Com rock e 'humor tosco', Casa da Matrona cria modelo de negócio e vira case do Sebrae

Com os primos Ivan Alatxev (à dir.) e Welton Fernandes à frente, bar atrai público fiel ao mesclar decoração retrô e de 'casa da avó'. Modelo 100% colaborativo divide igualmente 50% dos lucros entre colaboradores. Resultado? Engajamento, crescimento de 30% ao ano e valuation de R$ 9 milhões

Karina Lignelli
17/Out/2025
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Com rock e 'humor tosco', Casa da Matrona cria modelo de negócio e vira case do Sebrae

Embalada por cafés e cervejas especiais e vodka russa, a Casa da Matrona foi criada em 2022 pelo descendente de moldavos Ivan Alatxev, 51, na Vila Zelina, bairro considerado um pedaço do Leste Europeu na Zona Leste da Capital paulista. 

Com a proposta de ser um misto de bar e lanchonete com espaço para shows, exposições e até promover ações sociais, desde sua fundação o empreendimento vem atraindo um público fiel ao mesclar decoração retrô e de 'casa da avó' com música ao vivo de qualidade, boa comida e incentivo ao empreendedorismo.

Ao entrar no galpão de 300 m2, que antes abrigava o estoque de uma popular rede de supermercados da região, a vibe é de balada alternativa, com clima meio gótico, meio rock'n'roll e decoração 'tosca', nas palavras bem-humoradas do seu idealizador, que comanda a casa junto ao primo e CEO Welton Fernandes, o 'Ito',

De um negócio despojado que atrai habitués e curiosos pelo estilo peculiar, a Casa da Matrona virou, em apenas três anos de funcionamento, um dos principais cases de sucesso do Sebrae por criar, segundo Ivan, 'o primeiro modelo de negócio 100% colaborativo no varejo brasileiro de alimentos e bebidas', que é replicável e prioriza bem-estar e inclusão dos stakeholders. 

Ao combinar gastronomia afetiva, cervejas artesanais, música, arte, inclusão social e uma proposta que une propósito, humor e acolhimento, o diferencial do empreendimento não é só a ambientação ou a pegada rock'n'roll: junto com a irreverência, vêm a visão de negócios.

Mesmo sendo um sonho antigo, o empreendimento nasceu para "transcender modelos do varejo tradicional", conforme diz Ivan, já que 50% dos lucros são divididos de forma igualitária entre todos os que trabalham na casa, do bar à cozinha. O engajamento do modelo tem levado a Casa da Matrona, de nome inspirado na avó de Ivan, a imigrante moldava Yalange Matrona Trifon, a crescer 30% ao ano e alcançar valuation estimado em R$ 9 milhões.  

O tal sonho foi concretizado após um momento difícil, quando Ivan se recuperava de um grave quadro de covid-19, em 2020, e decidiu se "comprometer com Deus" em deixar um legado. “Uma das causas que me tocava muito era a discrepância de tratamento e de rendimento para quem trabalha no varejo”, conta. “Então pensamos como colocar todo mundo em equidade na casa: todos são empreendedores, e o lucro é dividido igualmente entre investidores financeiros e "de tempo e trabalho.”

Na prática, o negócio funciona como um fundo de cotistas: investidores financeiros são blindados por contrato — inspirado em modelos de startups americanas — e não têm responsabilidade solidária pela empresa, enquanto os colaboradores atuam como prestadores de serviço que recebem participação nos lucros. "Nesse princípio, o primeiro acolhimento que a gente oferece é com quem trabalha, para poder também oferecer o mesmo acolhimento para as pessoas que frequentam a Casa." 

Em tempos de escassez de mão de obra em diversos setores, os primos e sócios trabalham para que outras empresas também adotem o modelo colaborativo como estratégia para conseguir engajamento e pelos resultados expressivos que beneficiam todos os envolvidos. 

"O Sebrae já utiliza nosso modelo como plataforma de possibilidade futura de negócio”, afirma Ivan, que participou pela segunda vez da edição 2025 da Feira do Empreendedor, que termina neste sábado, 18 de outubro, na capital paulista, apresentando seu projeto “Café Colaborativo”. Esta é outra iniciativa que permite que pequenos empreendedores criem suas próprias marcas de café sem investimento inicial, e com lucro também dividido de forma equitativa. 

É também outra frente estratégica para Ivan e Ito, que reinvestem em cafés especiais de pequenos produtores do Sul de Minas Gerais. E promovem encontros de “Cafeneísmo”, em que a Casa oferece experiências sensoriais, lança marcas, faz torra aberta, extrações e apresenta métodos diferentes de preparo. Hoje, a frente representa 20% dos negócios, mas o plano é chegar a 50%, prevê.

Detalhe da decoração: artigos retrô garimpados em bazares, no acervo da família ou presenteados por amigos e frequentadores


'Não esquece de ir embora'

Essa frase, que ilustra as paredes da Casa da Matrona junto a outras como 'tenta não morrer aqui' ou 'xêga e xóra', entre outras, são uma pequena amostra da decoração irreverente do bar da Vila Zelina. Quem chega já é recebido outra simpática frase em neon: 'A casa das good vibes, da boa mesa e gente do bem'.

