Casa Santa Luzia faz revolução interna em benefício da sustentabilidade

Empresa familiar, que completa 100 anos em 2026, acaba de publicar o seu primeiro relatório de sustentabilidade e corre para fazer parte de lista de supermercados com ‘lixo zero’

Fátima Fernandes
25/Nov/2025
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Casa Santa Luzia faz revolução interna em benefício da sustentabilidade

Numa visita à Casa Santa Luzia, Luciana Lopes, gestora de sustentabilidade e acionista da loja, pediu para um funcionário abrir um saco de lixo para verificar o que havia dentro. À primeira vista, uma surpresa para ambos, tinha ali um pimentão até que em boas condições.

Ela tirou uma foto do vegetal e mandou para o pai, Azuil Lopes, neto do fundador da loja, Daniel Lopes, que respondeu assim: “Traz para a casa que fazemos recheado”.

Foi aí, em 2019, que a Casa Santa Luzia, que se prepara para completar um século no ano que vem, deu início ao seu programa Ação Sustentável.

Como diz Luciana em entrevista ao Diário do Comércio: “Apesar de ser uma empresa familiar, não dava para chegar aos 100 anos sem publicar um relatório de sustentabilidade”. E é o que acaba de ser feito aos 99 anos.

Desde o caso do pimentão até agora, a loja, que nasceu como uma mercearia na esquina das ruas Augusta com Oscar Freire, fez uma revolução interna em prol da sustentabilidade.

Tudo começou a partir de conversas com o time da família que está na gestão da loja. A etapa seguinte foi a sensibilização dos colaboradores, cerca de 700, que passaram a receber informações sobre clima, ESG e o papel de cada um em uma sociedade mais sustentável.

Equipes também foram ouvidas, o que acabou resultando, por exemplo, na substituição de copos de plásticos e itens de cafeteria, além do monitoramento de uso de plásticos no caixa.

Em 2022, a loja criou o Comitê de Sustentabilidade, incluindo lideranças das áreas comercial, operação de loja, negócios digitais, marketing e qualidade e prevenção de perdas.

A ideia era aprimorar tudo o que já estava sendo feito até então. Por ser uma loja que prioriza a qualidade dos produtos, o desperdício de alimentos era alto.

Imagine Luciana, especializada no assunto, vendo ali, na loja da família, alimentos em boas condições indo para o lixo, num país em que cerca de 30 milhões de pessoas ainda passam fome. “Com a mudança do modelo de compra no Ceasa, reduzimos, já no primeiro ano, em 30% o desperdício de produtos frescos”, afirma ela.

Desafio - Se tem um setor que pode ser desafiado a trabalhar para reduzir a montanha de resíduos orgânicos que destina para os aterros sanitários e lixões no Brasil, é o de supermercados.

Depois das residências urbanas, são eles um dos grandes geradores de lixo orgânico no país. Algumas redes estão conseguindo sair da lista.

O grupo Big Box e Ultrabox, de Brasília (DF), por exemplo, conquistou, no ano passado, o Certificado Lixo Zero, o primeiro no setor de supermercado no Brasil.

Neste mês, o grupo apresentou o seu projeto Lixo Zero, desenvolvido em parceria com o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), na COP 30, em Belém (PA).

Para receber o certificado, a empresa tem um limite de até 10% de resíduos gerados enviados aos aterros sanitários. No caso do Big Box, o percentual atingiu menos, 4%.

No Brooklyn, em Nova York, outro exemplo de supermercado com Lixo Zero é o da Precycle, com proposta de atendimento ao cliente semelhante à de um mercado municipal.

Os clientes podem adquirir produtos a granel e levar as suas próprias embalagens, de acordo com informações publicadas pela Abras (Associação Brasileira de Supermercados).

Carcaças, ossos e borra de café - A contribuição da Casa Santa Luzia com o programa Ação Sustentável foi de uma redução média mensal de 1,8 tonelada de resíduos de carcaças e ossos no ano passado.

A loja também destinou à reciclagem cerca de 436 toneladas de papel, papelão, plásticos, vidro, óleo vegetal, madeira, borra de café, sebo, ossos, lâmpadas e eletrônicos. Esse montante correspondeu a cerca de 48% do total de resíduos gerados, em média, por mês.

