Mercado de saúde estética avança sem medo da crise
Efeito Ozempic, necessidade de autoconfiança e novas tecnologias que ajudam a frear o envelhecimento são impulsos de um setor que segue firme, apesar de incertezas econômicas. Estados Unidos e Brasil se destacam como os principais mercados para cirurgias plásticas e procedimentos estéticos não cirúrgicos

A despeito de qualquer instabilidade política e econômica, o mercado de saúde estética, incluindo cirurgias plásticas e procedimentos não cirúrgicos, segue forte no mundo. Somente no ano de 2024 (o dado mais recente disponível), a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS, da sigla em inglês) contabilizou 38 milhões de procedimentos no mundo, com os Estados Unidos e o Brasil nas primeiras posições no ranking das intervenções.
Enquanto os EUA lideram, de longe, no número total de procedimentos - cerca de 6,2 milhões -, e na quantidade de intervenções não cirúrgicas (4,2 milhões), o Brasil é o primeiro em cirurgias, com quase 2,4 milhões, e fica na segunda posição no total de tratamentos (3,1 milhões – a metade dos norte-americanos). Já o Japão, o terceiro do ranking, registrou 1,6 milhão de procedimentos, com 380 mil cirurgias e 1,2 milhão de tratamentos não cirúrgicos.
No mundo, as cirurgias de pálpebra lideram o ranking dos procedimentos, seguidas por lipoaspiração, aumento de mamas, correção de cicatrizes e rinoplastia. Já nos dois países líderes em procedimentos, a lipoaspiração e o aumento de mamas ocupam os dois primeiros lugares do ranking. Nos EUA eles são seguidos por correção de cicatrizes, abdominoplastia e lifting de mamas e, no Brasil, por cirurgia de pálpebra, abdominoplastia e aumento de glúteos.
Efeito Ozempic nas cirurgias - Um dos pontos que mais chama a atenção é que, no ranking norte-americano, começa a aparecer com mais intensidade a busca por procedimentos por quem teve uma grande perda de peso, efeito da popularidade do uso de medicamentos como o Ozempic. Soluções para melhorar proporções, os contornos do corpo, ou que atuem na elasticidade da pele são apontadas no relatório anual da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos (ASPS, da sigla em inglês), que reflete o desempenho do mercado do país.
A corrida por essas intervenções deriva do fato de que a perda rápida de peso nem sempre acontece de maneira uniforme pelo corpo, gerando efeitos indesejados. “Os pacientes frequentemente descobrem que não conseguem controlar onde a gordura é perdida, resultando em redução desigual do volume, principalmente no rosto, tórax ou membros. Além disso, a perda de peso rápida não permite que a pele tenha tempo suficiente para se contrair e remodelar como em uma perda de peso gradual, muitas vezes levando à flacidez”, destaca a ASPS no documento.
LEIA TAMBÉM: Furtos de canetas emagrecedoras causam perdas de até R$ 280 mi e mudam rotina de farmácias
O termo "Ozempic Face" ganhou popularidade nos EUA para descrever a aparência encovada que algumas pessoas apresentam devido à perda de gordura facial. Entre mais de 800 mil pacientes que fizeram uso de medicamentos para perda de peso e foram mensurados pelo relatório da ASPS, a totalidade considerou procedimentos estéticos pós-perda de peso. Foi constatado que 20% deles já haviam se submetido a cirurgia plástica, 39% consideravam fazer uma intervenção cirúrgica e os 41% restantes desejavam um procedimento não cirúrgico.
Bem-estar acima das crises - De acordo com os números da organização norte-americana, a abdominoplastia registrou um aumento de 1% em intervenções em 2024 (o dado mais recente disponível até o momento). Os liftings faciais e frontais também cresceram 1%. Já os de glúteos e coxas aumentaram 3% e os de braços subiram 2%, mesmo percentual de elevação dos liftings de pescoço.
Todos esses procedimentos são englobados por um outro termo popular, “Ozempic Makeover”, usado para nomear um conjunto personalizado de procedimentos cirúrgicos que promovem mudanças faciais e corporais endereçadas a quem teve perdas significativas de peso.
