Economia deve desacelerar sob pressão de juros elevados e famílias com dívidas

Incertezas externas e fatores fiscais e econômicos pressionam consumo, freiam investimentos e reforçam cenário de crescimento mais lento em 2026

Rebeca Ribeiro
05/Mai/2026
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Economia deve desacelerar sob pressão de juros elevados e famílias com dívidas

As incertezas no cenário global, causadas pela guerra no Oriente Médio, e o elevado endividamento das famílias brasileiras levam especialistas a realizarem projeções mais cautelosas sobre o crescimento econômico. Com base no cenário do primeiro trimestre, a previsão é que o PIB encerre 2026 com crescimento de 1,8%, desacelerando em relação a 2025 (2,3%).

A avaliação é de economistas e empresários que participaram da reunião do Comitê de Avaliação da Conjuntura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), realizada na última quinta-feira (30/04). A pedido da entidade, os nomes dos integrantes da reunião não são divulgados.

A expectativa dos economistas presentes à reunião é de que a taxa básica de juros (Selic), atualmente em 14,50% ao ano, se mantenha em nível elevado por um período prolongado - o que pode frear o crescimento do PIB. Uma das consequências dos juros elevados é afastar investimentos diretos no país.

O varejo continua dando sinais de desaceleração devido aos efeitos negativos da taxa de juros e ao endividamento das famílias brasileiras. O varejo restrito deve encerrar o trimestre com crescimento de 1,4%, com base no período de abril de 2025 a março de 2026, em comparação com o mesmo intervalo do ano anterior, demonstrando maior volatilidade no segmento de bens duráveis por depender mais do acesso ao crédito.

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A indústria de eletrodomésticos e eletroeletrônicos, desde a metade do ano passado, já demonstrava sinais de enfraquecimento da atividade, que se mantiveram no início deste ano, com uma queda de cerca de 6% no acumulado de janeiro e fevereiro, na comparação com igual período do ano passado. A queda é maior que a da indústria de transformação, que está na faixa de 2%.

O aumento do custo de produção de eletroeletrônicos é devido à elevação no preço de insumos como ouro, prata e cobre, usados em componentes eletrônicos como as placas de circuitos, e do plástico, em função da alta do petróleo. Essa é a principal queixa de empresários do setor. Outro ponto é o aumento no preço da memória digital, uma vez que grande parte dos fabricantes deste componente direcionou a produção para abastecer data centers, em função do avanço da demanda causada pela inteligência artificial. 

De acordo com representantes da indústria, esses custos devem ser repassados ao consumidor final, o que significa que produtos como celular, notebook e computadores ficarão mais caros. 

A economista que representa o setor industrial mostrou que o índice de confiança do empresário está abaixo dos 50 pontos há 13 meses, demonstrando incerteza em relação à economia. Inadimplência, taxa de juros e falta de confiança fiscal têm contribuído para esse pessimismo.

“O que percebemos é que as vendas de celulares e computadores tiveram redução em unidades, mas aumento no preço médio. Então, o consumidor prefere comprar equipamentos melhores e demorar mais tempo para trocar”, explicou.

Já o setor de serviços registrou alta de 5,9% no acumulado do ano de 2026 até fevereiro. No segmento de serviços prestados às famílias, houve aumento acumulado de 10,3% em termos reais; os serviços prestados a empresas registraram alta de 8,9%; e o setor de informação e comunicação, 8,1%.

Em fevereiro de 2026, a economia brasileira registrou 56,1 milhões de empregos com carteira assinada. O setor de serviços foi responsável por 32,1 milhões de postos de trabalho no período, correspondendo a 57,2% do total da economia, segundo dados apresentados na reunião da ACSP.

Agronegócio

O agronegócio brasileiro precisa lidar não apenas com as questões macroeconômicas, como a taxa de juros elevada, mas também com a diminuição do preço da saca de soja, atualmente vendida em cerca de R$ 130, contra R$ 150 alcançados no ano passado, destacou um representante do setor.

Fatores externos, como a guerra no Oriente Médio e o possível fechamento do estreito de Ormuz, contribuem para o aumento do custo de frete e seguro e desvalorizam o preço do produto. A exceção é a carne bovina, que cresceu 10% devido à maior demanda global e à baixa produção.

Enquanto o PIB agrícola cresceu cerca de 12,6% em 2025, especialistas do setor projetam crescimento entre 2% e 3% neste ano. Além disso, é esperado um ano de baixa rentabilidade, com queda nas vendas de máquinas e implementos agrícolas entre 10% e 15%. O pedido de recuperação judicial da Raízen, produtora de etanol a partir do açúcar, também preocupa os empresários do agronegócio.

Cenário político

Os participantes da reunião de conjuntura da ACSP acreditam que as eleições para presidente em 2026 serão novamente marcadas por polarização entre direita e esquerda, com a candidatura do presidente Lula à reeleição e de Flávio Bolsonaro, sem espaço para uma terceira via.

Para eles, a maior discussão será a definição de quem comandará as cadeiras do Senado e da Câmara dos Deputados, o que deve influenciar especialmente o ritmo dos investimentos no agronegócio.

De acordo com os integrantes do Comitê da ACSP, as eleições de 2026 devem ser mais apertadas do que as de 2022, com grupos como mulheres, idosos e pessoas de baixa renda sendo vetores fundamentais na decisão das eleições. 

Ainda segundo os empresários, a rejeição de Jorge Messias ao STF pelo Senado é significativa por mostrar uma derrota do presidente Lula e arranhar sua reputação política.


IMAGEM: Freepik

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