Tensão entre China e EUA vira armadilha global e impõe desafios estratégicos ao Brasil

Com o multilateralismo sob risco, o analista de estudos estratégicos do Exército, tenente Paulo Gomes Filho, alerta para uma instabilidade sem precedentes e o risco de o Brasil ficar defasado frente à nova corrida armamentista mundial

Karina Lignelli
30/Mar/2026
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Tensão entre China e EUA vira armadilha global e impõe desafios estratégicos ao Brasil

O mundo contemporâneo atravessa um período de profunda instabilidade, marcado pelo fim da hegemonia dos Estados Unidos e pelo ressurgimento de conflitos armados em larga escala. Com isso, a crescente rivalidade entre duas potências como a China e o país norte-americano marca uma nova fase de instabilidade no sistema internacional, e já produz efeitos diretos sobre a economia, a política e a segurança global — com impactos que também podem alcançar o Brasil de forma dramática. 

Análises do Centro de Estudos Estratégicos do Exército (CEEEx) apontam que, enquanto organismos multilaterais como a ONU e a OMC demonstram incapacidade de cumprir suas funções básicas de preservação da paz e regulação do comércio, entre 2024 e 2025 foram registrados 61 conflitos em que pelo menos uma das partes era Estado, o nível mais alto desde 1946.  

“Aquele momento unipolar, em que os Estados Unidos eram a única superpotência global, está superado. Hoje vivemos uma redistribuição do poder internacional e toda essa transição estratégica tem gerado instabilidade”, disse o tenente da reserva Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, analista do CEEEx e especialista em China e relações internacionais, que participou da reunião do Comitê de Avaliação de Conjuntura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), na última quinta-feira (26). 

Essa competição sistêmica entre Estados Unidos e China, que está no centro dessa desordem e perpassa todas as relações internacionais atuais, explicou, gera um fenômeno conhecido como "Armadilha de Tucídides" (conceito geopolítico baseado na Guerra do Peloponeso, travada entre Atenas e Esparta), em que uma potência emergente (no caso a China) desafia a potência hegemônica (EUA), gerando uma tensão recorrente na história que, em 12 dosm 16 casos estudados, resultou em guerra. 

Assim como na Guerra Fria, essa dinâmica de competição acaba criando um cenário historicamente associado a tensões prolongadas - vide a guerra Rússia-Ucrânia, que se arrasta há três anos, o conflito entre Israel e a Palestina, que remete à década de 1940, mas se agravou com o ataque do Hamas, em 2023, e agora o que une Israel e EUA contra o Irã.

Gomes Filho destacou que o aumento do número de conflitos armados e a dificuldade de atuação de organismos multilaterais demonstram o enfraquecimento da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial. 

“Desde 1946 não observávamos um ambiente com tantos conflitos envolvendo Estados nacionais. Os mecanismos multilaterais já não conseguem cumprir plenamente a função de preservar a estabilidade global”, alertou. 

A instabilidade ganha novos contornos com a mudança na postura norte-americana. O chamado "Corolário Trump", ligado à Doutrina Monroe (de 1823, a da "América para os americanos"), ou "Donroe", como o próprio apelidou, estabeleceu o Hemisfério Ocidental como a prioridade número um para a segurança dos EUA, apontou.

O documento deixa claro que não serão admitidas potências extrarregionais — com foco direto na China — interferindo nos interesses americanos nas Américas. "Essa nova diretriz visa aproximar cadeias produtivas e combater ameaças como o narcoterrorismo, colocando a América Latina no centro de uma disputa de influência."

O analista lembrou ainda que o combate a facções como PCC e Comando Vermelho é papel da segurança pública, e não das forças armadas. Ainda mais de outro país - ou isso pode gerar uma reação desproporcional. "Imagine os Estados Unidos mandando um míssil para atacar uma facção", apontou. Mas, enquanto os EUA reafirmam presença, a China responde com iniciativas de solidariedade e desenvolvimento, ocupando espaços em organismos multilaterais que os americanos recuaram.

Gomes Filho disse também que a disputa entre Washington e Pequim não se limita ao campo militar ou humanitário: trata-se de uma competição que envolve comércio, tecnologia, influência política e controle de recursos estratégicos. “Questões regionais, crises energéticas e disputas comerciais precisam ser analisadas dentro dessa rivalidade maior”, explicou.