A necessidade de sentir-se bem com o próprio corpo, seja após a perda de peso, seja para envelhecer melhor, está entre os grandes impulsos que levam às intervenções de saúde estética, a despeito do cenário econômico, conforme esclarece o presidente da ASPS, o médico Scott Hollenbeck. Para ele, para entender o desempenho do setor em um momento complexo no país, é importante considerar o seu impacto na autoestima pessoal.
"Os pacientes continuaram a priorizar sua saúde estética, apesar da incerteza econômica, com crescimento em procedimentos de cirurgia plástica, tratamentos minimamente invasivos e cirurgia reconstrutiva", disse, em comunicado à imprensa.
Os dados da instituição indicam aumento de 1% nas cirurgias estéticas e de 3% nos tratamentos minimamente invasivos. "As pessoas querem ter a melhor aparência e se sentir bem para enfrentar os desafios do dia a dia com mais confiança. No entanto, em meio à incerteza econômica atual, a segurança deve continuar sendo a principal prioridade”, completou.
Minimamente invasivos e rápidos em resultados - Entre os especialistas da área, é unanimidade o avanço das intervenções minimamente invasivas. Elas são apontadas como uma das tendências mais fortes do setor para atender às duas principais demandas dos pacientes: o eterno desejo de combater o envelhecimento e a vontade de elevar a autoestima.
Segundo o mapeamento feito pela ASPS, os pacientes veem os tratamentos minimamente invasivos como uma maneira eficiente e ao mesmo tempo mais acessível de manter a boa aparência. Além disso, “eles também continuam populares porque os injetáveis ajudam pacientes a alcançar uma estética mais ‘natural’, proporcionando uma aparência rejuvenescida que permanece relativamente imperceptível”.
Para a instituição, contam como pontos positivos o tempo de recuperação mínimo, resultados rápidos e a possibilidade de experimentar um novo visual sem um compromisso de longo prazo.
Os números da ASPS (relativos apenas ao mercado norte-americano) se mostram bastante superiores aos da ISAPS no quesito de tratamentos minimamente invasivos. De acordo com a instituição, só de injeções neuromoduladoras (como Botox), foram 9,8 milhões de aplicações em 2024, 4% a mais que no ano anterior.
Os recursos para rejuvenescimento da pele com o uso de lasers, peelings, dermoabrasão ou microdermoabrasão aumentaram 6%, para 3,7 milhões de ocorrências. Eles ficaram em terceiro lugar no ranking dos tratamentos, atrás dos preenchimentos com ácido hialurônico, que foram mais de 5,3 milhões, alta de 1%.
No entanto, são os bioestimuladores (como Radiesse e Sculptra), os destaques apontados pela ASPS como tendências para se prestar atenção. “A demanda constante ano após ano significa que mais pacientes estão percebendo e se interessando pelos resultados que podem ser alcançados com preenchimentos sem ácido hialurônico. Eles não são tão solúveis, mas podem oferecer resultados mais duradouros.”
Aspecto natural com alta tecnologia - Se, no passado, o aspecto ‘engessado’, que escancarava os procedimentos era uma realidade, hoje ele não poderia estar mais fora de moda. A busca por uma aparência cada vez mais natural, revelada nas pesquisas da ISAPS e da ASPS, é claramente percebida nos consultórios de cirurgiões plásticos e dermatologistas de todo o país. Ela cresce, ainda, na medida em que surgem novas tecnologias que permitem esse resultado.
“A cabeça do paciente mudou muito. A principal queixa continua sendo o envelhecimento, mas sem tantos procedimentos invasivos e agressivos. Ele quer parar de envelhecer, mas de uma maneira muito saudável e natural”, confirma a dermatologista Roberta Carraro, que atende em seu consultório em Boca Raton (Flórida). Ela afirma que, atualmente, os tratamentos que ela mais faz são justamente os que unem as tecnologias com os bioestimuladores.
“Para a pele, os melhores resultados hoje em dia têm sido com a famosa medicina regenerativa, com o uso de exossomos, peptídeos, aminoácidos. São vários tipos de produtos específicos para aquilo que você quer para o paciente”, conta. “Desde julho do ano passado, quando foi liberado aqui na Flórida o uso de células-tronco e o de células humanas, a gente tem usado muito exossomo humano de líquido amniótico e célula-tronco. Os efeitos são bastante positivos.”
