Afif revisita oito décadas de Brasil e defende democracia econômica

Em sua autobiografia, que será lançada nesta quarta-feira, 25/03, o 'pai do Simples e do MEI' e atual secretário do Governo de São Paulo repassa sua trajetória e mostra como a Associação Comercial de São Paulo se tornou o laboratório de ideias que deram origem às políticas de inclusão dos pequenos negócios no país

Karina Lignelli
25/Mar/2026
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Afif revisita oito décadas de Brasil e defende democracia econômica

Ao longo de mais de seis décadas de vida pública e empresarial, o atual secretário de Governo do Estado de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, construiu uma trajetória - sendo boa parte dela dentro da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), onde permanece até hoje - que se confunde com a própria evolução das políticas voltadas ao empreendedorismo no país.

Com dois prefácios, um do governador Tarcísio de Freitas e outro do presidente do PSD, Gilberto Kassab, parceiro histórico de Afif na ACSP, a autobiografia "Juntos Chegaremos Lá" (Matrix Editora, 2026), intitulada com seu famoso slogan da campanha presidencial de 1989, revisita suas oito décadas de vida e apresenta, bem ao seu estilo direto, objetivo e magnético não apenas memórias pessoais e familiares, mas uma leitura política e econômica do Brasil sob a ótica de quem se define como “temático”.

O livro retoma episódios decisivos da história recente brasileira — da industrialização acelerada dos anos 1970 à Constituinte de 1988 — para defender uma ideia central que atravessa toda a sua atuação pública: a democracia econômica como base da democracia política - com foco especial na pequena empresa. “Eu sempre fui temático. E esse tema mais amplo é o da democracia econômica, sem a qual a democracia política não subsiste”, afirmou, em entrevista ao Diário do Comércio

Afif localiza a origem de sua mobilização em defesa das micro e pequenas empresas ainda durante o chamado "milagre econômico", na década de 1970, quando passou a defender, mais do que a empresa da sua família - a Indiana Seguros, criada pelo seu avô materno, também Guilherme Afif -, o setor em si, formado em sua maioria por pequenas seguradoras.

Naquele período, de boom de fusões e aquisições, predominava a lógica de concentração empresarial. “No milagre econômico, falava-se das grandes empresas, dos grandes investimentos, mas, se fosse pequeno, não teria condições de sobreviver. Havia só incentivo para o grande, e não para o crescimento, mas para o grande comprar o pequeno”, recorda.

Foi nesse contexto que decidiu atuar institucionalmente em defesa do setor, aproximando-se da Associação Comercial de São Paulo, entidade que marcaria profundamente sua trajetória, colaborando para transformá-la em uma plataforma de formulação e articulação de políticas públicas voltadas ao empreendedor brasileiro.

“A ACSP é uma formadora de lideranças dentro de uma escola de civismo. O associativismo faz você perceber que o problema não está em seu negócio, mas no sistema. E aí é preciso atuar politicamente para mudar esse sistema.”  A ACSP, diz, permitiu transformar demandas individuais em propostas coletivas — característica que marcaria toda a sua atuação pública posterior.

Foi também a partir de sua atuação na entidade que usou "a força e a abrangência do Diário do Comércio", conforme diz no livro, que dirigiu por volta de 1976, para mobilizar a classe empresarial e organizar o "Primeiro Congresso da Micro e Pequena Empresa", que deu start ao "Estatuto da Micro e Pequena Empresa", entregue ao futuro presidente Tancredo Neves em 1984.

Se o livro reforça que muitas das políticas hoje consideradas estruturais para micro e pequenas empresas nasceram de debates internos e mobilizações articuladas a partir da ACSP, foi dessa atuação que surgiu a proposta de incluir na Constituição de 1988 o princípio do tratamento diferenciado às pequenas empresas — base do Simples Nacional e do microempreendedor individual (MEI).

“Quando diziam que os informais estavam fora da lei, eu dizia: a lei é que estava fora deles”, afirma Afif. Para ele, a ACSP ajudou a consolidar uma visão baseada no “Brasil real”, distinguindo informalidade por sobrevivência de ilegalidade.

