Chegou a hora de mudar de ramo. E agora?

Pode ser difícil, mas é possível utilizar a experiência acumulada em determinada área para se aventurar em um novo negócio. Sem medo de errar, André Oliveira (na foto) já passou por isso algumas vezes

Mariana Missiaggia
29/Jul/2019
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Chegou a hora de mudar de ramo. E agora?

Muita concorrência, dívidas, dificuldades no setor e falta de inspiração. Essas são algumas das razões que levam muitos empresários a desistirem de um negócio. Mas, nem sempre essa decisão é fácil – ainda mais quando ela vem acompanhada da vontade de explorar uma nova atividade.

O medo do desconhecido e a falta de conhecimento por vezes pode resultar em uma escolha equivocada.

COMEÇAR DO ZERO

O empresário André Oliveira, 39 anos, de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, conhece bem essa jornada. Quando abriu o primeiro negócio, há dez anos, não imaginava que futuramente mudaria de ramo algumas vezes e que hoje seria proprietário de um bufê de festas infantis.

Desde que conseguiu um emprego na Whirlpool em 1999, Oliveira já alimentava o desejo de abrir a própria empresa. O contato com fornecedores e especialistas do segmento o levou a um negócio de venda e manutenção de ar-condicionado.

Enquanto ele seguia com o emprego formal, um funcionário atendia aos clientes. Em 2010, Oliveira percebeu uma procura intensa por produtos de linha branca e adicionou a distribuição de peças ao negócio.

Mais para a frente abriu outra empresa especializada em manutenção para pessoa jurídica. Conseguiu clientes importantes como Casas Bahia, Pernambucanas e Magazine Luiza. A demanda era tamanha que ocupava dois galpões de 1,5 mil metros quadrados.

Mas outro movimento no mercado mudou os rumos do negócio. A queda nas vendas de itens de linha branca fez o faturamento cair, o número de clientes diminuir e a empresa focar apenas na assistência técnica para o consumidor final.

Os negócios já não caminhavam tão bem quando Oliveira decidiu dar ouvidos ao conselho de um amigo: mudar de ramo e abrir um mercado.

“Estava numa região com oito mil famílias e instalado numa avenida, onde não havia nem sequer um mercadinho”, diz.

Em poucos meses, planejou tudo e reformulou o mesmo imóvel alugado em que trabalhava anteriormente e o transformou numa espécie de empório. Instalou gôndolas, prateleiras e quatro caixas. Ali dentro, além de todos os itens que compõem um mercado, oferecia também serviço de açougue e padaria com fabricação própria.

No segundo mês de funcionamento já surgiram interessados em comprar o ponto e tudo parecia ir muito bem. Mas 2013 já anunciava alguns sinais da crise econômica que o país atravessaria nos próximos anos, reduzindo bruscamente o consumo das famílias.

E em menos de um ano, tudo mudou e o faturamento do mercado ainda não era o suficiente para pagar o investimento. Incansável, Oliveira decidiu mudar mais uma vez.

Mas, desta vez fez tudo diferente. Contratou um consultor, elaborou um plano de negócios e fez estudo de mercado. Já praticamente sem reservas, vendeu o apartamento onde vivia, voltou a morar com os pais, passou o ponto do mercado e conseguiu um empréstimo via BNDEs.

O segmento escolhido era ainda mais desconhecido pelo empresário: festas infantis. Na mesma avenida em que ele estava instalado vagou um galpão que lhe parecia perfeito para a empreitada, o bufê de festas Pepe’s Park -um investimento total de R$ 1,1 milhão.

Com a benção de um consultor, começou a erguer o negócio que levou quase um ano para ficar pronto. Ciente das prioridades do negócio, dedicou seu tempo as reformas do espaço, aprovação do projeto arquitetônico e a realizar consultorias de marketing, gastronomia e planejamento para alavancar o seu negócio. Além disso, investiu também em brinquedos automatizados e móveis bem decorados.

