Na Akio, tradição empodera pequeno varejo e inova com e-commerce e collabs

Nascida no comércio de rua, a empresa de milhões hoje comandada por José Barreto procura unir legado familiar a estratégias para fortalecer pequenos negócios. E ainda ensina a gerar renda - vide as ações com uma Kombi estilizada (na foto), onde o CEO prepara receitas com produtos da marca

Karina Lignelli
18/Fev/2026
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Na Akio, tradição empodera pequeno varejo e inova com e-commerce e collabs

A trajetória da Akio é um exemplo de evolução que não esquece suas origens. A empacotadora de alho roxo, que nasceu em 1983 pelas mãos de um descendente de japoneses, o sr. Akio, que comprava o produto na zona cerealista da Capital paulista, foi assumida, em 1992, por seus amigos Paulo e Sueli Barreto, quando ele decidiu voltar para a terra natal de sua família na onda dos dekasseguis (a leva de trabalhadores nipo-brasileiros que migrou para o Japão durante a década de 1990, ainda na ressaca da crise e da hiperinflação no Brasil, em busca de melhores oportunidades econômicas para trabalhar na indústria).

Assim como ele, o casal era comerciante e tinha freguesia na região do bairro do Cambuci, onde circulavam com sua Kombi vendendo doces pelos botecos e pequenos comércios do bairro. Dessa empreitada nasceu a Akio Produtos Alimentícios, um pequeno negócio ambulante transformado, ao longo dos anos, em uma planta industrial de 4,3 mil m², que deve estrear um e-commerce próprio em março, projeta crescer 30% e atingir faturamento de R$ 50 milhões em 2026. 

Localizada em Guarulhos, a fábrica da Akio é comandada desde 2022 pelo filho mais velho do casal, o CEO José Barreto, 33, junto da mãe Sueli, que cuida do financeiro. O pai, Paulo, se aposentou e "foi morar na roça", conta o filho.

A empresa não só mantém a atividade original de selecionar, descascar e empacotar o alho roxo cultivado por pequenos produtores do Sul de Minas Gerais: transforma o bulbo nas versões triturado, frito, em mix de temperos, molhos e sal de parrilla.

Também diversificou, aumentando o portfólio de produtos de olho no segmento wellness (saúde e bem-estar) com a linha Akio Power, composta por misturas para tapioca, tapioca granulada e uma pasta proteica de amendoim "100% natural". 

Agora, o negócio familiar vem passando por um processo de modernização de marca, procurando unir tradição e inovação por meio de collabs com outras marcas, ações de engajamento nas redes sociais e parcerias com marketplaces como a Amazon para, junto ao novo e-commerce, "alcançar consumidores em regiões onde o pequeno varejo ainda não está", afirma.  

Planta da Akio, em Guarulhos, fica próxima ao Aeroporto, tem 43 mil m² e 80 funcionários 

O pequeno varejo, aliás, está no radar da Akio na busca por capilaridade, que tem como diferencial competitivo investir em treinamento e suporte para que os comerciantes também consigam se destacar e lucrar mais. "Acredito que valorizar o pequeno varejo é também uma forma de resistência da cultura local e de proximidade com atendimento mais personalizado."

Um dos pilares dessa estratégia é instruí-los diretamente no ponto de venda (PDV). Por meio de uma pesquisa interna realizada com mais de 2 mil respondentes nos comércios onde a marca está presente, a Akio percebeu que muitos consumidores e pequenos varejistas não sabiam distinguir as variedades de produtos - como a diferença entre o alho nacional (roxo) e o importado.

A empresa, que conta com a plataforma GoFind, que conecta consumidores aos pontos de venda, decidiu mudar essa mentalidade e passou a intensificar, a partir de 2025, o suporte aos pequenos com um modelo baseado em consultoras no estilo "vendedoras de Yakult", sugerindo bancas separadas no PDV e explicando as vantagens econômicas e de qualidade de cada item.

"A ideia é mostrar a diferença de preço e de qualidade: um dente de alho roxo [nacional] equivale a cinco dentes de alho importado. É mais caro mas, economicamente falando, gasta-se menos para temperar a comida". 

A estratégia de Barreto, aplicada depois de um período financeiro complicado do pós-pandemia que se alongou, levou a Akio a um aumento adicional de 5% no faturamento, conta. E se estende com ações inusitadas criadas pelo CEO, formado em Gastronomia - como levar uma Kombi estilizada para dentro de supermercados. Nessas ocasiões, o próprio Barreto ensina receitas e técnicas para que as pessoas possam utilizar os produtos — como a tapioca — para gerar renda extra.

