Para entender o mundo árabe
O especialista em comércio Rafael Solimeo fala sobre as regras e as peculiaridades de um mercado promissor para o exportador brasileiro

Rafael Solimeo nasceu em São Paulo, mas viveu a infância e a adolescência nos Emirados Árabes Unidos (EAU), mais precisamente em Dubai, onde construiu uma eficiente rede de relacionamentos e aprendeu a identificar o que fazer e o que evitar para negociar com os árabes. Para compartilhar esse know-how, lançou em 2024 o guia prático “Como Negociar com o Mundo Árabe” (Editora Labrador), com prefácio de Michel Temer e muitas dicas de como se aproximar de um mercado considerado difícil e até impossível para os exportadores e vendedores brasileiros.
Com foco em estratégias para empresários brasileiros, o livro detalha orientações comportamentais — como, por exemplo, usar a mão direita para comer e segurar a xícara de café, regras de cumprimento entre gêneros e estilo de roupas. “É preciso evitar assuntos como política ou religião. Ser considerado um parceiro comercial nesse mercado exige, acima de tudo, perseverança e respeito às regras éticas e morais, que em muitos casos são bastante rígidas”, afirma.
Desde os anos 1990, Solimeo acompanhou a metamorfose de Dubai, que, antes do turismo milionário e dos enormes investimentos em prédios futuristas, não passava de um modesto vilarejo de pescadores e coletores de pérolas. Após a descoberta do petróleo, nos anos 1960, a cidade — sob a liderança da dinastia Al Maktoum — diversificou sua economia para os setores de finanças e serviços, consolidando-se como um dos sete integrantes dos Emirados, uma confederação fundada em 1971.
Expertise Internacional
Atuando na CCBA desde 2013, inicialmente em São Paulo, Solimeo foi transferido em 2019 para os Emirados para chefiar os escritórios internacionais. Por conta do conflito com o Irã e os recentes bombardeios em Dubai, Solimeo voltou ao escritório de São Paulo da CCBA, mas espera retomar em breve sua função no Oriente Médio. A formação em Turismo e MBA em Gestão de Negócios Internacionais são importantes, mas o seu diferencial é o profundo conhecimento da cultura árabe. “Os árabes são muito receptivos, mas, antes de qualquer reunião, precisamos nos preparar e conhecer detalhes do comportamento e das particularidades dessa cultura milenar”, afirma.
Impactos Econômicos e Segurança Alimentar
Solimeo acredita que mudanças profundas ocorrerão na estratégia do Golfo em relação ao Ocidente. O cenário de conflitos tem provocado reflexos evidentes na economia global e, localmente, a situação é crítica. “Os países da região sofrem com o impacto das tensões e, principalmente, com o risco à segurança alimentar, já que dependem fortemente da importação de alimentos de produtores como Brasil e EUA”. Somado a isso, há uma queda compreensível no fluxo turístico, um dos pilares do desenvolvimento de Dubai.
“Para o Brasil, no entanto, podem surgir novas janelas de oportunidade”, afirma.
Menos EUA
Por outro lado, o consultor lembra que a realidade pós-guerra pode significar uma redução da influência americana e um eventual crescimento na demanda dirigida aos produtores do agronegócio brasileiro. Embora o contexto atual seja mais desafiador, ele aponta alternativas logísticas: “Existem muitos portos no Mar Vermelho e no Golfo de Omã que podem ser usados para escoar produtos utilizando outros modais. O comércio está mais complexo, mas não inviável”.
O Potencial da Parceria Bilateral
A Câmara Árabe-Brasileira reúne empresas atuantes na relação com as 22 nações de maioria árabe localizadas no norte da África e no Golfo. A entidade promove o intercâmbio por meio de missões empresariais, feiras estratégicas e rodadas de negociações, além de oferecer serviços de certificação, traduções juramentadas e inteligência de mercado.
Apesar do conflito, as atividades seguem dentro da normalidade possível. Além do agronegócio, o mercado é vital para os setores de mineração, papel, celulose e máquinas industriais. Em 2025, o Brasil exportou US$ 21,34 bilhões para o bloco. “Se esse território fosse unificado, seria o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas de China e Estados Unidos”, completa Rafael.
Destaques Comerciais (Dados de 2025):
- Pauta de exportação: liderada por açúcar (US$ 34 bi), milho (US$ 2,65 bi) e carne bovina (US$ 1,79 bi). Alimentos respondem por 75% do total.
- Importações brasileiras: totalizaram US$ 9,90 bilhões, concentradas em fertilizantes, hidrocarbonetos e polímeros.
A experiência do Brasil em energia renovável (biodiesel e etanol) e o potencial no mercado de crédito de carbono também fortalecem essa parceria estratégica, de acordo com Solimeo: “Continuaremos sendo parceiros essenciais no comércio de commodities alimentares, mas há muitas oportunidades em itens industrializados de valor agregado, cujas vendas ainda podem crescer muito”, finaliza.
IMAGEM: ACSP

