Gasto alto, crédito caro e alimento mais pesado no prato

A conta do gasto alto sempre chega: nos juros, no crédito negado, no custo da safra, na margem do pequeno negócio e no preço do alimento. O país precisa escolher se continuará alimentando uma máquina pública cada vez mais cara, ou se terá coragem de devolver fôlego à economia real

Pedro Lupion
29/Jun/2026
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Gasto alto, crédito caro e alimento mais pesado no prato

O Brasil precisa enfrentar uma relação que já não pode mais ser ignorada: gasto público elevado sustenta juros altos, restringe o crédito, pressiona a criação de novos impostos e encarece a produção. Essa conta não fica em Brasília. Ela chega ao campo, ao comércio, à indústria, aos serviços e, no fim, ao prato da população.

Nos últimos anos, o país passou a conviver com uma expansão contínua da despesa pública sem a necessária revisão de prioridades, eficiência e resultados. Quando o Estado gasta além da sua capacidade, aumenta a pressão sobre a dívida, dificulta a queda estrutural dos juros e reduz o espaço para investimentos essenciais. Na prática, sobra menos fôlego para quem produz e mais custo para quem consome.

Os dados mostram a dimensão do problema. Somente em 2026, as despesas públicas já consumiram mais de R$ 1,7 trilhão, considerando União, estados e municípios segundo levantamento da CACB/ACSP. Nos primeiros 15 dias do ano, o gasto já havia superado R$ 233 bilhões; em dois meses, chegou a R$ 931,9 bilhões.

Esse ritmo revela que o desequilíbrio não é pontual. Trata-se de uma trajetória crescente de despesa que pressiona o financiamento do Estado e limita a capacidade de crescimento da economia real. O setor agropecuário sente esse efeito de forma direta. A produção rural depende de crédito para custeio, investimento, tecnologia, máquinas, armazenagem, irrigação, seguro e logística.

Quando os juros permanecem elevados, o crédito rural fica mais caro e seletivo. Quando o governo busca elevar arrecadação para financiar despesas crescentes, o custo de produção sobe. Quando o orçamento perde capacidade de priorizar políticas estruturantes, instrumentos como seguro rural, defesa agropecuária e infraestrutura ficam em segundo plano.

O levantamento técnico mais recente da Frente Parlamentar da Agropecuária sobre endividamento rural confirma a gravidade do cenário. A carteira agropecuária com sinais de estresse foi estimada em aproximadamente R$ 256 bilhões. Aplicados os filtros reais de elegibilidade e a capacidade efetiva de renegociação, o universo potencialmente renegociável se aproxima de R$ 100 bilhões.

O custo estimado pela FPA, em cenário tecnicamente calibrado, fica entre R$ 63,4 bilhões e R$ 65 bilhões ao longo de 13 anos, com pico anual estimado em R$ 11,2 bilhões — valor inferior aos cálculos inicialmente apresentados pelo governo. Esses números demonstram que o endividamento rural é um problema real, mas também que a solução pode ser construída com responsabilidade.

Não se trata de uma “bomba fiscal”, mas de uma política autorizativa, calibrável pelo Executivo e voltada a preservar a capacidade produtiva de quem sofreu perdas sucessivas, restrição de crédito, eventos climáticos e aumento expressivo de custos. Ignorar esse quadro é transferir a conta para o consumidor.

Quase 1 milhão de produtores podem chegar ao próximo Plano Safra sem crédito em condições adequadas. Sem crédito, o produtor planta menos, investe menos, compra menos insumos, posterga tecnologia e reduz sua capacidade produtiva. O resultado aparece depois nos preços dos alimentos. A inflação alimentar não nasce apenas na gôndola do supermercado. Ela começa antes: no custo do dinheiro, nos fertilizantes, no diesel, no frete, no seguro que não chega, na armazenagem insuficiente, na insegurança regulatória e na falta de previsibilidade.

Quando o Estado amplia gastos sem revisar despesas, mantém juros elevados e responde com mais tributos, ele encarece toda essa cadeia. Por isso, responsabilidade fiscal também é política agrícola. Controle do gasto público também é política de segurança alimentar. Um país que gasta mal reduz sua capacidade de apoiar aquilo que gera produção, emprego, renda e comida acessível.

Rever despesas não significa retirar proteção social ou abandonar investimentos públicos. Significa organizar o orçamento, eliminar sobreposições, corrigir desperdícios e priorizar políticas com impacto real para a população. No campo, isso passa por crédito compatível com os ciclos produtivos, seguro rural fortalecido, logística, irrigação, armazenagem, defesa agropecuária e inovação. ]

O Congresso Nacional precisa assumir esse debate com maturidade. Não é razoável exigir mais sacrifício do produtor, do pequeno empreendedor e do consumidor sem antes enfrentar a qualidade do gasto público. O Brasil não pode normalizar a ideia de que toda despesa é intocável e toda solução passa por arrecadar mais.

A conta do gasto alto sempre chega: nos juros, no crédito negado, no custo da safra, na margem do pequeno negócio e no preço do alimento. O país precisa escolher se continuará alimentando uma máquina pública cada vez mais cara, ou se terá coragem de devolver fôlego à economia real. Sem equilíbrio fiscal, não há crédito barato. Sem crédito, não há safra forte. E sem safra forte, o alimento pesa no prato do brasileiro.


*Pedro Lupion é deputado federal (Republicanos-PR) em segundo mandato, e presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) 


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IMAGEM: Rafael Neddermeyer/Agência Brasil

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