O convencimento político, explica, foi construído de forma gradual e suprapartidária. “Essa bandeira não entrou na polarização ideológica. Todas as decisões sobre o tratamento diferenciado praticamente conquistamos por unanimidade no Congresso.”  Afinal, como dizia seu avô, para ter sucesso, "é preciso ser sempre ativo e cultivar uma boa rede de relacionamentos."

Além do slogan

Mais do que uma autobiografia, "Juntos Chegaremos Lá", de Guilherme Afif, presidente da ACSP em quatro mandatos, deputado federal constituinte, entre 1987 e 1991, vice-governador de São Paulo, entre 2011 e 2014, ministro-chefe da Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da República, entre 2013 e 2015, presidente do Sebrae Nacional, entre 2015 e 2018, e que hoje atua como secretário de projetos estratégicos do Governo de São Paulo, funciona como síntese de uma visão política que foi construída ao longo de décadas: fortalecer o empreendedor como instrumento de desenvolvimento nacional.  

Ao revisitar a própria história e de sua família de imigrantes libaneses e italianos, Afif, que atuou sempre sob o olhar parceiro da esposa, a escritora Silvia Dellivenneri Domingos, faz um diagnóstico recorrente em sua trajetória pública: de que o crescimento brasileiro depende menos de grandes projetos centralizadores e mais da inclusão econômica de milhões de empreendedores. E, fiel ao título da obra, insiste que o caminho continua coletivo: juntos, reforça, ainda é possível chegar lá. 

"É uma visão, um sonho, uma meta, porque eu dizia 'Juntos chegaremos lá' para um Brasil em que a gente possa ser feliz, e isso permanece. Portanto, não foi um slogan para uma campanha: esse é um mantra para o país", destaca.

O livro "Juntos Chegaremos Lá" será lançado nesta quarta-feira, 25/03, às 18h30, na Livraria da Travessa do Shopping Iguatemi (Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232, Jardim Paulistano, na capital paulista), com sessão de autógrafos do autor, presença de empreendedores de destaque na economia, no varejo e no associativismo, além de autoridades e parlamentares.

A seguir, confira os principais trechos da entrevista com Afif: 

Diário do Comércio - O senhor diz no livro que, depois do 'milagre econômico', o lema do mercado era que 'o pequeno negócio não tinha vez'. Foi nesse momento que nasceu a sua mobilização em prol dessas empresas? 

Guilherme Afif Domingos - Foi exatamente nesse momento. No milagre econômico brasileiro, falava-se das grandes grandes empresas, dos grandes investimentos, mas, se fosse pequeno, não teria condição de sobreviver. Portanto, tinha que incentivar as fusões e incorporações, assim foi com o sistema financeiro, foi com o sistema industrial... havia um incentivo para o grande. Não era para o crescimento, era para o grande 'comprar feito'. Então, foi nessa época que eu, defendendo o meu negócio, que não era propriamente uma pequena empresa, mas para o setor de seguros era, a gente mostrava que era viável. E aí eu segui para uma entidade que pudesse defender mais amplamente o direito dos pequenos: foi essa a razão que me fez ir até a Associação Comercial de São Paulo assumir uma cadeira representando o setor de seguros. 

 

Como 'pai do Simples e do MEI', e olhando a sua trajetória desde a época em que passou a cuidar dos negócios da família, qual o maior desafio cultural e não só burocrático de formalizar milhões de empreendedores no Brasil?

Afif - É olhar o Brasil real. Quando diziam 'eles são a informalidade, são todos fora da lei', eu dizia: "a lei que é fora deles". Você não tem a lei voltada a eles. E dentro desta visão, tinha um ponto que era fundamental: você tinha que separar a informalidade acidental da informalidade natural. A acidental é a que a lei não abrigava. A outra é fora da lei, que é atividade ilícita. Então você tinha que ter uma diferença, porque todo mundo falava que era tudo 'sonegador de imposto', mas não era, era sobrevivente. Sonegador é criminoso, mas esse está sobrevivendo porque tem uma lei não adaptada à realidade. Daí nasceu a ideia de ir para Constituinte e colocar um artigo específico na Constituição declarando que todos são iguais perante a lei, menos a pequena empresa, que tem que ter tratamento diferenciado. Daí surgiram o Simples, o MEI e todas essas políticas diferenciadas.

