O que diferencia empresas que resistem aos primeiros 5 anos e conseguem crescer
No caso da Madiba Pet, da empresária Samara de Lima Silva (foto), os resultados começaram a aparecer somente no terceiro ano, após enfrentar problemas clássicos, como a dificuldade para obtenção de crédito

A história de sobrevivência da Madiba Pet começa com uma perda. Em 2020, a empresária Samara de Lima Silva perdeu um cachorro após um acidente: ele escapou de um peitoral e foi atropelado. O episódio pessoal virou o ponto de partida para um negócio com propósito: desenvolver itens de segurança para pets.
A empresa nasceu em 2021, ainda como uma operação paralela ao seu trabalho formal. Durante o primeiro ano, Samara manteve a jornada dupla e reinvestiu tudo o que ganhava.
“Foi algo muito pessoal. A gente queria oferecer uma proteção que o nosso cachorro não teve”, conta.
Fase difícil começou no segundo ano
O início, no entanto, não foi o mais difícil. Foi a partir do segundo ano que o negócio entrou na fase mais crítica, justamente o período em que muitas empresas fecham.
Sem salário fixo e já dependendo do negócio para viver, Samara enfrentou o desafio de transformar a operação em renda.
O acesso a crédito também não veio. “Eu tentei várias vezes, mas não conseguia por conta de inadimplência no CPF. Ficamos muito tempo apertados”, diz.
A saída veio de uma mudança estratégica: diversificar canais de venda. Antes focada no B2B (Business-to-Business, ou, na sua tradução para o português, empresa para empresa), com clientes como grandes varejistas, a Madiba Pet expandiu para:
- marketplace (que, segundo ela, “salvou a empresa”);
- vendas diretas ao consumidor;
- ações com órgãos públicos e institucionais.
No início da operação, seu principal cliente era a rede Carrefour. No segundo ano, ela começou a participar de feiras, chegou a abrir um quiosque em shopping e migrou para dois marketplaces: Shopee e Shein.
A virada aconteceu no terceiro ano, quando ela fechou o quiosque, intensificou as vendas online e passou a participar de licitações em órgãos como Detran e governos para fornecer equipamentos para centros de zoonoses e canis. Hoje, além do seu site e da Shopee, a empreendedora também tem loja no TikTok Shop. A operação na Shein foi fechada por estratégia do negócio, segundo Samara.
Hoje, com a atuação em múltiplos canais, a Madiba Pet cresce em ritmo acelerado:
- Alta de 95% de 2024 para 2025;
- Crescimento de 30% no primeiro trimestre.
Os primeiros anos são decisivos
Os desafios enfrentados por Samara não são exceção. Dados do Sebrae mostram que os primeiros anos continuam sendo o período mais crítico para a sobrevivência das empresas no Brasil.
Segundo o levantamento mais recente sobre sobrevivência de negócios:
- A mortalidade é mais elevada nos primeiros anos;
- O ciclo entre 3 e 5 anos marca a transição entre sobrevivência e crescimento;
- Empresas que passam desse período tendem a ganhar mais estabilidade.
Mais do que o mercado em si, o que define esse resultado é a gestão.
Empresa quebra por falta de gestão
Para Vera Ruthofer, consultora de negócios do Sebrae-SP, o principal diferencial entre empresas que sobrevivem e as que fecham está na forma como o negócio é conduzido.
“O empreendedor precisa ter controle financeiro, entender o cliente e acompanhar o desempenho do negócio. Sem isso, fica muito difícil sobreviver”, explica.
Entre os erros mais comuns estão:
- Misturar finanças pessoais com as da empresa;
- Empreender sem planejamento;
- Buscar crédito no momento errado.
O crédito, inclusive, pode virar um problema quando mal utilizado. “O empréstimo deve ser feito para estruturar o negócio e crescer, não para cobrir dívidas. Senão, o empresário se afunda ainda mais”, afirma.
Outro ponto crítico é a falta de preparo. “Muita gente empreende por necessidade, não por vocação. Isso cria uma lacuna enorme na gestão.”
Mais de 200 unidades no país
Se a Madiba Pet mostra a força da adaptação, o caso da Aquamagic ilustra como um modelo bem estruturado pode acelerar o crescimento.
A empresa surgiu em 2020, no início da pandemia, a partir de uma necessidade prática: a falta de lavanderias self-service em Itajaí (SC), onde moram os donos do negócio, o casal Diego Ventura e Carleise Gambini.
“Conhecíamos esse modelo no exterior e vimos que não existia aqui. Começamos a projetar o negócio para resolver um problema nosso e de muita gente durante a pandemia, quando muitos estabelecimentos precisaram fechar as portas”, conta Diego.
O que começou como uma operação local rapidamente ganhou escala.
- em 2021, a empresa começou a estruturar franquias;
- em 2022, iniciou a expansão;
- hoje soma mais de 200 unidades entre abertas e em implantação.
Testar antes de escalar fez a diferença
Um dos pontos-chave para a sobrevivência da rede foi operar lojas próprias antes de expandir. Isso permitiu validar o modelo e entender o comportamento do cliente, segundo Diego. A prática, inclusive, é uma das recomendações da ABF (Associação Brasileira de Franchising)
“No começo, a gente fazia tudo: atendíamos, explicávamos o funcionamento, divulgávamos o serviço e ainda tínhamos nossos trabalhos CLT. Vimos que havia recorrência, ou seja, as pessoas voltavam para usar o serviço. Ali percebemos o potencial”, diz.
Ainda assim, o crescimento trouxe novos desafios. O principal foi escalar um modelo padronizado em um país com dimensões continentais.
“A nossa primeira franquia foi em Fortaleza (CE), no Nordeste. Depois vieram unidades no Norte e tivemos de aprender a replicar o modelo à distância, com comunicação muito clara.”
Crescer também aumenta a complexidade
Com a expansão, questões estruturais ganham peso:
- Sistema tributário;
- Padronização da operação;
- Suporte ao franqueado.
A empresa adotou dois regimes tributários para otimizar a operação: Simples Nacional nas lojas e lucro presumido na franqueadora. E, mesmo sem recorrer a crédito, o crescimento exigiu reinvestimento constante. “Tudo o que entrava, a gente colocava de volta no negócio.”
Depois dos 5 anos, o jogo muda
Passar pela fase crítica não significa estabilidade garantida, porém, muda completamente o tipo de desafio, segundo Diego.
Na prática, o foco deixa de ser sobrevivência e passa a ser escala, eficiência e inovação. Na Aquamagic, isso se traduz em dois movimentos:
- Ampliação do modelo de autoatendimento;
- Criação de outro negócio, a NeoMarket, de mercados autônomos, que chega para complementar a operação principal.
Já na Madiba Pet, o próximo passo é fortalecer a marca e expandir presença digital e no varejo.
O que diferencia quem chega até aqui
Apesar de trajetórias diferentes, os dois casos têm pontos em comum:
- Capacidade de adaptação;
- Mudança de rota quando necessário;
- Diversificação de canais;
- Reinvestimento no negócio;
- Foco em gestão.
E, principalmente, resiliência.
“Se eu tivesse desistido quando ficou difícil, não estaria aqui hoje”, diz Samara.
A frase pode parecer simples, mas, no contexto do empreendedorismo brasileiro, ela resume o que separa quem fecha as portas de quem consegue atravessar os cinco anos mais difíceis.
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