Apesar do conceito de medicina regenerativa estética ter surgido ainda na década de 1960, a sua aplicação começou a ganhar impulso a partir de 2010 e, de lá para cá, avança a passos largos no ritmo da inovação tecnológica. Ela se baseia na promoção da capacidade de renovação das células e é a grande aposta para os resultados realmente naturais. A proposta não é disfarçar rugas, mas reestruturar tecidos, para um rejuvenescimento duradouro.
Nessa linha são usados os bioestimuladores de colágeno (como os citados pela ASPS), exossomos (vesículas liberadas por células como células-tronco e que aceleram a regeneração profunda) e peptídeos (cadeias de aminoácidos que atuam na produção de colágeno e elastina), entre outros recursos.
Brasil é líder em cirurgias plásticas
O Brasil tem posição de destaque no cenário global da estética, liderando o ranking mundial de cirurgias plásticas realizadas em 2024, com quase 2,4 milhões de procedimentos, conforme o relatório ISAPS, superando os Estados Unidos nessa categoria específica.
No total, considerando procedimentos estéticos cirúrgicos e não cirúrgicos, o Brasil aparece na segunda posição global, com cerca de 3,1 milhões de intervenções, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.
Especialistas afirmam que esses números confirmam a maturidade do país no setor de estética e cirurgias plásticas, tanto pela demanda doméstica quanto pelo fluxo de pacientes estrangeiros atraídos pela qualidade dos profissionais brasileiros.
A ISAPS detalha o ranking dos procedimentos estéticos mais populares no Brasil em 2024, refletindo as preferências dos pacientes por intervenções de contorno corporal e envelhecimento facial.
Lipoaspiração fica em primeiro lugar, com cerca de 290 mil procedimentos; seguida por aumento de mamas (232 mil), cirurgia de pálpebras/blefaroplastia (231 mil), abdominoplastia (193 mil) e aumento de glúteos (168 mil).
Esses dados mostram que procedimentos voltados para contorno corporal continuam dominando a preferência dos brasileiros, com destaque também para intervenções que buscam rejuvenescimento facial.
Em 2023, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) estimava que mais de 2 milhões de pessoas fizeram cirurgias plásticas no Brasil, sendo as mulheres responsáveis por 70% desse montante.
Na avaliação do cirurgião plástico Dr. Carlos Almeida, o protagonismo brasileiro na área é resultado de uma combinação de fatores culturais, técnicos e econômicos.
"O Brasil construiu, ao longo de décadas, uma escola muito sólida de cirurgia plástica, reconhecida internacionalmente. Soma-se a isso uma cultura que valoriza bastante a estética e o bem-estar, além de um mercado que conseguiu tornar esses procedimentos mais acessíveis, dentro de certos limites", afirma.
Segundo o médico, a preferência dos pacientes ajuda a explicar o ranking dos procedimentos mais realizados no país. "A lipoaspiração segue como a cirurgia mais procurada, seguida pelas cirurgias de mama, blefaroplastia e abdominoplastia. São intervenções que respondem diretamente à busca por contorno corporal e rejuvenescimento facial”, diz.
LEIA TAMBÉM: Supermercados já podem vender remédios, mas restrições frustram setor
O perfil dos pacientes também mudou nos últimos anos. "Hoje vemos mais pessoas jovens, na faixa dos 20 e 30 anos, e um crescimento claro da participação masculina", revela o especialista.
Além das cirurgias com bisturi, tratamentos estéticos minimamente invasivos seguem em alta no Brasil, segundo o relatório da ISAPS.
Entre eles, a aplicação de toxina botulínica (Botox) e preenchimentos com ácido hialurônico são os mais populares no país, refletindo o aumento da procura por alternativas com menor tempo de recuperação.
Na avaliação da dermatologista Viviane Cristina Torres, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, o crescimento dos procedimentos estéticos acompanha mudanças no perfil da população brasileira.
"As pessoas estão vivendo mais, de forma mais ativa, e querem envelhecer com qualidade de vida e com menos impacto na aparência. Existe ainda um certo preconceito em relação ao envelhecimento visível, às rugas e às mudanças da pele, e os procedimentos acabam sendo uma forma de lidar com isso", afirma Viviane.
