Resiliência do exportador brasileiro volta a ser posta à prova um ano após o tarifaço dos EUA
Choque na relação Brasil-Estados Unidos forçou uma rápida transformação, mas até a diversificação de mercados amarga as consequências da guerra no Irã

Um ano depois do fatídico “Dia da Libertação” do presidente norte-americano Donald Trump, e da imposição de pesadas tarifas de importação subsequentes, que inviabilizaram centenas de negócios, o mapa do comércio exterior das empresas brasileiras está diferente, mas isso não se traduziu em facilidade. Foram idas e vindas, várias adaptações e novos desafios. E o setor continua sendo provado a mostrar sua resiliência e capacidade de reinvenção. Agora, lidando com possíveis consequências da guerra dos Estados Unidos e Israel com o Irã.
“A política comercial global passou por uma transformação sísmica no último ano”, afirma Maurício Manfré, assessor especial de Relações Internacionais da São Paulo Chamber of Commerce, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), e secretário do Conselho Brasileiro das Empresas Comerciais Importadoras e Exportadoras (CECIEx). “O cenário do comércio internacional e, especificamente, as relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos sofreram alterações profundas”, diz o especialista, que destaca as mudanças da pauta comercial, a reconfiguração de parceiros e seus desdobramentos legais e políticos.
Os norte-americanos permaneceram em segundo lugar no ranking dos maiores parceiros comerciais dos brasileiros, depois da China e à frente da Argentina, e a relação se mantém deficitária para o Brasil. Os valores dos negócios, no entanto, mudaram bastante.
No acumulado de 2025, as exportações brasileiras caíram 6,7%, para US$ 37,7 bilhões sobre 2024, quando haviam crescido 9,4% e atingido o maior valor dos últimos dez anos (US$ 40,4 bilhões). Nos três primeiros meses de 2026, o tombo foi bem maior, de 18,7%, em relação a igual período do ano passado, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil (MDIC).
Já as importações de produtos norte-americanos, que subiram 11% no acumulado do ano passado na comparação com 2024 (para US$ 45,1 bilhões), caíram, no primeiro trimestre deste ano, também na casa de 11%, para US$ 9,2 bilhões, na comparação com igual intervalo de 2025. O déficit brasileiro, que foi de US$ 283 milhões em 2024, passou para US$ 7,4 bilhões em 2025. E continua em franca elevação nos três meses encerrados em março último, quando atingiu US$ 1,4 bilhão, depois de ter sido de US$ 745 milhões no mesmo intervalo do ano anterior.
Choque de profissionalização
O baque do tarifaço atingiu de maneira bem distinta os negócios. Porte e segmento de atuação se tornaram decisivos. As mudanças da política de Trump foram impeditivas para muitos pequenos exportadores continuarem vendendo ao país, com sofrimento maior para aqueles que atuam com manufaturados como alimentos processados, calçados e cosméticos.
Mas o tombo com os Estados Unidos não derrubou o comércio internacional do Brasil como um todo. A balança do país encerrou 2025 com alta de 4,8% na corrente, que chegou a US$ 628,5 bilhões. De janeiro a março, ela segue em alta, de 4,4%. Segundo Manfré, a pancada recebida do presidente norte-americano serviu para “acordar” os brasileiros sobre a volatilidade das relações comerciais.
“Se você considerar que, de fato, o Brasil começou a se abrir para o mercado internacional no início dos anos 1990, há pouco menos de 40 anos, podemos dizer que recebemos um ‘choque de profissionalização’, porque fomos obrigados a nos desenvolver em níveis que nunca havíamos experimentado”, explica o especialista.
Empresas com maior capacidade de reação, como médias e grandes, entenderam os cenários e redesenharam o acesso a seus mercados. Negócios intercompany, entre duas empresas que pertencem ao mesmo grupo, ganharam destaque. Setores com maior relevância de mercado, como o de proteína animal, por exemplo, pressionaram para as exceções tarifárias.
Nova configuração, novos problemas?
