Crise da Petrobrás asfixia indústria naval brasileira
Pedidos de recuperação judicial e demissões em massa atingem a maioria dos fornecedores da estatal. Estaleiro de Angra dos Reis simboliza incertezas do setor

O desmonte da indústria naval é uma das grandes ameaças vindas na esteira da crise que levou a Petrobras a cortar investimentos. As investigações da Operação Lava Jato, da Polícia Federal, chegaram aos contratos com fornecedores e muitos foram suspensos.
A estatal, principal cliente dos estaleiros, enfrenta dificuldades financeiras desde 2013. Em 2014, o envolvimento da empresa em um esquema bilionário de corrupção foi agravado pela alta do dólar e a queda no preço do petróleo.
A petroleira já reduziu duas vezes seu plano de investimentos 2015-2019, desde junho do ano passado. O último corte, anunciado terça-feira, eliminou US$ 32 bilhões da previsão de aportes, sinalizando que a estatal deverá apertar ainda mais o cinto no plano de 2016-2020.
CANCELAMENTO E DEMISSÕES
A Sete Brasil, empresa criada para mandar construir localmente e operar navios-sonda para a Petrobras e também sob suspeita na Lava Jato, está desde o fim de 2014 sem dinheiro para pagar os estaleiros e perdeu acesso a financiamentos cruciais para levar as obras adiante.
Como se não bastasse, a petroleira cancelou encomendas que nem sequer haviam saído do papel e eram esperança de receita para a Sete no futuro.
Além da Sete Brasil, as demissões atingiram também funcionários dos estaleiros Atlântico Sul (em Pernambuco), Ecovix (Rio Grande do Sul) e Mauá (também no Rio). Em meados de dezembro, a lista cresceu ainda mais: o Estaleiro Ilha S.A. (Eisa) e sua subsidiária Eisa Petro Um, no Rio, fecharam as portas, demitiram 3 mil e pediram recuperação judicial.
Ao todo, os estaleiros dispensaram 17,8 mil trabalhadores em 2015 em todo o País, de acordo com o Sinaval, entidade que representa a indústria naval.
ROLETA RUSSA EM ANGRA DOS REIS
Os trabalhadores do estaleiro Brasfels, em Angra dos Reis, litoral sul do Rio, ainda resistiram durante um tempo. Desde o fim de novembro, o dia dos trabalhadores começa com uma espécie de roleta-russa. As catracas eletrônicas ganharam a nova função de apontar a sorte dos 6,5 mil funcionários.
Os mais afortunados recebem o sinal verde para seguir com suas funções, mas há 2 mil empregados que vão ver a "arma" disparar ao puxar o "gatilho". Já houve cerca de 600 vítimas, segundo o sindicato local.
A história de funcionários que souberam seu destino como num jogo de azar assusta os que ficam. "Na última leva, ninguém ficou sabendo. Chegou na hora, bloqueou o crachá e foi demitido. Agora, todo mundo fica com medo de chegar ali e estar bloqueado", conta Daniel Castilho, que trabalha como esmerilhador e hoje convive com a insegurança sobre o futuro.