Árvore feita pela artista plástica Adriana Rizkallah com resíduos de papelão da loja. A obra é refeita todo ano desde 2020, quando a Santa Luzia começou seu programa de sustentabilidade (Imagem: Adriana Rizkallah)

 

Luciana diz que a borra de café foi o primeiro resíduo da loja encaminhado para compostagem e aproveitado como insumo agrícola, uma ideia das próprias funcionárias.

Para aprimorar cada vez mais o seu trabalho de prevenção de perdas e desperdício, a Casa Santa Luzia capacitou os seus gestores para que eles mesmos tomem decisões em suas áreas.

No ano passado, o supermercado deu início a reuniões com os representantes de áreas com a intenção de discutir o que foi identificado nos indicadores de perdas para eventuais melhorias.

“Esse movimento educa, engaja e fortalece o compromisso com a meta maior da casa: zerar o desperdício de alimentos em condições de consumo”, cita o relatório da Casa Santa Luzia, que tem a carta da diretoria, na abertura, assinada por Ana Maria Lopes, diretora da loja.

FLV - Os principais esforços da Casa Santa Luzia, como informa o relatório, estão concentrados nas áreas de padaria e de FLV (frutas, legumes e verduras).

Em 2024, a loja decidiu aumentar a produção de produtos semiprontos, como vegetais picados, e lançou uma marca própria de sucos.

De fevereiro a maio deste ano, foram vendidos 8 mil litros de sucos de fabricação própria, utilizando, em parte, itens que não seriam mais vendidos na loja.

Para o ano que vem, o supermercado pretende abrir uma loja exclusiva para os funcionários, que poderão comprar por preços irrisórios produtos que não teriam condições de ter em casa.

Para Eduardo de Araújo Santos, consultor de varejo, especialista em prevenção de perdas e desperdício, o relatório da Casa Santa Luzia é exemplo a ser seguido por pequenas redes.

“Eles fizeram um resumo de ações, definiram conceitos, propósitos, estabeleceram pontos de partida, a partir de indicadores disponíveis. Eles ainda não possuem dados de desperdício de alimentos, mas apresentaram o que já estão fazendo, o que não é pouco”, afirma.

Vale lembrar, de acordo com ele, que a questão do desperdício tem um longo caminho pela frente para todas as redes de supermercado no país e começa por uma questão de entendimento, conceito e alinhamentos internos e com fornecedores e clientes.

“O relatório da Casa Santa Luzia é excelente exemplo de consolidação do que está sendo feito, estabelecimento de metas, desafios e ações”, afirma.

Com 2,4 mil metros quadrados e uma oferta de 30 mil itens, a Casa Santa Luzia, localizada na Alameda Lorena, no coração dos Jardins, em São Paulo, recebe a visita de 4 mil pessoas por dia.

A partir deste primeiro relatório de sustentabilidade, que utiliza como referência o padrão GRI (Global Reporting Initiative), quer construir uma linha de base de dados e definir indicadores para todos os projetos, o que é considerado um desafio para até o final de 2026.

ENTREVISTA

Leia a seguir os principais trechos da entrevista com Luciana Lopes, gestora de Sustentabilidade da Casa Santa Luzia:

 

Diário do Comércio - Quais são os indicadores ambientais mais importantes para o negócio?

Luciana Lopes - Os índices de tratamento e redução de desperdício de alimento. No ano passado, enviamos 70 toneladas de alimentos para seis ONGs, como itens de padaria, frutas, legumes, verduras, que são usados também para fazer marmitas para a população de baixa renda.

Em 2019, também fazíamos doações, mas menos; não tínhamos institutos recebedores. O que fizemos foi selecionar instituições recebedoras e também pesar os ingredientes.

Num primeiro momento, em vez de mandar para os aterros, encaminhamos para doação, o que envolveu treinamento de pessoas, criação de fluxo de alimentos dentro da loja. A doação, que era de 15 caixas por dia, passou para 40 caixas por dia em seis meses. Uma vez que as instituições passam a buscar diariamente, os próprios funcionários vão entendendo que não dá para descartar.