O que foi inviabilizado para os Estados Unidos, passou a ser redirecionado a outros mercados. A China foi o país que mais ganhou com isso. Mas o Brasil também estreitou relações com países como Índia e Marrocos, além de se aproximar mais do Oriente Médio como um todo e do Irã.
“A China foi muito hábil, aproveitou o que estava acontecendo na relação Brasil-EUA e acelerou um processo que já estava em andamento. Facilitou negócios para os exportadores brasileiros, retirou exigências”, detalha Manfré. Dessa forma, o gigante asiático também ganhou com negociações de preços, aproveitando a necessidade dos brasileiros.
Os negócios dispararam, principalmente depois do segundo grande aumento de tarifas feito pelos EUA ao Brasil, em agosto, que elevou as taxas a 50%. As exportações brasileiras para a China cresceram 5,9% no acumulado de 2025, respondendo por 25,5% do total vendido ao exterior pelo Brasil, mas essa participação bateu em 37% entre agosto e dezembro. Este ano, até março, 29% de tudo o que embarcamos teve como destino o país da Ásia, uma alta de 21,7% em relação ao primeiro trimestre de 2025.
Ainda assim, não tem sido fácil. Além dos preços mais baixos dos produtos destinados à China, neste início de 2026, a guerra deflagrada entre Estados Unidos e Israel contra o Irã e suas consequências afetaram fortemente a logística internacional. Somado ao fechamento do Estreito de Ormuz, há o risco de os rebeldes Houtis, do Iêmen, alinhados ao Irã, inviabilizarem a navegação comercial também na rota pelo Mar Vermelho, no Estreito de Bab al-Mandeb.
Deserto de negócios
Além dos já tão falados petróleo e fertilizantes, que prejudicam de maneira generalizada, uma série de outros produtos sofre os impactos. A logística para a entrega de mercadorias brasileiras para toda a região do Oriente Médio teve aumento de custos, com mudanças e ajustes de rotas, e pode ficar pior se o conflito persistir ou ganhar novos contornos. Os exportadores com negócios com o Irã, um número crescente entre os brasileiros, tiveram suas vendas inviabilizadas.
Mesmo quem ainda não sentiu o aumento de custos, sofre com outros problemas. É o caso da exportadora Valéria Natal, CEO da destilaria Stock. Ela havia acabado de entregar no Oriente Médio uma carga de xaropes sem álcool da sua marca Kaly em janeiro, poucos dias antes da guerra começar. Entre os destinos, uma cafeteria em Dubai, com alta frequência de turistas.
Mas novos pedidos, provavelmente, levarão mais tempo para serem feitos. “Temos informações de que a vida da população local (em Dubai) segue normalmente, mas o fluxo de turistas caiu drasticamente”, revela Natal. Além do turismo de lazer, a região também concentra diversas feiras, que impulsionavam o turismo de negócios. Muitas delas estão sendo adiadas.
“Sentimos uma queda de ânimo generalizada na região, incluindo os países que não estão diretamente relacionados à guerra. Estávamos com um contêiner pronto para sair para o Iraque, em fevereiro, e que agora está parado, porque o cliente pediu que segurássemos um pouco”, revela a empresária. “Em outras negociações, com outros países, a evolução também está sendo muito mais lenta e ainda não sabemos se conseguiremos fechar essas vendas”, completa.
Apesar do anúncio recente do governo brasileiro da ampliação do Plano Brasil Soberano, de oferta de recursos financeiros, para os exportadores que embarcam para a região do Golfo Pérsico, não está claro quando e o quanto esse socorro ajudará. Lançado no ano passado para os prejudicados pelo tarifaço dos EUA, o plano emprestou até agora pouco mais da metade do que foi disponibilizado para esse primeiro grupo de beneficiados.
Enquanto isso, nos EUA...
Se, para os brasileiros, o anúncio de um ano atrás do presidente dos EUA trouxe um “choque de profissionalização” e foi um prenúncio de um período de superação e adaptação diária que se prolonga até hoje, para os norte-americanos os efeitos não parecem ter sido tão drásticos.
