Campos Neto diz que quer trabalhar junto com o governo
O presidente do Banco Central reafirmou a importância da autonomia da instituição e falou que considera justo o governo questionar o nível dos juros
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, reiterou nesta terça-feira, 14/02, que quer trabalhar junto com o governo federal e está à disposição para oferecer uma opinião técnica ao Executivo. Ele participou de evento do BTG Pactual na manhã desta terça.
Campos Neto voltou a defender que é possível coordenar política fiscal responsável com política social. Ele repetiu que o ideal é que os programas sejam temporários, direcionados e sob medida, mas ponderou que o governo está "na direção certa" sobre o tema fiscal.
"Tem de ter uma escolha, tem de ter uma priorização de gastos. Eu conversei outro dia com a ministra Simone Tebet, do Planejamento e ela falou muito disso, como prioriza, melhora a qualidade de gastos, achei muito boa a conversa", disse Campos Neto.
REUNIÕES DO CMN
O presidente do Banco Central repetiu que se posicionou contra a proposta de se exigir uma decisão unânime do Conselho Monetário Nacional (CMN) para se alterar as metas de inflação.
O colegiado é composto pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo chefe do BC. "Se eu tivesse de olhar os extremos, entre preferir unanimidade e preferir o Banco Central não ter voto e ser só um assistente técnico, eu preferia a outra, porque a gente acha que tem um pouquinho de conflito de interesse no fato de você determinar sua própria meta", disse.
As declarações ecoaram a entrevista do presidente do BC ao programa Roda Viva, da TV Cultura, na segunda-feira (13), quando ele já havia dito ter se posicionado contra uma mudança nas regras sobre a deliberação do CMN.
Hoje, o colegiado pode tomar as decisões sobre os alvos por maioria simples - portanto, o governo poderia mudar a meta contra a vontade do BC.
Nesta terça, Campos Neto reiterou ser contrário a uma mudança das "regras do jogo" e disse que a autoridade monetária seguirá o alvo definido pelo CMN.
Ele acrescentou que a meta não é um instrumento de política monetária e disse considerar que o sistema brasileiro funciona bem hoje.
Questionado sobre se o CMN poderia tomar uma decisão sobre as metas na sua reunião marcada para quinta-feira, 16, o presidente do BC não respondeu.
"Vocês vão ter de esperar, mesmo porque o presidente do CMN é o ministro da Fazenda, o Banco Central tem um voto de três", disse.
Ele repetiu que o sistema de metas pode ser aperfeiçoado, mas alertou que o aumento dos alvos pode levar a uma elevação das expectativas e reduziria a flexibilidade para a condução da política monetária.
AUTONOMIA
Campos Neto voltou a defender a autonomia formal da instituição. "É importante garantir esse ganho de autonomia do BC", disse ele, emendando que, em dezembro, o cenário-base do colegiado era de inflação na meta e corte de juro em junho.
A piora na expectativa, afirmou Campos Neto, foi basicamente por conta da abertura do prêmio de risco no mercado. O presidente do Banco Central reiterou que lá atrás, quando os preços de energia começaram a subir, que já havia previsto que o processo de desinflação no mundo seria linear.
Á época, segundo ele, algumas pessoas não aceitaram muito bem este prognóstico. Agora, no entanto, segundo ele, o debate nos Estados Unidos é sobre o quanto precisa sacrificar a economia para a inflação voltar para 3%, 2%.
"Até agora a demanda por bens não voltou à linha de tendência", disse o banqueiro central. Para ele, o fluxo para emergentes está grande e há uma enorme boa vontade para com o Brasil.
Campos Neto também disse que não é vantajoso derrubar juros e o investidor deixar de investir no País. Na avaliação dele, a precificação de juro terminal nos EUA em 5% em tempos normais desaceleraria o fluxo de recursos para os países de economia emergente.
EMBATE COM O GOVERNO
O presidente do Banco Central disse considerar justo que o governo questione o nível dos juros. "É importante ter alguém que faça esse papel no governo sempre. Faz parte do jogo, do equilíbrio natural", comentou.
Ele afirmou que é trabalho do BC melhorar a comunicação e esclarecer as razões por trás dos juros altos no País e reconheceu que a autarquia poderia ser mais "didática" no trabalho.
Campos Neto alertou, no entanto, que a experiência internacional mostra que permitir uma inflação mais alta para crescer mais é normalmente ruim. "No final, esse par ordenado leva a uma inflação muito alta e um crescimento que sobe muito pouco", disse.
IMAGEM: José Cruz/Agência Brasil