Em meio a um clima 'entre e fique à vontade', é possível tomar uma cerveja artesanal IPA, pilsen ou lager, um café da marca Matrona Cafés Especiais, ou até uma vodka russa Kalashnikov. E para completar o clima de acolhimento, além do café, água em garrafas de bebida alcoólica reutilizadas e torradas nas mesas para beliscar. 

Na casa inspirada pela matriarca Matrona Trifon, que migrou sozinha da Moldávia para o Brasil aos 17 anos para fugir da Revolução Russa que afetou seu país, a ambientação é um capítulo à parte. Artigos retrô e itens típicos de 'casa de vó', como geladeiras, armários, sofás e quadros com imagens religiosas, utensílios domésticos e ferramentas, garimpados em bazares, no acervo da família ou presenteados por amigos e frequentadores, deixam o ambiente com ar vintage. 

Tudo isso faz parte do caótico porém organizado espaço, que inclui de máquinas de escrever e aparelhos de fax e toca-discos de vinil, além de fliperamas com jogos como Pac-Man, brinquedos descascados, máscara do Jason do filme Sexta-Feira 13 e bonecas estilo reborn com maquiagem da banda Kiss, entre outros itens. 

Essa irreverência é o jeito que os primos encontraram de somar as experiências que viveram para criar um empreendimento de estilo único, e assim atrair clientes e investidores. “Quisemos remeter ao ambiente de casa, do que a gente viveu. Não só com 'antiguidades', mas com coisas que tivessem história e marcado a vida de alguém”, explica Ivan. 

Completando o cenário, dois tanques gigantes de inox com cerveja artesanal, que ficam à vista de quem entra, ao lado de um espaço para torra de grãos de café. No intervalo das bandas, cuja programação está sempre no Instagram da Casa, o som ambiente prioriza rock e pop das décadas de 70 e 80, além de jazz e blues, com as pick-ups comandadas por Emília, esposa de Ito.

Como a avó Matrona 'só deixava o Ito entrar na cozinha', brinca Ivan, o primo CEO, que foi metalúrgico, teve uma hamburgueria e se juntou ao empreendimento quando Ivan precisou de apoio, hoje comanda o bar e a cozinha central de 'culinária afetiva' à vista do público.

Além do "Bolinho da Matrona", receita original da matriarca reproduzida pelo primo, no cardápio há sanduíches e drinks batizados com a mesma lógica de humor tosco, como 'Enzo', 'Xorumi' e “Crassicuzão'. A Casa também abre para almoço e tem parceiros que fazem entregas por delivery.

A proposta de ser um espaço de convivência baseado em pilares como arte, música e gastronomia faz o local se destacar por seu propósito social, com apoio gratuito a pequenos empreendedores e artistas que podem expor seu trabalho. Ou músicos que não podem pagar estúdio para ensaiar. “A contrapartida é só repostar a comunicação sobre a Casa”, afirma Ivan. 

O empreendimento também apoia e sedia ações de adoção responsável de pets e ONGs que cuidam de pessoas em vulnerabilidade social (crianças, mulheres, LGBTQIA+ e refugiados), com parte dos lucros das vendas do Café Matrona revertido para instituições parceiras.

Além da doença de Ivan, o catalisador para abrir a Casa da Matrona em 2022, bem quando iniciou o conflito Rússia-Ucrânia, foi sua memória familiar: homens indo para a guerra enquanto mulheres tentavam se refugiar com os filhos em outros cantos do mundo, que remeteram à história da avó. “Quantas Matronas tinham ali no meio?" Quantas iguais à nossa avó tentavam sair dessa situação? Foi bom porque a Casa se transformou em uma homenagem a alguém que a gente ama e tem história.”

Hoje, enquanto Ivan está no Conselho do Matrona e trabalha para atrair novos negócios, Ito, como CEO, cuida da gestão da equipe, da manutenção e captação das mensalidades dos investidores. E abraçou de vez sua afinidade pela culinária.

Perguntado sobre o atual momento do setor de bares e restaurantes, que desde a virada de setembro para outubro enfrenta a "crise do metanol", Ivan responde, do alto de seus 30 anos de experiência em varejo que, além de ser um problema muito sério por afetar a vida das pessoas, afeta bastante os negócios. Em especial os pequenos que trabalham com alguns tipos de bebidas. 

A cerveja de produção própria, embora inicialmente planejada para vendas externas, hoje só é comercializada internamente. Já a reutilização das garrafas de bebida alcoólica, que fazem parte da decoração e ficam nas mesas com água à vontade para os clientes, só é feita após uma higienização rigorosa dos vasilhames, já que essa é uma prática da Casa desde sua fundação.

"As cervejas são produzidas por nós, então não há risco desse tipo de contaminação. Dentro do nosso mix de produtos, as bebidas que são destiladas ou com esse perfil alcoólico são em número muito pequeno, e compramos de distribuidores credenciados pela indústria. Assim, a gente consegue criar uma rede de proteção para os nossos consumidores", afirma.

Com mais de mil comandas atendidas por mês, e a previsão de chegar a 3 mil nos próximos três anos, a expectativa dos primos é continuar a replicar seu modelo de negócio colaborativo e a direcionar os reinvestimentos para os cafés especiais. “Esse é nosso caminho de diversificação e crescimento”, sinaliza Ivan. A vó Matrona nem lembraria de ir embora. 

As frases espirituosas espalhadas pela Casa: irreverência foi o jeito de somar experiências para criar um empreendimento peculiar
 
 
IMAGENS: Washington Garcia

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