Viracopos amplia em 50% área para cargas farmacêuticas com alta das canetas emagrecedoras
Aeroporto de Campinas registrou crescimento de 12,2% na movimentação de cargas no primeiro trimestre de 2026, impulsionado principalmente pela armazenagem de medicamentos, segundo Marina Giffu (foto), gerente comercial de Viracopos

O Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, tem consolidado a sua posição estratégica na malha logística brasileira. O terminal registrou um crescimento de 12,2% na movimentação de carga no primeiro trimestre deste ano. O avanço foi puxado, sobretudo, pelo setor farmacêutico, que encontrou no terminal a infraestrutura necessária para atender à crescente demanda por medicamentos de alta tecnologia, segundo Marina Giffu, gerente comercial de cargas de Viracopos.
Em entrevista ao Diário do Comércio durante o Global Trade Summit, promovido pela Associação Comercial de Campinas (ACIC), a executiva diz que a movimentação no terminal de cargas chegou a 70,1 mil toneladas entre janeiro e março deste ano. Em igual período do ano passado, foram movimentadas 62,3 mil toneladas.
Além disso, março apresentou o melhor desempenho para o mês nos últimos três anos, com movimentação de 26,9 mil toneladas, alta de 15,8% na comparação com março de 2025, quando 23,2 mil toneladas passaram pelo terminal.
Efeito Ozempic - O resultado acompanha a expansão observada nas operações de importação, exportação, carga nacional e remessas expressas internacionais. Ao apontar que o Brasil figura hoje entre os dez países com maior projeção de crescimento no segmento farmacêutico global, Marina revela que "esse movimento tem sido muito impulsionado pelas 'canetinhas emagrecedoras', que viraram uma febre".
Dados de pesquisa do Instituto Locomotiva de fevereiro deste ano mostram que 33% dos lares têm ao menos um morador que utiliza, ou já utilizou, esses medicamentos. No fim de 2025, o índice era de 26%. Esse avanço em ritmo acelerado também alcança o nível de conhecimento sobre o medicamento, segundo a pesquisa, que indica que apenas 6% dos brasileiros afirmam nunca ter ouvido falar das canetas emagrecedoras, enquanto 6 em cada 10 afirmam conhecer alguém que já utilizou substâncias como Ozempic, Mounjaro ou Wegovy.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que em 2025 a importação desses medicamentos somou US$ 1,669 bilhão, o equivalente a cerca de R$ 9 bilhões. O montante financeiro gerado pelas canetas emagrecedoras já ultrapassa as cifras de importação de produtos consolidados na balança comercial brasileira, a exemplo do salmão, aparelhos celulares e azeite de oliva, e evidencia a ascensão desses fármacos ao topo da lista de itens de alto valor agregado mais consumidos no país.
Outro levantamento, este feito pela Anvisa, mostra que a importação de insumos farmacêuticos para a manipulação das canetas tem sido incompatível com o mercado nacional. Somente no segundo semestre de 2025, foram importados 130 quilos de insumos, que seriam suficientes para a preparação de 25 milhões de doses.
"O Brasil é o maior consumidor desse tipo de medicamento, tanto para diabetes quanto para emagrecimento, o que nos colocou como a 'estrela dos negócios' no setor", diz a gerente comercial de cargas de Viracopos.
A Dinamarca, sede da farmacêutica Novo Nordisk — responsável pelo Ozempic e pelo Wegovy —, segue como principal origem das importações. O país respondeu por 44% do total, com US$ 734,7 milhões em vendas ao Brasil no último ano. No entanto, o cenário está mudando rapidamente. Os Estados Unidos já aparecem logo atrás, sendo origem de 35,6% das importações brasileiras dessas canetas emagrecedoras, o equivalente a US$ 593,7 milhões. O país abriga a Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, medicamento que vem conquistando espaço de forma acelerada no mercado brasileiro.
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Para absorver essa demanda, Marina revela que o aeroporto tem focado seus investimentos em certificações e infraestrutura especializada. Recentemente, a capacidade específica para o setor de saúde foi ampliada em 50% por meio do programa Smart Pharma, criado para oferecer atendimento prioritário e especializado, em linha com as rigorosas exigências regulatórias e de temperatura que o setor demanda. São áreas climatizadas, controle de temperatura com câmaras frias que funcionam 24 horas, monitoramento contínuo, processos padronizados e equipe treinada segundo as práticas internacionais, afirma a executiva.
"O segmento exige tratativas diferentes. É necessária uma estrutura qualificada, homologada e sempre em linha com as certificações e a legislação vigente. Além disso, entregamos inteligência operacional, controle e confiabilidade, fatores decisivos para o setor", afirma Marina.
A próxima etapa deste plano, segundo a gerente de Viracopos, é a construção de um novo armazém de quase 12 mil metros quadrados, com entrega prevista para fevereiro de 2027, que permitirá dobrar a capacidade atual de atendimento farmacêutico. Ao se basear em números, Marina diz que ainda há um enorme mercado a ser absorvido. Um relatório do Itaú BBA projeta que o setor de medicamentos para controle de peso e diabetes deve saltar do patamar atual de cerca de US$ 1,8 bilhão por ano para US$ 9 bilhões até 2030, o equivalente a aproximadamente R$ 50 bilhões.
Localização privilegiada
Viracopos detém 33% de todo o share de carga aérea no Brasil. De acordo com Marina, a preferência das empresas pelo terminal deve-se, em grande parte, à sua localização na Região Metropolitana de Campinas (RMC). Cercado pelas melhores rodovias do país, como Bandeirantes e Anhanguera, ela aponta que o aeroporto facilita o fluxo terrestre de grandes indústrias de tecnologia e fármacos instaladas no entorno.
Para quem ainda não utiliza o modal aéreo para exportar, Marina destaca a agilidade operacional como o principal diferencial de Campinas. Com rotas de exportação que incluem a União Europeia (com destaque para Amsterdã, Bruxelas e Lyon), Estados Unidos e Ásia em destaque com voos diários, Marina diz que, como maior hub cargueiro do país, Viracopos também tem rotas regulares para o México e outros países da África e Oceania.
Sobre os planos de expansão do complexo, Marina diz que as atualizações não se limitam à saúde. Aproveitando uma área remanescente de 70 mil metros quadrados do antigo terminal de passageiros que passou por um retrofit, o aeroporto entregou há um ano uma nova área de 25 mil metros quadrados dedicados exclusivamente à logística de e-commerce. Outro plano em curso é a construção de aproximadamente 220 mil metros quadrados de galpões logísticos no entorno do aeroporto. Esses espaços serão oferecidos ao mercado para abrigar fábricas, armazéns e centros de distribuição.
"A área de Viracopos é muito vasta e somos o aeroporto com maior capacidade de ampliação no país hoje", pontua a gerente. "Em Viracopos não trabalhamos com 'janelas' ou agendamento prévio. Temos uma capacidade de recebimento muito ampliada, o que evita tráfego parado e garante uma disponibilidade constante. O resultado é mais eficiência e rapidez no escoamento da produção nacional".
IMAGEM: Viracopos/divulgação