O militar lembrou que a China domina 94% da produção de ímãs de terras raras, essenciais à indústria de defesa e veículos elétricos, e usa esse controle como alavanca política. E há o ponto mais sensível: os semicondutores de Taiwan, que produz 94% dos chips mais modernos do mundo. Um bloqueio naval chinês na ilha causaria "uma disrupção global catastrófica." 

Há ainda a questão da geopolítica marítima, já que a China sente-se contida geograficamente por bases americanas, e busca em Taiwan uma saída estratégica para o Oceano Pacífico. Gomes observou que o aumento de exercícios militares chineses próximos ao território indica uma escalada gradual de pressão, ainda que um conflito aberto não seja inevitável.

“A história mostra que, quando uma potência emergente desafia uma potência hegemônica, a tensão é inevitável. Isso não significa guerra, mas significa instabilidade prolongada”, sinalizou.

Brasil na encruzilhada geopolítica

Para o Brasil, o novo cenário representa vantagens, mas principalmente riscos. O país pode ganhar relevância estratégica pela abundância de recursos naturais críticos, mas também ficará mais exposto às oscilações econômicas internacionais. “Temos algumas das maiores reservas de minerais estratégicos do mundo. Em um contexto de disputa entre grandes potências, esses recursos passam a ter valor geopolítico crescente e uma alternativa à dependência chinesa, destacou o tenente Gomes Filho. 

Por outro lado, também reforçou que o Brasil precisará equilibrar relações diplomáticas e comerciais com ambos os polos de poder, e o desafio brasileiro será navegar em um ambiente internacional mais polarizado, preservando autonomia estratégica sem perder oportunidades econômicas. Isso porque o mundo atravessa um período de transição histórica cujo desfecho ainda é incerto. “Estamos vivendo a construção de um novo ponto de equilíbrio internacional. Toda mudança dessa magnitude produz incerteza, volatilidade econômica e rearranjos políticos. O que vemos hoje é apenas o início dessa transformação.”

Porém, o especialista alerta para 'o dilema da segurança', ou seja, a fragilidade da defesa nacional em meio ao atual cenário de 'corrida armamentista' global - com os países aumentando e muito os investimentos em defesa, em contraponto à "defasagem preocupante" do quanto o Brasil direciona para o setor. Enquanto os EUA, por exemplo, projetam gastos de US$ 1,5 trilhão em defesa em 2026 e a China, segunda colocada, projeta US$ 300 bilhões, o Brasil costuma direcionar R$ 176 milhões por ano. 

"É R$ 1,75 por dia, ou US$ 0,32 para manter caças, submarinos, carros de combate e pagamento de pessoal. Em comparação com nossos vizinhos, o país ocupa o sétimo lugar em investimentos de defesa na América do Sul em relação ao PIB (1,08%), ficando atrás de nações como Chile e Colômbia", explicou.

A crise climática também atua como um catalisador dessas tensões, provocando crises migratórias e habitacionais graves, como as que acontecem no Sudão e na Venezuela, e alterando rotas comerciais no Ártico - o que adiciona mais uma camada de complexidade a um mundo que ainda busca um novo ponto de equilíbrio. "Isso cria um novo papel para as forças de defesa, pois exige que atuem em missões de apoio a tragédias ambientais, como inundações, secas e incêndios - caso da atuação do Exército Brasileiro no apoio às vítimas da tragédia climática no Rio Grande do Sul, em 2024", destacou.

E fez um último alerta: em um cenário em que o direito internacional está "completamente ameaçado", e organismos como a ONU mostram incapacidade de decisão, o Brasil precisa reavaliar sua posição estratégica, já que tem na Amazônia a maior reserva de água doce global, recursos naturais críticos, regulação climática mundial e uma vasta biodiversidade, é rico em terras raras e é considerado 'celeiro' ou 'supermercado do mundo'. "A neutralidade que sempre tivemos, ou a paz regional do passado, podem não ser suficientes para proteger interesses nacionais no futuro de incertezas que se desenha", alertou. 

IMAGEM: DC

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