Crédito para o comércio caiu 1,2% em agosto

Todos os setores da economia registraram recuo. Projeção do Banco Central é que saldo de financiamentos no Brasil diminua 2% em 2016

Estadão Conteúdo
28/Set/2016
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Crédito para o comércio caiu 1,2% em agosto

A recessão, o aumento dos juros e a queda da confiança desidrataram o mercado de crédito brasileiro e, pela primeira vez desde 2007, o estoque de empréstimos e financiamentos caiu na comparação com um ano antes. 

Segundo o Banco Central, o estoque de crédito às famílias e empresas somou R$ 3,115 trilhões em agosto, valor 0,6% menor que o registrado um ano antes. 

No acumulado do ano, o crédito secou em 3,2% em todo o país. Segundo os dados do BC, em agosto houve redução de 0,6% para empresas e alta de 0,6% para o consumidor, na comparação com julho.

Em 12 meses, a contração foi de 4,8% para as empresas e alta de 4,0% para a pessoa física. 

No acumulado do ano, os empréstimos para as companhias caíram 7,7% e houve aumento de 1,8% para as famílias.

Desde o início da série histórica de 2007, o estoque de crédito sempre cresceu em termos nominais. Em pleno estouro da crise internacional em outubro de 2008, o estoque de financiamentos chegou a crescer com ritmo anual de 34,2% naquele mês. 

Com a crise econômica, o mercado de crédito tem vivido desaceleração e, desde junho de 2015, o estoque não crescia mais com taxas de dois dígitos. Em junho e julho de 2016, a carteira cresceu com ritmo anual inferior a 1%.

O recuo nos financiamentos atingiu os três principais setores da economia no mês de agosto: agropecuária, indústria e serviços. O crédito total para esses setores caiu 0,6% para R$ 1,575 trilhão.

Por segmento, a carteira de empréstimos da agropecuária caiu 1,3%, a indústria teve baixa de 0,8% e os serviços cederam 0,4%. No crédito para pessoa jurídica com sede no exterior e créditos não classificados (outros), a queda foi de 0,2%.

O estoque de crédito para o setor de serviços ficou em R$ 740,211 bilhões em agosto, sendo que para o comércio recuou 1,2% no mês (para estoque de R$ 270,449 bilhões) no mês passado. 

Em transporte, cedeu 1,1%, para R$ 152,6 bilhões. Na administração pública, houve alta de 2,3%, para R$ 125,2 bilhões. A categoria "outros" caiu 0,6%, para R$ 191,909 bilhões.

Para a indústria, o crédito recuou 0,8% na margem para R$ 777,3 bilhões. Na construção, houve baixa de 1% no mês passado, para R$ 103,9 bilhões. A indústria de transformação cedeu 0,5%, para R$ 431,3 bilhões. 

Já os serviços industriais de utilidade pública (SIUP) registraram redução do crédito de 1,7% no mês passado, para R$ 200,9 bilhões. No caso da extrativa, houve uma alta de 0,2% em agosto, para R$ 41 bilhões.

Para o setor agropecuário, a carteira teve queda de 1,3% em agosto ante julho, para R$ 23,6 bilhões.

O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, destacou o declínio do estoque de crédito para empresas. Segundo ele, isso vem se "intensificando" ao longo dos meses.

Um dos principais fatores de recuo do crédito para empresas, de acordo com Maciel, é a linha de capital de giro. Considerando os recursos livres, o saldo das operações de capital de giro caiu 1,6%de julho para agosto e recuou 10,3% no ano. Em 12 meses, o recuo foi de 11,0%.

Maciel afirmou ainda que, no caso do crédito às famílias, há relativa estabilidade, na margem. Ele também citou um comportamento de relativa estabilidade no comportamento da inadimplência.

TENDÊNCIA DE DESACELERAÇÃO 

Maciel, avalia que os números do mercado de crédito confirmam a continuidade da tendência de desaceleração dos empréstimos no Brasil. 

A atividade econômica em contração, os custos elevados e a confiança explicam a tendência vista há vários meses seguidos.

"Observamos continuidade da desaceleração no mês de agosto. O crédito em 12 meses chegou a crescer 0,2% em julho, mas voltou a cair 0,6% em agosto. 

Isso mostra continuidade no processo", disse. Para Maciel, a queda da atividade econômica, a elevação dos juros cobrados nos empréstimos e a confiança ainda baixa explicam essa estagnação do mercado de crédito.

Maciel reconhece que os indicadores de confiança têm mostrado reação recente, mas ainda continuam em patamar bastante baixo. "Tudo isso ajuda a explicar o mercado", comentou.

O Banco Central alterou nesta quarta suas projeções para uma série de indicadores de crédito para este ano. A expectativa para o saldo total de crédito em 2016 passou de avanço de 1% para retração de 2%. Em 2015, houve avanço de 6,7%.

Considerando a relação entre crédito e Produto Interno Bruto (PIB) em 2016, a projeção do BC mudou de 52% para 51%. No ano passado, o porcentual ficou em 54,5%.

REAÇÃO NO FIM DE 2016

O Banco Central projeta uma reação do crédito nos últimos três meses deste ano. No caso das grandes empresas, o indicador de aprovação de crédito referente ao período de julho a setembro atingiu -0,55%. Para os meses de outubro a dezembro, está em -0,15, o que sugere uma perspectiva não tão ruim. 

No caso de micro, pequenas e médias empresas, o índice é de -0,87 para os últimos três meses e de -0,40 para os próximos três meses.

Maciel explica que estes indicadores refletem o desempenho passado e consideram as perspectivas para o fim do ano. Ele chamou atenção para o fato de a demanda por crédito por parte de micro e pequenas empresas já estar positiva, conforme as projeções para o fim do ano.

Ao avaliar de forma geral o mercado de crédito, Maciel citou que o ambiente está mudando. "Temos o mercado de crédito ao longo do ano muito influenciado pela retração econômica e pela elevação dos juros. Mas há uma mudança de ambiente, que a gente percebe em indicadores macroeconômicos e de confiança".

"E na nossa sondagem de crédito, isso também se reflete em melhora no último trimestre".

Maciel afirmou ainda que, "neste momento, certamente o crédito não liderará o processo de reação (da economia), mas poderá contribuir. Há sinais incipientes neste sentido", acrescentou. Para 2017, segundo Maciel, há perspectiva de que o crédito seja mais favorável do que foi em 2016.

FOTO: Thinkstock

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