. O dono de farmácia continua olhando para o concorrente da esquina, enquanto o verdadeiro concorrente está no digital, operando com escala, conveniência e tecnologia.
A avaliação é de Stephenson Seleber, presidente da Alpha7 Software, especializada em tecnologia para o varejo farmacêutico. Segundo ele, o que está acontecendo não é uma crise pontual, é uma mudança de modelo. "Quem não se adaptar, vai sair do mercado. E isso já começou. A gente está vendo queda de faturamento, compressão de margem e aumento no número de farmácias fechando", alerta.
Perguntado se essa tendência de retração no setor também pode ser reflexo do projeto de lei sancionado recentemente, que permite a venda de alguns produtos farmacêuticos em supermercados, Seleber afirma que esse é um debate que desvia o foco do verdadeiro problema.
"O mercado já convive com isso há anos, e as regras sanitárias continuam sendo rígidas. Farmácia não é gôndola de supermercado, exige controle, farmacêutico e sistema específico", diz. "O que está derrubando farmácias hoje é muito mais sério e está sendo ignorado por grande parte dos empresários: falta de gestão, erros de precificação, problemas tributários e, principalmente, a ausência no digital."
O alerta é claro: o problema não está no supermercado. Está dentro da própria operação da farmácia que não evoluiu, reforça.
Nesse contexto, Seleber também avalia o papel do associativismo, que continua sendo importante, afirma. Mas faz outro alerta: sozinho, ele não resolve mais o problema do varejo farmacêutico, porque qualquer farmácia independente pode entrar em uma rede, e isso ajuda sim em negociação, acesso a fornecedores e alguma estrutura. Mas hoje 'o buraco é mais embaixo', afirma: se essa farmácia não tiver gestão eficiente, não souber precificar corretamente, não entender o impacto tributário e não estiver no digital, vai continuar perdendo dinheiro. Mesmo dentro de uma rede.
"Tem muita farmácia hoje operando no escuro. Não sabe se está tendo lucro real, não entende o impacto de impostos como ICMS, PIS e COFINS, não calcula corretamente margem e ainda toma decisões baseadas em achismo", destaca.
E cita outro problema grave: o delivery. "Tem farmácia quebrando porque não cobra taxa de entrega. Está bancando um custo alto, muitas vezes acima de R$ 20 mil por mês, enquanto o consumidor já está acostumado a pagar por entrega em qualquer outro segmento. Isso vira um ralo financeiro silencioso."
Porém, para o presidente da Alpha 7, o maior erro de todos é ignorar o digital: hoje, uma parcela mínima das farmácias independentes vende online de forma estruturada, enquanto o digital cresce em ritmo acelerado. Plataformas como iFood, Mercado Livre e outros marketplaces estão avançando forte no setor, com investimentos bilionários e estrutura contra a qual o pequeno varejista não consegue competir sozinho, alerta.
Ou seja: quem não estiver nessas plataformas ou integrado a esse ecossistema vai perder relevância. "Simples assim. O associativismo precisa evoluir junto com isso. Não basta entregar escala. Precisa entregar tecnologia, dados, integração com marketplaces, inteligência de precificação e gestão de verdade. Caso contrário, vira apenas um modelo que ajuda parcialmente, mas não resolve o principal."
Hoje, Seleber afirma observar que muitos empresários estão preocupados com taxas de 10% ou 11% cobradas por marketplaces para sediar sua operação, mas não enxergam o quanto estão perdendo por não vender, por não ter fluxo, por não ter presença digital.
"É uma visão curta que está custando caro. O cenário é bem direto: ou o varejista se adapta ao digital, profissionaliza a gestão e entende seus números, ou ele vai sair do mercado. E isso não é uma tendência futura: já está acontecendo agora", finaliza.
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