Comentário de Tombini abala consenso sobre alta da Selic
Com base em sinais passados hoje pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini (foto), as expectativas mudaram sobre o aumento na taxa de juros

A nota divulgada pelo Banco Central nesta terça-feira (19/01) com comentários do presidente Alexandre Tombini sobre a piora nas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a economia brasileira, abalou o consenso do mercado em torno da aposta de alta de 0,50 ponto percentual da Selic nesta quarta-feira (20/01) não somente nas mesas de renda fixa.
Entre os profissionais nos Departamentos Econômicos, que majoritariamente previam aumento da taxa para 14,75%, as observações de Tombini na véspera da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sinalizam a disposição da autoridade monetária para um aperto menor, de 0,25 ponto, ou, para alguns, até de manutenção da taxa em 14,25%.
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Para Tombini, as mudanças nas projeções do FMI para o PIB do Brasil foram "significativas".
Ele também afirmou na nota que "todas as informações econômicas relevantes e disponíveis até a reunião do Copom são consideradas nas decisões do colegiado".
Desta forma, os economistas e analistas de mercado interpretaram que o ajuste na taxa de juros será menor do que o esperado.
De acordo com relatório publicado pelo FMI, a projeção de queda do PIB brasileiro em 2016 passou de 1% para 3,5%. Para 2017, saiu de uma alta de 2,3% para zero.
Entre os que alteraram oficialmente a sua estimativa está o Brasil Plural, que agora espera aumento de 0,25 ponto, ante 0,5 ponto anteriormente.
"O BC sinalizou hoje, poucas horas antes do começo do encontro de política monetária, que provavelmente irá seguir um curso mais 'dovish' (mais sensível ao aumento do desemprego e à recessão) do que o previsto", justifica o banco, em nota distribuída a clientes.
A mesma mudança de previsão também foi feita pela Rio Gestão. Para o economista da instituição Bernardo Gonin, é muito difícil que o Copom promova uma alta de 0,50 ponto percentual.
"É bem pequena a chance. Se o BC quisesse dar uma alta de meio (ponto), não tem justificativa nenhuma para ter feito isso hoje. Seria muito esquisito", disse.
Mas mesmo aqueles que não chegaram a alterar oficialmente sua estimativa de 0,5 ponto admitem que essa possibilidade se enfraqueceu.
"Esta nova comunicação do Banco Central hoje, no primeiro dia da reunião do Copom, mencionando o relatório do FMI, lança dúvida sobre subir juro", diz o economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall, que, até o momento mantém sua previsão de alta da Selic para 14,75%.
"Acho que ficou igualmente provável uma alta de 0,25 ponto porcentual apenas", endossou o economista William Michon Jr, da Saga Capital, que também não chegou a mudar sua projeção oficial de alta de 0,50 ponto.
A GO Associados, que também mantém o call de alta de 0,50 ponto, avalia que as chances de uma elevação mais branda ou até mesmo de estabilidade cresceram após a nota.
Segundo economista e sócio da instituição, Gesner Oliveira, o conteúdo da comunicação demonstra uma "eventual reflexão" sobre o risco de aprofundamento da recessão e sinaliza que a autoridade monetária pode estar, de fato, preocupada com a atividade econômica.
"Acho que ele (Tombini) sinalizou uma sensibilidade para algo que vinha sendo alertado pelo mercado: a alta de juros nos Estados Unidos, a desaceleração na China, o colapso do preço do petróleo", exemplificou.
RECESSÃO PROLONGADA
A recessão econômica do Brasil pode ser mais profunda e prolongada do que anteriormente previsto, avaliou a agência de classificação de risco Fitch em relatório publicado nesta terça-feira (19/01).
Em documento enviado a clientes, no qual comenta a retirada do grau de investimento para o Brasil, a agência disse que o rebaixamento se deu por causa da acentuação das crises econômica e fiscal, do aumento do peso do endividamento do governo e da maior incerteza política.
A acentuação desses problemas também reflete a manutenção da perspectiva negativa para a nota brasileira.
"As projeções para o médio prazo continuam fracas, com a possibilidade de crescimento somente quando o ambiente político se estabilizar. Ao mesmo tempo, a performance fiscal se manteve deteriorada em 2015, enquanto repetidos desafios na questão fiscal continuaram a afetar a credibilidade política", diz o relatório.
Sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff, a agência avalia que o início desse processo adiciona mais incertezas ao cenário político brasileiro. "A Fitch acredita que esse processo vai afetar a implementação dos ajustes fiscais e as necessárias reformas estruturais", afirma.
A modificação do rating brasileiro ocorreu em 16 de dezembro. A Fitch rebaixou a nota de crédito do País de BBB- para BB+ e manteve a perspectiva negativa.
FOTO: Agência Brasil

