O dever acima de tudo
Enquanto o governo não atacar o desequilíbrio fiscal pelo corte de gastos, corremos o risco de novos aumentos de impostos e, o que é pior, sempre precedido ou acompanhado de um novo aumento dos gastos

O Brasil atravessa um período marcado pelas dívidas das pessoas, das empresas e do governo. O valor total devido pelas pessoas físicas no Brasil no início de 2026 foi de R$ 4,5 trilhões, contra R$ 3,2 tri em 2023, correspondente a 81,7 milhões de pessoas neste ano, e 70 milhões em 2023.
O endividamento das pessoas físicas atinge 80,4 % das famílias, representando 40,4% da RNDPF (Renda Nacional Disponível) em 2025. Bancos e cartões são os maiores credores, com 29,6% do total, que possuem as maiores taxas de juros. É preocupante a elevada parcela relativa à água, luz e energia (21,5%) por se tratar de itens essenciais para o funcionamento do lar, e sujeito a cortes em caso de inadimplência.
O volume total da dívida das PFs (pessoas físicas) é de R$ 332 bilhões, sendo que 48% dos devedores estão na faixa de renda de um salário-mínimo e 30% na faixa de 2 salários-mínimos - o que revela a importância de uma solução que possa aliviar a situação das classes de renda mais baixas. O tamanho médio da dívida familiar é de R$ 6.598,13, valor puxado por casa própria e carro.
O problema é que o endividamento é crônico, pois 42% dos devedores já se encontravam inadimplentes 10 anos atrás. Depois que o cidadão entra na dívida, o impacto das altas taxas de juros leva à inadimplência e ao círculo vicioso de pagar parte, mas a “bola de neve” cresce.
Muito se discute sobre as causas desse crescimento da inadimplência, e integrantes do governo afirmam serem as bets e os juros. Ocorre que os dados sobre as bets superestimam sua contribuição pois, embora o valor arrecadado seja relevante, na casa dos R$ 20 bilhões por mês, as operadoras ficam com apenas cerca de 15% desse total, devolvendo o restante ao mercado na forma de prêmios e pagamentos.
Quanto aos juros, seu peso é significativo principalmente para os que precisam renegociar dívidas cujas taxas podem ser superiores a 35%. Outra causa é a perda da renda da renda devido à inflação, especialmente de alimentos e serviços.
Agora o governo promete um programa de recuperação de crédito, possivelmente utilizando recursos do FGTS, com algum tipo de garantia contra inadimplência e que pode embutir algum subsídio.
Na mesma direção das pessoas físicas, as empresas também se acham bastante endividadas, revelando um cenário que causa preocupação pois o endividamento está alto e a inadimplência vem aumentando significativamente. São 8,9 milhões de empresas, que respondem por R$ 213 bilhões em dívidas. Embora cerca de 96% das empresas sejam micros, o endividamento atinge também empresas maiores, como se verifica com o crescimento significativo das recuperações judiciais.
Em 2025, foram requeridas 2.466 recuperações, sendo que 743 ou 30,1% se referem ao complexo do agro - o que preocupa porque o setor está enfrentando dificuldades adicionais decorrentes das dificuldades de suprimento e de crédito. Os serviços respondem por 30%. O número de falências, ainda que menor do que no ano anterior, é elevado, e a continuidade dos juros elevados e a desaceleração da economia deverão criar mais dificuldades para as empresas endividadas.
Dívida do setor público
Se no setor privado (pessoas e empresas) o endividamento é preocupante e crescente, a situação não é diferente no setor público, cuja dívida impacta a economia como um todo através da pressão sobre a taxa básica de juros, que condiciona as demais.
A dívida pública federal atingiu, em 2025, a casa dos 8,635 trilhões de reais - o que corresponde a 77,6 % do PIB pelos cálculos do BC, mas a 90% pelo critério do FMI, chega à R$ 10,3 trilhões ao final de 2026 e deve ultrapassar 100% ainda em 2027.
Comparativamente a outros países, essa não é uma dívida alta, mas no caso brasileiro esse percentual é muito elevado porque o custo de seu carregamento se dá a taxas de juros muito elevadas e prazos muito curtos. O Tesouro emite títulos e toma dinheiro emprestado dos investidores para honrar seus compromissos mas, devido à baixa confiança na política fiscal, quanto maior sua necessidade, mais o mercado exige juros maiores porque aumenta o risco de financiar o Tesouro.
Agrava esse cenário o fato de que, nos últimos três anos, o governo aumentou a carga tributária; porém, apesar disso, o endividamento cresceu - o que significa que os gastos se expandiram acima do crescimento da receita. Além disso, tais aumentos foram feitos de forma distorcida, não respeitando a natureza e a prática dos tributos utilizados, como o IOF e, mais recentemente, a tributação dos dividendos que representa uma bitributação. Para piorar essa tributação, criou uma imensa burocracia e insegurança jurídica que já está sendo contestada na Justiça.
Em resumo, o Brasil é um país endividado e com perspectivas de crescimento das dívidas. Periodicamente o governo procura apresentar programas para facilitar o pagamento das dívidas das empresas e das pessoas físicas, mas enquanto ele não atacar o desequilíbrio fiscal pelo corte de gastos, corremos o risco de novos aumentos de impostos e, o que é pior, sempre precedido ou acompanhado de novo aumento dos gastos.
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