Vício em apostas acende debate sobre efeitos nefastos na saúde mental e no bolso dos brasileiros

Debate realizado pelo COCCID da ACSP contrapôs defesa da regulamentação do setor aos alertas sobre ludopatia, desvio de recursos antes destinados ao comércio e serviços e os prejuízos sociais provocados pelos jogos online

Arthur Gebara Junior
17/Jun/2026
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Vício em apostas acende debate sobre efeitos nefastos na saúde mental e no bolso dos brasileiros

Os jogos online vêm operando uma mudança nos hábitos dos brasileiros, provocando evasão de receitas do comércio para as apostas, com impactos sobre o consumo e o endividamento das famílias devido à compulsão por jogos.

Enquanto o setor destaca a regulamentação e mecanismos de controle, críticos afirmam que o país enfrenta uma epidemia silenciosa de ludopatia. Para alguns especialistas, o vício em apostas tem efeitos semelhantes aos provocados por drogas, segundo o psiquiatra forense Guido Arturo Palomba, que chama o fenômeno de “desgraça regulamentada”. 

Mas a questão é mais profunda. Para ouvir a opinião de especialistas, o Comitê de Civismo e Cidadania (COCCID) da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) promoveu na última terça-feira (16/06) o debate “Apostas Online - Dependência Mental e os Desafios Socioeconômicos”, com a participação de Palomba, o mais respeitado profissional da área, com trabalhos importantes sobre a mente criminosa e histórico de atuação em casos importantes da crônica criminal brasileira.

Também participou Renato Toporcov Simões Barreiros, especialista em Relações Internacionais, consultor da Rede Globo, diretor de Fábrica de Cultura e especialista em comportamento de jovens da periferia, que tratou do efeito das bens sobre os jovens no Podcast do Associativismo do Diário do Comércio. Já a advogada Marina Zonis, head de Assuntos Regulatórios da Entain, grupo que controla empresas de apostas e que assumiu a complexa missão de defender o segmento, classificado por ela como a “indústria dos jogos online”.

As apostas online vêm provocando debates frequentes entre os que as defendem como mais uma modalidade de jogo que alimenta a esperança de grande parte dos brasileiros de ganhar uma bolada e mudar de vida. Para seus defensores, as plataformas de jogos online e as bets — regulamentadas pelo governo federal — não são tão diferentes das loterias da Caixa, que arrecadam cerca de R$ 22 bilhões anuais para os cofres públicos segundo relatório de administração da instituição de 2024.

Aliás, nesse quesito, as bets já demonstram um forte desempenho, com arrecadação anual de R$ 9 bilhões em 2025, de acordo com dados da Receita Federal. Só no primeiro trimestre de 2026, a arrecadação chegou a R$ 3,6 bilhões, segundo a mesma fonte.

Por outro lado, uma pesquisa  da Confederação Nacional do Comércio (CNC) aponta que o prejuízo para a economia chega a R$ 140 bilhões anuais, por conta da enorme evasão de recursos antes direcionados ao comércio e ao setor de serviços.

Saúde mental, regulação e controles

Antes da exposição da representante das empresas de jogos, Renato Barreiros trouxe para a mesa sua experiência diária com os jovens da periferia: “O jogo online está ampliando as diferenças sociais. Crianças e adolescentes estão jogando o dinheiro do lanche nas plataformas”, afirmou.

Em sua avaliação, está mais do que evidente a necessidade de conter os impactos negativos dessa prática. Ele citou uma pesquisa de mantenedoras de faculdades particulares que revelou que 24% dos alunos abandonam ou deixam de cursar o ensino superior em consequência das apostas online.

Para Barreiros, a situação já é crítica. “Os jovens estão sendo totalmente influenciados pelo enorme investimento feito em propaganda nos veículos de comunicação e nas redes pelas bets. Os principais influenciadores, jogadores e clubes de futebol têm um enorme poder de influência sobre esses públicos.”

(Da esq.) Almeida, Marina, Nahkle, Palomba e Barreiros: meios para reduzir os impactos da 'indústria de jogos on-line'


A defesa do setor foi feita pela advogada Marina Zonis. Ela apresentou as principais diretrizes criadas para monitorar o mercado nacional. “A regulação é mais do que necessária e, pelo nosso monitoramento, os apostadores já começam a demonstrar uma adequação a um jogo mais responsável.”  A advogada salientou ainda que os controles exercidos pelas bets têm conseguido estabelecer limites para os usuários.

“Hoje temos condições de conter os excessos pelas próprias plataformas. É possível programar e limitar o valor das apostas para reduzir os danos”, 

Segundo a advogada, a “indústria do jogo” é uma atividade legítima, de grande adesão e devidamente regulamentada, operada por empresas constituídas e com sede no Brasil. “Na verdade, o grande problema são as empresas internacionais que operam no país sem qualquer fiscalização. Hoje elas representam 50% do mercado e, sem dúvida, são motivo de preocupação pela total falta de regras sobre suas atividades. É contra elas que devemos trabalhar”, afirmou.

Visão médica

Essa, porém, não é a posição do psiquiatra Guido Palomba, que abriu sua intervenção de forma contundente, reiterando que os jogos online são a “desgraça regulamentada”. Ele afirma que, com ou sem regras, o setor contribui para uma tragédia nacional. “Não existe regulamentação que controle a saúde mental das pessoas. Jogos online são uma desgraça para a economia e, principalmente, para a mente dos apostadores.”

Para o médico, trata-se de um vício similar ao da cocaína. “O viciado em drogas não consome só um pouquinho. Assim como o alcoolista, o jogador compulsivo não admite o vício, continua jogando e perdendo seu patrimônio.” Palomba acrescentou acreditar que, mesmo com a intervenção do Estado, o mercado de jogos acaba sendo "dominado pelo crime organizado." 

"As bets são parte de um negócio bilionário: movimentam de R$ 20 a 30 bilhões em apostas brutas por mês com um faturamento mensal de R$ 3 bilhões. Investem milhões em propaganda, ou seja, jogos online movimentam muito dinheiro, mas quem paga tudo isso é o coitado do apostador que vende até a mãe para jogar. Vicio sempre existiu e essa categoria de jogo é evidentemente muito viciante, provocando, em alguns casos, até o suicídio”.

Para o psiquiatra, a regulação não tem funcionado, e as bets continuam funcionando com o que eles consideram autorregulação. "Isso não existe: o engraçado é que o governo proíbe bingo e cassinos, mas esta desgraça (sic) pode."

Sua fala angariou o apoio da maior parte da audiência presencial e online e, para o coordenador do COCCID, Samir Nakhle Khoury, é natural que, diante de posições antagônicas, sempre é preciso ficar atento a possíveis tensões. "Mas pretendemos continuar debatendo temas polêmicos que atingem diretamente a sociedade brasileira”, concluiu. 

 
IMAGENS: Freepik e Victor Amaro

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