Guerra no Oriente Médio escancara as fragilidades do agronegócio brasileiro
O engenheiro agrônomo Alberto Pfeifer disse, em reunião na ACSP, que a situação atual remete aos gargalos nas linhas de suprimento vivenciados durante a pandemia de covid-19

Na visão de Alberto Pfeifer, engenheiro agrônomo pela Esalq/USP, a escalada do conflito entre Irã, Israel e Estados Unidos escancara a fragilidade do agronegócio brasileiro, especialmente em relação à dependência da importação de fertilizantes e de uma cadeia de distribuição baseada no diesel. A análise foi feita durante reunião do Conselho do Agronegócio da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), realizada na segunda-feira (23).
A guerra tem gerado aumento no preço do barril de petróleo, que superou US$ 100, dificultando a logística e afetando o preço dos fertilizantes, que tiveram alta de 40% desde o início do embate.
Cerca de 90% dos fertilizantes usados pelo agronegócio brasileiro são importados, segundo dados da Associação Nacional de Difusão de Adubos (ANDA). A China, maior exportadora do insumo para o Brasil, suspendeu suas vendas devido à guerra. O bloqueio no Estreito de Ormuz também tem impedido as exportações de fertilizantes do Irã e do Catar, o que resulta em altas em seus preços.
Para Pfeifer, assim como aconteceu na invasão da Rússia à Ucrânia, a guerra no Oriente Médio evidencia a vulnerabilidade do país do ponto de vista da nutrição vegetal, o que afeta a produção de milho e soja, grãos usados como ração para a produção de frango, suínos e gado, além de serem exportados para outros países.
“A crise dos fertilizantes se tornou aguda com a guerra no Oriente Médio e mais uma dimensão voltou a surgir, assim como na pandemia da covid-19: a questão logística, os gargalos no transporte e nas linhas de suprimento”, disse Pfeifer.
Segundo ele, a crise é intensificada, pois boa parte dos fertilizantes nitrogenados, base do modelo agrícola brasileiro, depende de hidrocarbonetos, como gás natural e petróleo, para ser produzida, sendo que esses combustíveis também são utilizados no deslocamento das frotas.
“O impacto se dá desde os momentos iniciais da disputa devido à imprevisibilidade relacionada ao fluxo de fertilizantes e combustíveis, ao aumento dos preços e à dificuldade de acesso a alguns mercados para os produtos do agronegócio. O Irã importa 20% do milho do Brasil e outros países do Golfo importam produtos resfriados, como carne, por exemplo, que podem ser perdidos.”
Além disso, pode ocorrer aumento no preço dos fretes e dos seguros, o que também encarece a produção agrícola, assim como a importação de fertilizantes e petróleo. “Ocorre um efeito no preço, aumento dos custos e no envio das entregas. É um efeito inicial que vai se desdobrar de acordo com o conflito, mas depende da sua duração”, disse.
Pfeifer também comentou que o conflito pode causar dificuldade no financiamento do agronegócio devido ao aumento da incerteza dos investidores, o que eleva o custo de capital.
A curto prazo, Pfeifer afirmou que não há muito o que ser feito para reduzir os impactos da crise, uma vez que essas alterações de preços fazem parte do ciclo econômico. A longo prazo, tudo depende da duração do conflito, mas é necessário investir na produção interna de fertilizantes, melhorar o armazenamento das mercadorias e ampliar investimentos em ferrovias, entre outras medidas.
Vulnerabilidades
Além da dependência da importação de fertilizantes, Pfeifer mapeou outras vulnerabilidades que ainda afetam o agronegócio brasileiro, como ameaças biológicas à produção animal e vegetal, gargalos internos crônicos nos portos, ferrovias e no diesel, uma vez que a safra ainda é armazenada “sobre rodas”, devido ao déficit ferroviário.
De acordo com o especialista, 97% do potássio consumido pelo Brasil são importados e 45% dos fornecedores são países politicamente instáveis. Além disso, os fertilizantes representam mais de 20% do custo médio de produção, o que espreme a margem de lucro.
Embora o Brasil tenha um agronegócio forte no mercado internacional, o setor ainda segue regulações externas, sem participação ativa na criação dessas leis, mantendo um papel passivo nesse processo, algo que precisa mudar, na visão do especialista.
Outro fator de grande vulnerabilidade no agronegócio é a presença do crime organizado, que, segundo Pfeifer, possui uma cadeia dentro do setor e se inicia na produção, com lavagem de dinheiro por meio de gado, grilagem e crimes ambientais. Depois, passa pelo uso de insumos, com falsificação, adulteração e roubo de sementes e fertilizantes; pela logística, por meio do roubo de cargas, que supera R$ 1,2 bilhão de prejuízo por ano; e, por fim, chega ao varejo, também com lavagem de dinheiro. Essa cadeia gera prejuízo estimado de R$ 20 bilhões para o Brasil, disse.
Para lidar com essas vulnerabilidades, Pfeifer defende a agricultura regenerativa, com uma nova fronteira energética, destacando o protagonismo do etanol de milho e de biocombustíveis avançados como escudo contra a volatilidade dos combustíveis fósseis, como o petróleo.
Além disso, o uso da agricultura regenerativa, com controle natural de pragas e recuperação de solos, reduz a dependência do país de fertilizantes e das cadeias globais de suprimentos.
O especialista explicou que a lógica global mudou ao longo dos anos. A lógica da eficiência econômica foi substituída pela lógica da segurança nacional. É nesse cenário que o agronegócio brasileiro deve se posicionar como uma potência, disse, por ser um país tropical já acostumado a lidar com questões climáticas.
Estiveram presentes na palestra Roberto Ordine, presidente da ACSP; Cesário Ramalho, coordenador do Conselho do Agronegócio; Rogério Amato, presidente do Conselho Superior da ACSP; e Andrea Matarazzo, vice-presidente da ACSP.
IMAGEM: Cesar Bruneli/ACSP