 

O que a loja fez no último ano que mais reduziu impacto ambiental?

Luciana - Redução de desperdício e reciclagem. Conseguimos reciclar resíduos, como a borra de café, além de carcaças e ossos. As empresas que trabalham com ração animal preferem coletar de grandes redes. Estamos há seis anos buscando isso porque nosso volume não compensava. Agora, conseguimos, porque o mercado está mudando. Também aumentamos as doações.

Estamos ainda implantando um processo de venda de alimentos mais baratos para os funcionários, o que deve acontecer no ano que vem. Ainda está em fase piloto. Antes tínhamos uma geleia, por exemplo, que não servia mais e mandávamos para a doação. Hoje, estamos implantando uma loja para que o funcionário, que doava o que ele nunca havia provado, possa comprar. Vamos soltar listas de produtos.

Já tivemos vendas de pães, cookies. Há algumas semanas, uma encomenda de massa de brigadeiro foi cancelada. Fizemos, então, a venda para funcionários. Estamos encaixando todas essas ações no processo de combate ao desperdício.

 

Como vocês medem o retorno financeiro das ações ambientais?

Luciana - Nosso objetivo não é ter retorno financeiro, é ter compliance de sustentabilidade e ter gestão mais eficiente. Por exemplo, toda a parte de desperdício de alimentos bate em compras. Hoje, ainda não temos essa medida, não consigo isolar o fator sustentabilidade dentro de outras ações que estão acontecendo.

A empresa está evoluindo em vários planos. O objetivo é, realmente, se engajar no processo de sustentabilidade. A gente já sabe que reduziu 35% o uso de filme stretch por meio do uso de cintas, 61% o uso de protetor de garrafa e 21% o uso de sacolas kraft na frente de caixa.

 

Quais metas ambientais são mais difíceis de cumprir?

Luciana - O lixo zero. Nossa loja está em um prédio antigo, que não foi pensado para ter segregação de resíduos. Esse é o nosso desafio. Demora ter uma solução adequada. Tem toda a parte física, se vai trabalhar com coleta, onde armazenar os materiais, a implantação é complexa. Se a loja tem espaço, é outra situação. Aqui onde estamos é desafiador.

Um grande desafio para uma empresa familiar é estabelecer indicadores de sustentabilidade. Esse relatório, que utiliza como base o padrão internacional GRI (conjunto de normas para relatórios de sustentabilidade), não tem indicadores para tudo.

 

Como vocês avaliam os fornecedores em relação a riscos ambientais?

Luciana - A Casa Santa Luzia tem uma particularidade, que são 2.100 fornecedores ativos, 30 mil itens na loja e precisa caminhar com eles. Na época do sr. Jorge Lopes, um fornecedor vinha com uma manteiga, o rótulo não estava bem certo, e tínhamos a tradição de apoiá-lo, desenvolver ao fornecedor, essa é uma prática nossa.

Hoje, precisamos que os fornecedores se desenvolvam e tenham requisitos atendidos de sustentabilidade. A sustentabilidade é um caminho que não se constitui sozinho e nós estamos treinando os profissionais de compra. Precisamos que eles tenham um compromisso com a gente, que não tenham, por exemplo, trabalho análogo ao de escravo, que não joguem efluentes em rios.

O nosso jeito de fazer é paulatinamente, apoiando os fornecedores para que eles também façam a transição.

 

Alguma constatação na coleta de informações para a elaboração do relatório que chegou a surpreender a empresa?

Luciana - Pela primeira vez, fizemos um mapa dos trabalhadores por região e identificamos que 25% da nossa força de trabalho é do Nordeste. Isto é, somos uma empresa muito nordestina.

Também identificamos que 38,5% dos funcionários são mulheres e 61,5%, homens. Na liderança, 32,6% são mulheres e 67,4%, homens. Ficamos satisfeitos com esses dados? Não. Isso não vai mudar de um dia para o outro, porém, vamos fazer um programa no qual aumente a participação de mulheres.

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IMAGEM: Cesar Diniz/DC

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