A diversificação de parceiros comerciais, com a redução da participação da China, continua acontecendo, mas não é um processo novo. No Porto de Los Angeles, que é uma grande porta de entrada da Ásia ao país e movimenta mais de 10 milhões de contêineres por ano, a substituição de fornecedores é um processo que já tem quase uma década.
“Em 2018, cerca de 60% de nosso portfólio de negócios era com a China, hoje é de 40% e está caindo. No entanto, ainda estamos crescendo na movimentação geral com aumento de cargas que vêm de lugares como Vietnã, Malásia, Indonésia e outros países do Sudeste Asiático”, afirma o diretor-executivo do porto, Gene Seroka.
O complexo portuário do distrito aduaneiro de Los Angeles tem uma movimentação total de US$ 400 bilhões por ano e é o maior do país.
Apesar disso, a China continua muito importante, admite ele. “Nossos negócios com ela (China) ainda são duas vezes e meia maiores do que com nosso segundo maior parceiro comercial, o Japão”, diz o executivo, que conversou com a imprensa durante encontro promovido pela National Retail Federation (NRF) para apresentação de expectativas de mercado para os próximos meses.
Varejistas ligados à NRF tentaram, ao longo do ano, minimizar as consequências para o consumidor do aumento tarifário por meio de negociações com parceiros e diversificação de fornecedores. Segundo o chairman e CEO do BJ’s Wholesale Club, Bob Eddy, atualmente apenas cerca de 5% dos produtos que oferece são comprados da China.
“A chave do nosso negócio realmente é o valor. Estamos sempre vasculhando pelo mundo para encontrarmos os produtos certos e os fornecedores certos, pelos preços certos e a forma mais eficiente”, afirma. “Compramos de muitos países, mas provavelmente nossos maiores parceiros neste momento sejam o Canadá e o México”, completa.
Diferentes momentos, o mesmo cenário
México e China estão entre os cinco países com os quais os EUA registraram os maiores déficits comerciais em fevereiro, segundo o dado mais recente disponível, divulgado pelo Bureau de Análises Econômicas do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. A balança do país ficou negativa em US$ 16,8 bilhões com o México e em US$ 13,1 bilhões com a China no mês.
O déficit total na balança norte-americana, um ano depois do “Dia da Libertação”, continua praticamente o mesmo. Em fevereiro cresceu 5% sobre janeiro, para US$ 57,3 bilhões. Em abril de 2025, ele era de US$ 60,1 bilhões. Ao longo dos meses, o dado esteve volátil, com picos em momentos específicos de mudanças de tarifas, mas a mais recente média móvel trimestral encerrada em fevereiro revela um déficit de US$ 61,6 bilhões, próximo daquele de abril do ano passado.
De acordo com estudo do The Budget Lab, laboratório econômico da Universidade de Yale, as tarifas geraram uma receita alfandegária extra de US$ 214,7 bilhões, comparada à média de 2022-2024 e ajustada pela inflação. Porém, após a decisão da Suprema Corte do país de que a cobrança era indevida, cerca de US$ 165 bilhões terão de ser devolvidos, restando US$ 49,7 bilhões dessa receita extra, obtida até fevereiro deste ano.
Os pesquisadores também abordaram outros campos econômicos, mas os impactos não foram tão claros. “Até o momento, não há indicação definitiva de um efeito agregado significativo no mercado de trabalho, embora os setores expostos às tarifas mostrem alguns sinais de fragilidade em relação à tendência anterior a 2025”, diz o documento.
O estudo ainda destaca que os repasses de custos para o consumidor final, um dos maiores temores da tarifação, variaram bastante de acordo com a categoria de produto. De uma maneira geral, o Índice de Preços ao Consumidor (PCE) detectou aumento de 1,5% nos preços de bens essenciais e de bens duráveis importados durante o período de 2025 até janeiro de 2026, um patamar bem superior ao de anos anteriores.
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IMAGEM: Brazil Photo Press/Folhapress