"A tecnologia evoluiu muito e trouxe opções menos invasivas, mas isso não elimina a necessidade de critério médico, formação adequada e responsabilidade na indicação."
Mercado brasileiro - A combinação de mão de obra altamente especializada, reconhecimento internacional e custo ainda competitivo coloca o Brasil como um dos principais destinos de turismo médico no mundo.
Clínicas brasileiras vêm atraindo pacientes de países como Estados Unidos, Portugal e Itália, interessados em procedimentos estéticos de ponta.
O avanço do setor estético também tem impacto direto na economia. A expansão do número de clínicas, hospitais-dia e consultórios especializados movimenta uma cadeia que envolve desde a indústria farmacêutica e de equipamentos médicos até serviços de hotelaria, transporte, seguros e financiamento.
Na clínica Sbelt, em São Caetano, a proprietária Suzete Fonseca tem dois tipos de públicos. "No ano passado, identificamos uma procura muito grande por preenchimento de boca, com clientes mais jovens, entre 30 e 35 anos. Já para faixas maiores, cresceu muito a procura por bioestimuladores de colágeno. Sem falar do botox, que é disparado o mais pedido", diz.
O fato de parcelar os pagamentos é o que viabiliza os procedimentos para mais pacientes, segundo Suzete. “Sem dúvida, muita gente que não teria condição de pagar à vista acaba conseguindo fazer porque pode dividir em três vezes, por exemplo. Isso ampliou muito o nosso público."
A disseminação do parcelamento transformou os procedimentos estéticos em um serviço de consumo mais acessível e recorrente no Brasil, contribuindo para sustentar a expansão do setor mesmo em um cenário econômico mais restritivo.
Iguais, mas diferentes
Se o desejo de se sentir bem com o próprio corpo movimenta uma busca intensa por cirurgiões plásticos e dermatologistas, a satisfação desse desejo pode ter significados muito diferentes dependendo da nacionalidade do paciente e, até mesmo, de qual região do país ele mora.
O estado norte-americano da Flórida, conhecido por ser um caldeirão de culturas devido à grande imigração, não somente de latinos, mas de todo mundo, é um exemplo disso. “A brasileira chega ao consultório querendo um tratamento mais completo. Ela vem com uma lista grande de coisas para falar, quer tratar cabelo, pele, corpo, face. A americana vem pedindo transformações um pouco mais imediatistas, com queixas mais específicas, digo que é uma lista com um item só”, revela a dermatologista Roberta Carraro, profissional brasileira com larga experiência no mercado norte-americano e consultório na cidade de Boca Raton.
Segundo ela, as brasileiras, assim como as latinas, buscam cuidado geral, com vistas a envelhecer melhor. “A brasileira tem um olhar mais amplo, com um pensamento de prevenção maior do que a norte-americana. A norte-americana é pontual, a brasileira é mais global.”
As diferenças não ficam só entre as nacionalidades. Um levantamento feito pelo The Wall Street Journal, a partir dos dados da ASPS, revelou que as necessidades dos pacientes mudam de estado para estado, dentro dos EUA. A pesquisa abrangeu apenas os procedimentos cirúrgicos, mas revela preocupações bem diversas.
A costa oeste e região das Montanhas Rochosas, por exemplo, responderam por 37% de todas as cirurgias de aumento de mamas do país, com destaque para o sul da Califórnia, onde o tamanho dos implantes costuma ser maior. No mesmo estado, os liftings de mamas estão em alta. Já no centro-oeste do país, os procedimentos mais procurados estavam no rosto, como o aumento de queixo, liftings faciais e rinoplastia.
O lifting facial também é famoso em Nova York, mas o nordeste dos EUA se destaca mesmo pela busca de um corpo esguio. “Houve uma tendência para o ‘menos é mais’”, afirmou ao jornal Sameer Patel, chefe de cirurgia plástica do Hospital da Universidade Temple, na Filadélfia, e presidente da Sociedade de Cirurgia Plástica Robert H. Ivy da Pensilvânia. “Por exemplo, há implantes mamários menores, menos preenchimento. Então, novamente, há realce, mas não implantes enormes ou resultados artificiais.”
IMAGEM: Freepik

