PSD aposta na 'melhor via' para vencer polarização em 2026

Os governadores e pré-candidatos Ratinho Júnior (PR), Eduardo Leite (RS) e Ronaldo Caiado (GO) rejeitam rótulo de 'terceira via' e prometeram, em debate na ACSP, focar em pautas do cotidiano para atrair eleitores insatisfeitos com a dobradinha Lula-Bolsonaro

Karina Lignelli
10/Mar/2026
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PSD aposta na 'melhor via' para vencer polarização em 2026

Em um movimento estratégico para as próximas eleições presidenciais, os governadores e pré-candidatos Ratinho Júnior (Paraná), Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e a iminente filiação de Ronaldo Caiado (Goiás) pretendem ajudar a consolidar o PSD como alternativa ao cenário de polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas eleições para presidente em 2026.  

Durante encontro com a imprensa, após participarem do debate "Propostas para o Brasil", realizado pelo Conselho Político e Social (COPS) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) nesta segunda-feira, 9/3, as lideranças estaduais do partido rejeitaram o rótulo de "terceira via", preferindo classificar o projeto como "melhor via".

O termo, cunhado na mesma hora pelo presidente do partido Gilberto Kassab, foi a forma encontrada pelo atual secretário de relações institucionais do Governo de São Paulo para classificar o projeto do partido como uma "alternativa para a sociedade", que deve ser baseado em uma gestão pública "de resultados e valores", conforme reforçado por Ratinho Jr.  

"Será uma candidatura que representa as aspirações da sociedade brasileira, com pautas como o combate à corrupção, mais transparência, voto distrital, idade mínima de 60 anos para os tribunais superiores... Valores não representados nos governos anteriores, mas que estão associados à extraordinária gestão que os três têm, pois são os melhores governadores do país", disse o presidente do PSD.

Minimizando o peso das pesquisas atuais, pois apenas "refletem o momento", segundo Kassab, com Leite argumentando que o cenário de polarização mostra apenas "o desconhecimento do público sobre novas opções" pois o escolhido deve "surpreender nos debates", e Caiado citando "a memória de eventos passados", a estratégia da legenda é definir um nome próprio. 

"A pesquisa hoje reflete o 8 de janeiro (de 2023). Quando a discussão entrar na educação, na saúde, na segurança pública, nos programas sociais, aí o eleitor vai enxergar o conteúdo de cada pré-candidato", disse o governador de Goiás.

Na avaliação das três lideranças, o caminho para vencer a polarização e a viabilidade de um nome alternativo também reside na alta rejeição dos atuais polos políticos, que chega a quase 50% em algumas pesquisas.

Caiado: debate eleitoral tem que desviar de questões ideológicas para se concentrar ‘na vida como ela é’


Por isso, a estratégia para romper essa barreira envolve três pilares fundamentais. Um deles é a mudança de pauta, com o debate eleitoral saindo do foco de questões ideológicas para se concentrar "na vida como ela é", segundo Caiado, citando novamente discussões sobre saúde, educação, segurança pública, endividamento das famílias e taxas de juros.  

"Como sobreviver diante de uma taxa de juros de 22% ao ano? Como é que as empresas do MEI, as pequenas empresas, vão sobreviver? Essa bomba-relógio estava marcada para 2027, mas estamos vendo essa crise chegando nesse patamar agora", alertou. "É uma asfixia da área produtiva brasileira: todo mundo está deixando de consumir porque não sabe o que vai ser do Brasil amanhã. Então, este é o Brasil que vai ser discutido na eleição de 2026", completou o governador de Goiás.

O segundo pilar é a convergência de causas: Eduardo Leite destaca que, em um debate qualificado, é possível unir pautas tradicionalmente divididas entre esquerda e direita. "A proposta é conciliar justiça social, inclusão e respeito à diversidade com um Estado menor, responsabilidade fiscal e combate firme ao crime organizado", afirmou. 

O último pilar é autoridade moral e gestão: o grupo diz apostar na experiência dos três para apresentar "soluções concretas em vez de apenas discursos ideológicos." 

O PSD planeja definir qual dos três nomes encabeçará a chapa até meados de abril, decisão que foi acelerada pela entrada oficial de Ronaldo Caiado na legenda no último fim de semana. Apesar de aparecerem com índices modestos nas pesquisas atuais, os líderes bateram na tecla de que levantamentos precoces refletem apenas o conhecimento atual do eleitor, e não o potencial de crescimento durante a campanha. "Tarcísio, Bolsonaro e eu mesmo, na reeleição para prefeito, iniciamos nossas trajetórias com baixos percentuais de intenção de voto. Mas terminamos vitoriosos", lembrou Kassab.

Ratinho: Brasil precisa de um ‘programa de geração’ e não só de um plano de governo de quatro anos

 

Confiante, o presidente do partido também minimizou a necessidade de grandes coligações imediatas. "A força das redes sociais reduziu a dependência do tempo de TV e a militância engajada nos estados garantirá palanques competitivos em todo o Brasil."

Embora o plano de governo estruturado vá ser apresentado após a definição do candidato, há um consenso em torno de uma visão liberal na economia, com foco em reformas estruturantes, abertura econômica e redução do protecionismo.