"Não queremos só vender, queremos dar soluções para gerar renda extra para essas pessoas também. Ensinamos receitas na hora, com ficha técnica e sugestão de venda e lucro. Tudo 'mastigado' para a pessoa logo começar a faturar", destaca.

'Da roça para a mesa' 

Chegar ao atual status da Akio não foi tão simples assim. Devido às dificuldades financeiras iniciais do negócio, a operação dos pais de José Barreto foi transferida do Cambuci, que faz parte do Centro Expandido da Capital paulista, para o extremo da Zona Leste, na região de Guaianazes e Ermelino Matarazzo. Lá, conseguiram evoluir a produção para alho frito e triturado.

Até 2008, quando a Akio passou a embalar tapiocas - uma novidade em São Paulo na época, segundo Barreto, mas que, com o crescente interesse do consumidor por produtos saudáveis, ajudou a acelerar drasticamente o crescimento da empresa. "Em 2016, a empresa atingiu um novo patamar de produção e mudou-se para a sede atual, em Guarulhos", conta.

A partir de 2017, a diversificação do mix aumentou com o lançamento da pasta de amendoim com a marca Akio Power, como um produto complementar à tapioca para os adeptos desse tipo de alimentação, que leva ingredientes naturais e sem aditivos. Veio a pandemia e, a princípio, a empresa teve um impacto positivo por conta do aumento nos estoques de alimentos. 

Sueli, a mãe, com o filho e CEO José: resiliência herdada de quem começou vendendo doces na rua


Enquanto isso, entre 2020 e 2021, Barreto passou a investir em sua presença digital como criador de conteúdo gastronômico, ensinando truques de cozinha e acumulando seguidores. "Pensei: se eu conseguir virar influenciador pessoa física, quero levar essa mentalidade para a empresa. Afinal, não pretendo vender só produto, quero vender conteúdo e informação." 

Porém, quando a Akio começou a enfrentar um declínio importante no faturamento por conta de um processo de concorrência desleal no mercado de tapiocas, conforme conta, o filho de Sueli e Paulo (que já dava sinais de que queria se aposentar), viu que tinha chegado a hora de assumir os negócios. E profissionalizar a gestão, ainda muito familiar.

Foi quando começou a usar sua experiência como influenciador para firmar parcerias estratégicas - os famosos collabs -, que levaram ao lançamento do dadinho de tapioca com a sorveteria Babaê Gelato, ações para promover "um café da manhã reforçado de Carnaval com crepioca" com a Ovos Mantiqueira, e um molho de alho com a marca alemã Hela Spice. 

Daí também nasceram as ações com a Kombi estilizada dentro de atacadistas de periferia para ensinar a gerar renda - inclusive com vídeos no Youtube -, o suporte ao pequeno varejo para ampliar a capilaridade, pois a Akio ainda está presente só nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, e a preparação para atender o mercado internacional com o famoso alho roxo.

"Vindos da queda nos anos anteriores, em 2025 conseguimos aumentar o faturamento em 5% com essas ações. A meta é alcançar dois dígitos em 2026 com faturamento de R$ 50 milhões", reforça. "Já exportamos de forma indireta, por meio de distribuidores, mas nosso e-commerce já começa trilíngue para chegar ao consumidor em qualquer lugar do mundo."

Todo esse trabalho, segundo Barreto, é para fazer a empresa voltar a gerar lucro, e não virar refém de métodos tradicionais nem nadar contra a maré para "não encher os bolsos da indústria de ultraprocessados". "Não posso ser hipócrita, pois também vendo produtos embalados. Mas nosso propósito é democratizar a cozinha para que as pessoas possam comer melhor." 

Apesar do olhar atento às novas tecnologias e às linhas wellness, Barreto continua a se basear nos ensinamentos dos pais. Para ele, o futuro do negócio "é ancestral", pois se concentra em equilibrar a agilidade do mundo moderno com a resiliência herdada de quem começou vendendo doces na rua. Além de encurtar o caminho "da roça à mesa", conforme diz.

"Uma coisa que carrego deles, mas ao mesmo tempo entra em conflito, é não arriscar tanto. Mas era o que eles faziam! Por isso considero esse embate importante: trazer conhecimento da geração passada sempre acoplando coisas do mundo moderno." O futuro? Já começou. 

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IMAGENS: Divulgação e Reprodução do Youtube

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