Inflação oficial atinge 8,89% em 12 meses
Em junho, o IPCA foi de 0,79% - o maior para o mês desde 1996. Em julho, os preços continuarão subindo, mas há previsão de melhora no segundo semestre

A inflação oficial medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) ficou em 0,79% em junho, ante 0,74% em maio, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Foi a maior variação para o mês desde 1996, quando subiu 1,19%.
O resultado ficou dentro do intervalo das estimativas dos analistas ouvidos pelo AE Projeções, que esperavam uma taxa entre 0,70% e 0,93%, com mediana de 0,82%.
No primeiro semestre, a inflação acelerou 6,17% e em 12 meses chegou a 8,89% - a maior variação desde 2003. A elevação do índice em 12 meses deve continuar em julho, mas a perspectiva é de melhora a partir de setembro - após a divulgação do resultado do IPCA de agosto.
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No acumulado de 12 meses a inflação se aproximou da estimativa de 9% para todo o ano de 2015, elaborada pelo Banco Central em seu Relatório Trimestral de Inflação.
Os analistas de mercado consultados para o relatório Focus do Banco Central projetam o IPCA em 9,04% no encerramento de 2015.
No entanto, neste segundo semestre, que costuma ser sazonalmente de inflação mais baixa, pode ainda haver pressão de preços administrados.
Considerando uma possível alta no preço da gasolina no horizonte, Samuel Kinoshita, sócio e economista da MVP Capital, espera que o IPCA encerre este ano em 9,40%.
A gestora de recursos - que é uma das casas que fazem parte do grupo das que mais acertam projeções, o Top 5 - esperava que o IPCA de junho fosse de 0,80%, bem próximo do resultado fechado.
Para julho, a expectativa é que a inflação acelere 0,50%. "Acredito que a partir do mês de agosto as expectativas param de piorar. Eu tenho feito projeções que estão acima das de mercado, e que têm se mostrado corretas", diz Kinoshita.
Heron do Carmo, professor da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo) e pesquisador da FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) diz que a taxa de inflação deve começar a recuar em termos mensais, mas seguirá forte na comparação de 12 meses.
Ele estima que o IPCA de julho acumule 9,3% neste intervalo e atinja 9,7% em agosto, para depois começar a desacelerar e encerrar o ano em 9%.
"Já entramos em uma mudança de rota, e os números começam a melhorar a partir de setembro, após a divulgação do resultado de agosto. O importante é que o ajuste está no caminho certo", diz.
Por enquanto, a inflação de julho contará com forte pressão de reajustes em tarifas administradas, desde taxas de água e esgoto até energia elétrica, passando por gás encanado, táxi, ônibus e telefone celular.
Com isso, o IPCA acumulado em 12 meses deve avançar um pouco mais neste mês, segundo Eulina Nunes dos Santos, coordenadora de Índices de Preços do IBGE.
"Isso é fato, porque o índice de julho de 2014 foi zero (0,01%). Vamos pegar o acumulado de 8,89%, tirar nada e vamos colocar uma taxa mais alta", diz Eulina.
Segundo a coordenadora, o IBGE já tem no radar aumentos que impactarão o IPCA em julho. Um dos principais será o reajuste nas taxas de água e esgoto em sete regiões, de gás encanado no Rio de Janeiro e de energia elétrica em São Paulo e em Curitiba.
Os transportes também devem pressionar a inflação, já que o táxi em Fortaleza ficou 6,50% mais caro em 12 de junho (com impacto residual no IPCA de julho). O ônibus intermunicipal, por sua vez, teve reajustes de 11,39% em Recife (a partir de 30 de junho) e de 10,53% em São Paulo (desde 5 de julho).
Os ônibus interestaduais, por sua vez, tiveram um reajuste de 7,70% a partir de 1º de julho.
Também está no radar o impacto do reajuste de 20% nas tarifas de telefone celular de uma das operadoras.
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O QUE PESOU EM JUNHO
Em junho, o item de maior pressão para o IPCA foi o jogo de azar, que teve um aumento de preço de 30,80%, em função do reajuste nos valores das apostas que entrou em vigor a partir de 18 de maio.
Com isso, os jogos de azar adicionaram sozinhos 0,12 ponto percentual (p.p.) à inflação do mês passado.
Ao todo, jogos de azar, passagens aéreas e taxa de água e esgoto exerceram os três principais impactos no mês e responderam, sozinhos, por cerca de um terço do IPCA de junho. A contribuição total dos três itens foi de 0,29 p.p..
O resultado do mês passado ainda contribuiu para que o grupo Despesas Pessoais acelerasse de 0,74% em maio para alta de 1,63% em junho. Também influenciou a elevação de 0,66% no item empregado doméstico.
O segundo maior impacto veio das passagens aéreas, que ficaram 29,19% mais caras no mês passado, com impacto de 0,10 p.p. no IPCA. Ainda assim, o item acumula queda de 32,71% no semestre.
Devido às passagens, o grupo Transportes, acelerou a 0,70% no IPCA de junho. O resultado foi influenciado ainda pelos serviços de conserto de automóvel (1,70%), compra de automóveis usados (0,78%) e tarifas de ônibus urbano (0,40%).
O terceiro maior impacto no IPCA de junho veio da taxa de água e esgoto, que subiu 4,95% e respondeu por 0,07 p.p. da taxa do mês passado. O resultado reflete reajustes em São Paulo (12,07%), Salvador (7,26%), Belo Horizonte (6,46%), Curitiba (4,93%), Rio de Janeiro (3,50%) e Recife (1,03%).
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Com isso, o grupo Habitação subiu 0,86% em junho - um resultado ainda menor do que em maio (1,22%). Também pesaram no grupo despesas com artigos de limpeza (1,52%), condomínio (0,92%) e aluguel residencial (0,66%).
O aumento expressivo nas taxas de água e esgoto em junho se deve à contaminação provocada pela energia elétrica mais cara em 2015, afirma Eulina. No mês passado, o preço administrado avançou 4,95%, o terceiro maior impacto no IPCA.
"Várias empresas têm pedido reajustes extras para fazer frente ao custo da energia elétrica", diz a coordenadora. Apesar disso, ela disse que não é possível mensurar ainda até onde vai essa influência, nem se ela atua como o principal fator de alta sobre o índice de inflação.
"Tem o dólar, vários fatores que estão propiciando a alta. Por outro lado, em alguns itens já se nota menor demanda segurando as taxas", afirma.
Em junho, a energia elétrica não exerceu a influência percebida em meses anteriores. Mesmo assim, Eulina não descartou novos aumentos e, consequentemente, novas pressões de custo sobre a economia como um todo. "Como o problema não acabou, tudo pode acontecer", diz.
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CUSTO DA CONSTRUÇÃO TAMBÉM SOBE
O INCC (Índice Nacional da Construção Civil) subiu 0,73% em junho, após alta de 1,26% em maio, segundo o IBGE. Com o resultado, o índice acumula altas de 3,15% no ano e de 5,66% em 12 meses.
A parcela dos materiais avançou 0,42% em junho, para R$ 507,16, após subir 0,54% em maio. Enquanto isso, o custo da mão de obra subiu 1,08%, para R$ 434,84, ante alta de 2,12% na mesma base de comparação.
*Com informações de Estadão Conteúdo
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