"Embora tenhamos uma visão convergente, certamente a máquina pública pode ser menor, ter menos estruturas e ministérios e ser muito mais um exemplo de austeridade do que ter efeitos diretos e imediatos, porque a grande economia precisa ser feita dentro das reformas estruturantes que o país vai precisar enfrentar", sinalizou Leite.

Ao ser questionado sobre como será realizada a escolha do candidato do PSD entre os três, Kassab disse que será uma escolha política, realizada entre as lideranças do partido e o quanto antes pelo nível de exposição dos pré-candidatos. "É decisão difícil, porque são três pessoas muito qualificadas. Mas também será fácil, pois os três estão preparados para ser, e para não ser." 

Como é cada um 

Os três governadores, Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Júnior, pré-candidatos do PSD à Presidência da República, apresentaram suas visões para o futuro do país antes do debate na ACSP. 

Embora cada um tenha trazido o foco das experiências em seus respectivos estados, o trio convergiu em um ponto central: a necessidade de substituir o embate ideológico por uma agenda de gestão eficiente e planejamento de longo prazo.

Ronaldo Caiado, o primeiro a se apresentar, focou em segurança e inteligência artificial: defendeu que o próximo presidente deve ter autoridade moral e coragem para enfrentar o avanço das facções criminosas, que, segundo ele, já ameaçam a economia formal e os poderes constituídos. Também comparou o Brasil ao cenário do "narcotráfico no México."

Já no campo da economia e da educação, Caiado disse apostar na tecnologia, na modernização da educação com foco em inovação e profissionalização, e destacou Goiás como pioneiro no curso de IA, com a primeira turma já formada pela Universidade de Goiás. No agronegócio, propõs uma agricultura baseada em tecnologia, pesquisa e produtividade, além de políticas ambientais objetivas, como o pagamento por serviços ambientais a produtores que preservam nascentes e matas. 

Crítico ferrenho do aumento de gastos do governo federal, Caiado destacou o equilíbrio das contas públicas em seu estado, mantendo investimentos de 13% da arrecadação, e afirmando que vai entregar o governo com "R$ 9,4 bilhões em caixa". 

Leite: proposta é conciliar justiça social, inclusão e respeito à diversidade, com responsabilidade fiscal e combate ao crime organizado

Já Eduardo Leite focou em reformas institucionais e um pacto de governabilidade, e falou da necessidade de realizar reformas profundas, da política à do judiciário, para garantir a estabilidade do país "nos próximos 20 anos, e não apenas no próximo mandato": para ele, o Brasil vive uma crise de governabilidade que exige mudanças estruturais: propôs idade mínima de 60 anos a ministros do STF, limites para decisões monocráticas, adoção do voto distrital misto e fim de coligações majoritárias.

Também defendeu uma segurança pública com dados e uma governança interfederativa liderada pelo presidente da República, com a Polícia Federal dobrando de tamanho e uma atuação integrada entre estados e União baseada em indicadores. "Não há inclusão social sem crescimento econômico", disse, defendendo privatizações e parcerias público-privadas para reduzir o Custo Brasil.

Por último, Ratinho Júnior argumentou que o Brasil precisa de um "programa de geração" e não apenas de um plano de governo de quatro anos, pois sua proposta é transformar as potencialidades brasileiras em pilares econômicos globais.

"O Brasil precisa ser o 'supermercado do mundo', com a industrialização do agronegócio e investimentos em irrigação e armazenamento para que deixe de exportar apenas commodities e passe a vender produtos manufaturados."

Também disse visualizar o Brasil como a "Arábia Saudita da energia limpa" (biogás, etanol, hídrica), com potencial para virar potência energética e tecnológica e um hub global de armazenamento de dados - ou "computador do mundo" -, aproveitando sua neutralidade geopolítica e a capacidade de gerar energia barata. Também falou da "educação para o século 21", com educação financeira e aulas de programação no currículo escolar. "Temos que preparar jovens para as novas profissões já."

O fim da polarização política, a paz institucional e uma aliança além da terceira via convergiram nos discursos dos três governadores. Ratinho Júnior afirma que discute "metodologia" e não "ideologia". "O Brasil perde tempo em brigas de lados que muitas vezes nem compreendem o que defendem! Paz institucional é a condição básica para a prosperidade do país."

Já Eduardo Leite criticou o ambiente onde se discute mais o "desafeto do que o desafio": para ele, o papel do líder nacional deve ser o de buscar convergência e a estratégia de colocar brasileiros contra brasileiros apenas mantém o país preso a um debate estéril. "Ciclicamente, isso só traz de volta ao poder grupos políticos opostos, sem entregar resultados reais."

Para Caiado, a população está indignada e desacredita nas instituições e, segundo ele, a esperança para 2026 reside em um líder que saiba respeitar o presidencialismo e chamar os outros poderes à ordem. "Quem apresenta planos de governo foi o governador, foi o prefeito. Mas quem tem o poder discricionário é o presidente da República.”

Participaram também do evento do COPS o presidente da ACSP, Roberto Mateus Ordine, que deu as boas-vindas aos convidados, o presidente recém-eleito da ACSP, Alfredo Cotait Neto, o secretário de projetos estratégicos do Governo de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, e o coordenador do COPS, senador Heráclito Fortes.


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IMAGENS: André Lessa/Agência DC News

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