 

Como foi o processo de converter os constituintes, em meio ao nascimento do 'centrão', de que o tratamento diferenciado para as micro e pequenas empresas era uma necessidade econômica e não um privilégio? 

Afif - Havia sempre um isolamento do centralismo sobre a realidade da base. Então, fui um porta-voz bem-sucedido neste convencimento. Depois da Constituinte, todas as decisões de tratamento diferenciado, praticamente, nós conquistamos por unanimidade no Congresso - o que prova que essa bandeira é convergente, ela não entra na polarização ideológica.

 

O título do livro remete ao seu slogan de campanha e ao gesto em Libras da sua candidatura à presidência em 1989. Como essa experiência mudou sua forma de fazer política e sua atuação em cargos executivos?

Afif - Eu sempre fui temático. Eu tinha um tema. E esse tema mais amplo é o da democracia econômica, sem a qual a democracia política não subsiste. Quando dizia 'juntos chegaremos lá', era uma visão, um sonho, uma meta para um Brasil em que a gente possa ser feliz', e isso permanece. Portanto, não foi um slogan para uma campanha: isso é um mantra para o país.

 

Com todas essas conquistas em prol do empreendedor, qual o legado que o senhor traz da ACSP, onde está até hoje, e qual a importância da entidade nessa mobilização e em sua trajetória?

Afif - A entidade é uma formadora de lideranças dentro de uma escola de civismo. Isso é muito importante. Não adianta você estar no seu negócio e só ficar olhando o próprio interesse. Uma entidade, que tem o associativismo, lhe faz ter uma visão mais ampla. E, de repente, você percebe que o problema não é no seu negócio, é no sistema. E daí você tem que atuar politicamente para alterar o seu sistema para que ele possa ser positivo para o desenvolvimento do seu negócio. Mas como não se trata de uma grande empresa e de milhões de micro e pequenas empresas, você está trabalhando pelo coletivo e não pelo individual. 

 

Quais lições do passado o senhor aplica hoje para destravar investimentos e projetos do Governo de São Paulo, como no caso da revitalização do Centro e da instalação da sede do governo para a região?

Afif - A revitalização do Centro tem muito a ver com a ACSP também. Porque eu sempre vivi no Centro. Eu assisti à ascensão e à queda do Centro. Assisti aos momentos de glória do Centro e ao seu rebaixamento ao ponto crítico que chegou. Mas você não pode abandonar sua história, então essa história é a raiz do processo. Uma entidade que tem 131 anos ajudou a construir a história de São Paulo. E a história de São Paulo foi jogada no lixo à medida que o Centro histórico foi abandonado.

Mas a população nunca aceitou isso. Embora cada um more no seu bairro, tinha no Centro a sua 'joia da coroa' abandonada. Então, o que nós fizemos foi recuperar uma luta que tivemos na ACSP e que teve a imensa compreensão do Tarcísio, que tem entendido que esse seria um ato de amor por São Paulo. À medida que você coloca o Centro de novo como atrativo para as pessoas voltarem a morar, a nossa tese é que tem que ter moradia no Centro para não virar cidade fantasma depois das seis horas da tarde, pois aí ninguém é dono. Então, nesse investimento no Centro o Governo do Estado de SP está fazendo a parte dele, dando um grande choque na mudança estrutural urbana para poder atrair investimentos.

 

Em mais um ano eleitoral com polarização ainda muito forte, quais suas expectativas para oferecer a 'melhor via'?

Afif - Nós vamos aguardar o desenvolvimento, você vê que a coisa é muito dinâmica. Quando se pensava que era o Ratinho Jr., o Ratinho roeu a corda. Entendeu? Então, tem que esperar até a definição para que a gente possa dar uma contribuição na quebra da polarização através de propostas. É muito menos discutir quem, e muito mais discutir o que fazer. Esse é um papel da Associação, que não está vinculada a partidos, mas sim a uma ideia, e é tradicional e conservadora.

 

IMAGEM: Rebeca Ribeiro

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