Corbans ampliam atuação como hubs financeiros e ganham eficiência com IA
Tecnologia utilizada pelos correspondentes bancários avança sobre vendas, gestão e relacionamento com clientes, enquanto setor diversifica serviços e ganha novo papel nesse ecossistema de negócios, conforme demonstrado na edição 2026 do Corban 360º, realizada na capital paulista

O mercado de correspondentes bancários (corbans), que cresce 30% por ano, em média, conta com mais de 200 mil representantes espalhados pelo Brasil e mais de 400 mil empreendedores certificados para atuar na área (dados da ANEC, associação do setor). Esse setor passa por uma transformação estrutural.
Impulsionada pela diversificação dos serviços, essa transformação implica maior aproximação com tecnologia e um reposicionamento desses profissionais, que em boa parte são empreendedores ou atuam como MEIs (microempreendedores individuais), como consultores financeiros mais completos, deixando de ser apenas canais de distribuição de crédito para se transformarem em 'hubs de negócios'.
A avaliação é do especialista Gabriel Ramalho, idealizador do Workshop Corban 360º, cuja edição 2026 foi realizada na última semana, que aponta essa consolidação como um novo modelo de atuação para o setor. Para ele, essa evolução vem sendo marcada pela ampliação do portfólio de soluções oferecidas ao cliente, com a integração de produtos como seguros, consórcios e crédito dentro de uma mesma operação.
“O correspondente bancário passa a entender que ele pode ser um verdadeiro consultor do seu cliente e pode atendê-lo com várias soluções de produtos e serviços”, afirma ele, para quem o movimento responde a um novo desenho do mercado financeiro, em que cresce a demanda por operações mais completas, por maior autonomia comercial e pelo uso intensivo de tecnologia para sustentar escala e eficiência.
Outro vetor dessa transformação, segundo ele, é a interlocução mais próxima do setor com órgãos reguladores, em pautas voltadas a melhorias operacionais e antifraude, e valorização dos profissionais que atuam, principalmente, com crédito consignado e o Crédito do Trabalhador, nova modalidade que movimentou R$ 117,1 milhões de março de 2025, quando foi lançada, até março de 2026 (dados do MTE).
Wagner Ferreira, CEO da Teddy Open Finance, afirma que o consignado privado vive seu momento de maior expansão no Brasil. Desde o lançamento do Programa Crédito do Trabalhador, em março de 2025, o volume de empréstimos consignados para trabalhadores CLT beneficiou quase 10 milhões de pessoas. Mas o que ajudou a impulsionar esse processo é a tecnologia pois derrubou essa barreira, afirma.
“O consignado privado sempre teve um problema de acesso, não de demanda. O trabalhador CLT queria o crédito, mas a jornada era travada por burocracia e falta de integração entre empregador e banco. Mas, quando você conecta Open Finance a uma rede de distribuição capilarizada, o crédito chega a quem sempre teve direito, e isso aparece nos números”, completa.
Amilcar Chaves, diretor da unidade de negócios de crédito da Matera, especializada em tecnologia para o mercado financeiro, destaca, porém, que a evolução do mercado de crédito tem exposto uma limitação no modelo tradicional de correspondentes bancários e distribuidores, categoria que passou a se profissionalizar desde que a modalidade consignado foi regulamentada (Lei 10.820, de 2003).
Embora tenham capilaridade e acesso direto ao cliente, há quem ainda opere com pouca autonomia sobre produtos, margens e gestão de risco, dependendo de estruturas tecnológicas de terceiros. Esse arranjo, que foi eficiente para escalar a distribuição nos últimos anos, começa a se mostrar restritivo em um cenário de maior pressão por rentabilidade e agilidade.
“Na prática, cresce a busca por modelos mais independentes, em que a tecnologia deixa de ser apenas suporte e passa a estruturar a operação, permitindo maior controle sobre decisões e capacidade de adaptação ao mercado. Esse movimento tem levado tais empresas a internalizarem cada vez mais sua infraestrutura de crédito”, destaca o especialista.
IA redefinindo o jogo
Mas é a inteligência artificial (IA) que vem redefinindo de forma mais profunda o dia a dia dos correspondentes bancários. Segundo Gabriel Ramalho, a tecnologia “muda totalmente o jogo” ao permitir expansão dos negócios sem, necessariamente, ampliar estruturas de pessoal na mesma proporção.
Entre os impactos mais imediatos, ele cita o aumento da produtividade, a automação de atendimentos e a capacidade de operar em horários alternativos, acompanhando a jornada do cliente. “Com a inteligência artificial, a gente quebra essa barreira, porque ela está 24 horas ligada conversando com o cliente, tirando dúvidas e destruindo objeções. Isso está reformulando o setor”, acredita.
Na prática, a IA vem sendo aplicada em múltiplas frentes: atendimento automatizado, treinamento de equipes, análise de dados, otimização de funis de vendas e monitoramento de performance. Segundo o especialista, a tecnologia também reduz uma das principais dificuldades dos empreendedores do segmento — o custo e o tempo para formação de especialistas em produtos financeiros — ao acelerar processos de aprendizagem e padronizar abordagens comerciais. “Um grande ganho com a inteligência artificial é vender mais com um time menor, otimizar fluxos e processos e usar dados para melhorar a tomada de decisão”, afirma.
O uso da IA também tem ampliado a capacidade dos corbans de operar com mais complexidade, atendendo a diferentes perfis de clientes e múltiplos produtos com maior eficiência. Para Ramalho, esse avanço posiciona a tecnologia não apenas como ferramenta de apoio, mas como componente estratégico do negócio. “No novo jogo do mercado financeiro, a IA ajuda tanto a gerar mais negócios quanto a gerir as operações”, resume.
Para o especialista, que comanda um ecossistema que inclui a universidade Gerando Resultados, de capacitação para correspondentes bancários, a RK Soluções, de tecnologia para vendas, e a promotora de crédito GR, os correspondentes que combinarem diversificação, tecnologia e inteligência de dados devem liderar o crescimento do setor nos próximos anos, em um mercado cada vez mais orientado por eficiência, personalização e escala.
"Um grande desafio que o correspondente bancário tinha era conseguir entender de vários produtos diferentes, atender vários públicos diferentes... E, com a inteligência artificial, isso vai se tornando algo mais acessível. Em virtude do quanto o setor tem conseguido crescer e desenvolver melhorias, fica até difícil mensurar qual é o potencial que o corban tem de crescer ainda mais com o uso da IA."
Realizado no Centro de Exposições Imigrantes, na zona Zul da Capital Paulista, o Corban 360º 2026 reuniu mais de 10 mil visitantes e expositores entre promotoras de crédito, fintechs, corretoras de seguros, administradoras de consórcio, executivos e diretores de finanças e desenvolvedoras de tecnologias para o setor, e contou com a presença do ex-ministro da Economia Paulo Guedes como principal palestrante.
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