“Ninguém fecha uma festa sem uma indicação ou do dia para a noite. O primeiro ano foi bem difícil. Eu precisava colocar dinheiro do meu bolso todo mês”, diz.

Entre os principais custos, André cita as manutenções periódicas do ambiente. Por isso, para a empresa funcionar bem, ele reforça a importância de manter um bom capital giro.

MANTER UM NEGÓCIO

O pacote de serviços oferecidos pelo bufê inclui todo o básico para realizar uma comemoração por em média R$ 7 mil com locação do espaço, decoração, alimentos, bebidas e fotos. Cerca de 70% das vendas estão concentradas em indicações e em convidados da festa. Hoje, ele realiza cerca de 23 festas por mês.

Tudo que é oferecido na festa é produzido pela própria empresa, o que assegura a procedência, qualidade, entre outros diferenciais, como cardápios veganos e salgados sem lactose.

Atualmente, ele conta com sua própria máquina para produzir salgadinhos e também mantém um ateliê com cerca de 60 metros quadrados para guardar todo o acervo usado na decoração das festas.

Para ele, o potencial desse mercado é evidente pelos números –afirma receber mais de 200 consultas telefônicas por mês. “Temos aumento de vendas todos os anos. Em 2018, por exemplo, obtive um crescimento de 10%. Para este ano espero crescer pelo menos 15%”, diz.

De acordo com a Associação Brasileira do Comércio de Artigos de Festa (Asbrafe), o mercado de festas – em especial o de festas infantis – é um dos que mais crescem no país -14% a cada ano, em média.

Nos últimos quatro anos, a associação calcula que mais de mil novas lojas de artigos voltadas para esse setor foram abertas no país – e grande parte delas migrou de outros ramos para aproveitar as oportunidades de mercado.

Segundo a Asbrafe, as lojas de artigos de festas trabalham mais de cem temas diferentes. Desse total, 80% dos produtos são voltados para crianças até dez anos.

CHEGOU A MINHA HORA?

Mudar às vezes é preciso. Mas como saber quando se deve mudar o modelo de negócio da sua empresa?

Adriano Augusto Campos, consultor de negócios do Sebrae-SP, diz que é importante ficar atento aos cenários de mercado, planejar e ficar de olho em algumas tendências.

Variáveis internas e externas, questões empresariais e pessoais, vendas em queda, reclamações em excesso, falhas, devolução de produtos, dívidas, alta rotatividade de funcionários, produtividade em baixa, falta de sucessão familiar e falta de propósito são fatores que podem e devem nortear essa decisão, segundo Campos.

Sozinho ou com ajuda? - Quando possível, uma orientação profissional também pode ajudar o empresário a levantar dados que passaram despercebidos.

“Às vezes não tem alternativa e será uma decisão solitária. Mas, o recomendável é que seja o menos emocional possível porque aí tendemos a retardar algumas decisões para evitar a sensação de fracasso”, diz.

E as dívidas? – Quando chega a hora de encerrar um negócio é preciso avaliar a situação financeira empresarial e pessoal. Muitos já estão com os nomes negativados, com dificuldades para conseguir crédito e o melhor que podem fazer é se distanciar de grandes instituições financeiras.

“Cada caso é particular. Talvez a melhor alternativa seja buscar um recurso societário e somar essa força de trabalho. Se for algo muito inovador que demanda tecnologia, o ideal seria buscar um investidor”.

Um novo ramo – Na opinião do consultor, o ideal seria unir as afinidades do empresário com uma boa oportunidade de negócio.

Para Oliveira, a orientação de um profissional faz toda a diferença nesse momento. “Procurar ajuda é o melhor investimento. Talvez, eu não teria errado tanto nos negócios anteriores. Nunca imaginei ter um bufê, mas comecei do zero e foi bem mais estruturado. Não tive tantas perdas”, diz o empresário.

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