Um Kennedy no Governo Trump
'Eu sou meu próprio espetáculo' é uma tradução livre de uma frase do filósofo Sêneca para dizer que vive melhor quem não precisa da aprovação dos outros para suas atitudes. Mas pelo carrossel de controvérsias, a saúde dos EUA está nas mãos de um político polêmico

'Eu sou meu próprio espetáculo' é uma tradução livre de uma frase do filósofo Sêneca para dizer que vive melhor quem não precisa da aprovação dos outros para suas atitudes. A mais famosa família aristocrática e católica dos Estados Unidos, cuja vida é de glória, glamour, tragédia, sofrimento e influência, e que espalhou pelo mundo um número sem fim de Kennedy e Jacqueline como nome de batismo, está mais uma vez no poder.
Robert Francis Kennedy Jr, o RFK Jr, é o atual secretário de Saúde dos EUA.
Derrotado como candidato independente para a presidência da república nas eleições passadas é sobrinho de John F. Kennedy, assassinado em 1963, quando era presidente da República. E filho do senador por Nova York, Robert F Kennedy, procurador-geral no governo do irmão, que também foi assassinado, em 1968, quando fazia campanha para ser indicado candidato a presidente.
A irmã mais velha dos dois nasceu com uma deficiência mental, foi submetida a lobotomia e passou a vida internada. O irmão mais velho morreu em operação como piloto de guerra. A segunda irmã morreu como passageira de um avião que se chocou contra os Alpes franceses. RFK Jr perdeu primos, tias e parentes em acidentes de carro, avião, esqui, suicídio, overdose e causas naturais, precocemente. O assassinato do tio e do pai são duas tragédias relacionadas à violência e à irracionalidade política, dentre tantas outras que marcam a vida da família.
Nada disso justifica – como se nas passagens do Velho Testamento Deus tenha incluído os Kennedy nas broncas que deu em Moisés e Abrahão - chamar de “maldição Kennedy” a sequência de fatos trágicos que envolve a vida da dinastia mais charmosa do EUA e que há mais de oitenta anos influencia e emociona a vida do país.
Numa época sem seriedade como a atual, a história dos Kennedy serve de alerta para os políticos que não tratam o poder de forma transitória, nem compreendem os limites humanos da prosperidade material e da popularidade. É também um sinal de alienação do Estado onde os delitos se concentraram pela desatenção à sua própria conduta.
Autoridades que falam de justiça, mas a justiça não vive nelas. Governantes que falam de suas dádivas dadas por interesse, não por bondade. Legisladores que fazem leis, mas não as cumprem. Voltando a RFK Jr, secretário de Saúde de Trump, espontaneamente controverso, contra a ciência e dono do próprio nariz.
Na campanha eleitoral passada ele disse que uma anormalidade médica atingiu sua memória provocando confusão mental. E que foi “causada por um verme que se espalhou pelo meu cérebro, comeu uma porção dele e morreu”. Culpou a África, América do Sul e Ásia ('onde parasitas são muito comuns', disse), e para onde viajou várias vezes a trabalho.
Semana passada se superou ao formular uma tese inédita sobre o caráter antisséptico da privada suja. Disse que não tem medo de vermes porque, embora “limpo’ há mais de 40 anos, usava droga no passado no assento do vaso sanitário do banheiro onde estivesse - por isso era imune a doenças.
Grupos de saúde querem sua demissão por ele ser contra o uso de vacina e por ter sido viciado. Não para aí. Ele vai dar dor de cabeça aos críticos: é contra o paracetamol, a favor de gordura saturada, contra a obesidade e doenças crônicas por maus hábitos alimentares.
Pelo carrossel de controvérsias a saúde dos EUA está nas mãos de um político polêmico. Tão certo quanto o fato que Robert Kennedy Jr muito sofreu na vida, razão tem a rainha Luísa, da Prússia: quem nunca comeu seu pão com lágrimas?
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