Dólar contamina a expectativa de inflação para 2016
Banco Central avalia, porém, que a queda na atividade econômica tende a anular os efeitos sobre a alta de preços

O movimento brusco de altas e baixas da cotação do dólar e a inflação ainda em patamar elevado no Brasil estão contaminando as previsões inflacionárias para 2016. É o que mostra o estudo apresentado no Relatório Trimestral de Inflação, divulgado nesta quinta-feira (24/09) pelo Banco Central.
A autoridade monetária avaliou que a alta do dólar não deve ser um fator de pressão maior - já que a queda na atividade econômica tende a conter a alta dos preços.
O Banco Central projeta uma queda de 2,7% do PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas do país) e um recuo de 12,3% nos investimentos.
Luiz Awazu, diretor de Política Econômica do Banco Central, afirmou que a situação atual requer atenção e que a autoridade monetária reconhece que houve uma deterioração recente - a perda do grau de investimento pela Standard & Poor's.
O diretor disse que também é importante implementar o programa fiscal de ajuste que foi proposto pelo governo e que está em discussão. "Me parece condição essencial para os outros componentes do ajuste, com esse quadro sendo revertido", disse.
O documento mostra que os agentes de mercado atribuem maior peso aos fatores de curto prazo nas suas previsões de inflação do que os impactos da política monetária atual. Exemplos seriam a alta do dólar e a incerteza sobre se o ajuste fiscal será aprovado.
Isso explica, de acordo com o BC, a maior resistência na redução das expectativas de inflação para 2016 em direção à meta de 4,5% ao ano.
Já as expectativas para 2017 e para 2018, que encontravam-se próximas a 5,5% no final de 2014, recuaram para níveis próximos da meta de 4,5% ao ano.
De acordo o BC, os efeitos do atual ciclo de ajuste da taxa básica de juros, que permanece em 14,25% ao ano, têm impacto mais forte na redução das expectativas para a inflação em prazos mais longos.
Segundo Awazu, apesar de ter havido alguma deterioração das expectativas para 2016 e para 2017, elas são pequenas frente ao tamanho da volatilidade observada recentemente.
"É importante, depois de um ajuste de preço que foi significativo (IPCA de 2015), sermos capazes de mostrar para a sociedade que 2016 não vai ser ano de descontrole inflacionário, mas de convergência, e isso dá segurança para nossos cidadãos e empresários", argumentou.
Segundo ele, mesmo com algum descolamento das expectativas em relação à meta, o objetivo do BC continua a ser o de levar o IPCA para 4,5% no fim do próximo ano.
Awazu lembrou que, em julho, o País estava próximo de apresentar uma convergência da inflação para o centro da meta de 4,5% no ano que vem.
"Estávamos próximos e tivemos um elemento negativo, que foi o aumento de prêmio de risco. Se eles forem revertidos, isso torna mais robusta a estratégia de política monetária que foi definida por nós, de manter os juros em 14,25% ao ano por período suficientemente prolongado, para colocar a inflação na meta ao fim de 2016", afirmou.
Ele afirmou que, caso a Cide seja elevada para gasolina, o repasse pode não ser integral para o consumidor.
"De maneira geral, existe uma série de estudos sobre como, em determinadas situações, certos aumentos não são inteiramente repassados. Pode haver comportamento de margem, ligados a maior ou menor competição", observou.
DÓLAR NÃO DEVE TRAZER IMPACTO MAIOR QUE A RECESSÃO
A alta do dólar, que na tarde desta quinta-feira (24/09) passou de R$ 4,10, é um fator que também contamina a expectativa para a inflação.
No relatório, o BC avaliou que os fatores que contribuem para a desvalorização do real não devem impactar muito os preços livres.
A instituição lista como esses fatores a perda de dinamismo da atividade interna, a menor variação da taxa de câmbio efetiva em relação à da taxa R$/US$, a tendência declinante dos preços internacionais das commodities e a postura mais restritiva da política monetária.
Segundo o documento, a taxa de câmbio não mostra sinais de reversão, conforme mostram expectativas de mercado.
O BC, no entanto, ponderou que a desvalorização do real frente ao dólar não registrou impacto inflacionário acentuado. A instituição, preocupada com a alta da divisa norte-americana e a repercussão desse movimento, criou um quadro no relatório para comparar ciclos de desinflação.
O objetivo desse estudo é comparar o momento atual com o que ocorreu entre 2002 e 2004. O BC, neste trecho, diz que depois que o dólar atingir seu pico, como naquele período, o custo de vida deve ceder. Naquela época, houve um ciclo de desinflação de 10 pontos percentuais nos quatro trimestres seguintes ao pico.
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