Jovens ocupam mais vagas, mas ficam menos de um ano no emprego

Salários baixos e 6,2 milhões fora da escola e do mercado revelam desafios estruturais, segundo estudo da Secretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho (Seet) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) apresentado pelo CIEE nesta quinta-feira, 25/06

Márcia Rodrigues
25/Jun/2026
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Jovens ocupam mais vagas, mas ficam menos de um ano no emprego

Os jovens brasileiros estão encontrando mais oportunidades de trabalho do que há alguns anos. A taxa de desemprego entre pessoas de 18 a 24 anos caiu para 13,8% no primeiro trimestre de 2026, cerca de metade do patamar registrado no auge da crise provocada pela pandemia. O número de ocupados também superou o nível pré-pandemia: 13,9 milhões.

Os dados fazem parte do estudo "Os jovens no Brasil: permanências e necessidades de mudança", elaborado pela Secretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho (Seet) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) a pedido do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), e divulgado nesta quinta-feira (25/06) na Capital paulista.

Embora os indicadores apontem melhora no acesso ao mercado de trabalho, o levantamento mostra que os desafios da juventude brasileira estão mudando de perfil. Mais do que conseguir uma vaga, o problema agora é permanecer empregado, avançar profissionalmente e conquistar melhores rendimentos. O próprio estudo destaca que a qualidade dos vínculos e a construção de trajetórias profissionais são os principais gargalos atuais.

O movimento atual é principalmente quantitativo, segundo o superintendente institucional do CIEE, Rodrigo Dib. “A gente tem um ciclo quantitativo que demonstrou uma melhora, mas qualitativo não. Muitas funções administrativas e operacionais oferecem poucas perspectivas de crescimento. e podem ter parte de suas tarefas automatizadas no futuro. Além disso, em termos de remuneração, é muito baixa”, afirma.

A avaliação não é integralmente compartilhada pelo Ministério do Trabalho. Para Paula Montagner, responsável pela área de estatísticas da pasta que apresentou o estudo no CIEE, a inteligência artificial tende a substituir tarefas repetitivas, mas não necessariamente ocupações inteiras.

“As novas tecnologias incorporam parte das atividades, mas não eliminam o emprego como um todo. O mais importante é que os jovens desenvolvam competências ligadas à resolução de problemas, ao relacionamento interpessoal e ao uso dessas ferramentas, porque são habilidades  que continuam sendo demandadas”, afirma.

Segundo o estudo, as principais ocupações entre jovens de 14 a 24 anos são:

- Balconistas/vendedores (1,24 mi)
- Escriturários (1,07 mi)
- Auxiliar de construção de edifícios (394 mil)
- Recepcionistas (391 mil)
- Caixas/bilheteiros (367 mil)

Ciclo curto

Mais da metade dos adolescentes ocupados, 52%, permanece menos de um ano no mesmo emprego, de acordo com o levantamento. Entre os jovens de 18 a 24 anos, a proporção chega a 38,2%. Segundo o estudo, salários baixos, baixa qualificação e jornadas que competem com os estudos ajudam a explicar o ciclo frequente de entrada e saída do mercado de trabalho.

A trajetória da estudante de jornalismo Emily Santos de Moura Lemos Maria, de 23 anos, reflete parte desse movimento. Em poucos anos, ela passou por vagas de telemarketing, atendimento ao cliente em uma faculdade, estágio em comunicação, auxiliar administrativa e, mais recentemente, assumiu uma posição como agente de comunicação e marketing em uma empresa internacional.

Natural de Minas Gerais, Emily também enfrentou mudanças de cidade e dificuldades para encontrar oportunidades alinhadas à sua formação. "Percebi que as empresas buscavam pessoas qualificadas, mas não queriam qualificá-las. Exigiam comprometimento, mas muitas vezes faltava empatia e os salários eram baixos", afirma.

Em busca de melhores condições de trabalho, a estudante de jornalismo Emily Lemos, 23, passou por diversas funções até chegar à que tem a ver com sua formação. FOTO: Arquivo pessoal
 

Segundo ela, a busca por melhores condições de trabalho foi determinante para as mudanças profissionais. Hoje, atuando na área em que estuda  em regime remoto, diz estar satisfeita com a nova posição. "O único fator que me faria mudar de emprego seria um salário maior", diz.

A interpretação do Ministério do Trabalho para a baixa permanência dos jovens nos empregos é um pouco diferente. Para Paula, esse indicador não deve ser interpretado da mesma forma que a rotatividade observada entre trabalhadores adultos. Isso porque muitos jovens alternam períodos de estudo e trabalho ou ocupam vagas temporárias durante férias e outros momentos específicos da trajetória escolar.

“Para os jovens, muitas vezes o trabalho tem caráter temporário e está associado à busca por experiência ou renda complementar. Por isso, o estudo mede tempo de permanência no emprego, e não necessariamente rotatividade”, explica.

1,5 salário e 38,6 horas semanais

A baixa remuneração continua sendo uma marca do trabalho jovem. Segundo o levantamento, 7,8 milhões recebem até 1,5 salário mínimo, enquanto 2,7 milhões ganham até um salário mínimo. Ao mesmo tempo, os jovens de 18 a 24 anos já cumprem jornadas próximas às dos adultos, com média de 38,6 horas semanais.

“Ou seja, eles estão conquistando funções que exigem pouco conhecimento e recebem mal. Com isso, muitos acabam olhando para alternativas na informalidade, como entregas por aplicativo ou atividades ligadas ao marketing digital, que podem oferecer ganhos mais imediatos”, afirma Rodrigo Dib.

'Nem-nem'

Mesmo com a recuperação do emprego, o Brasil ainda registra 6,2 milhões de jovens entre 14 e 24 anos que não estudam nem trabalham - os popularmente apelidados de 'nem-nem', um desafio social e econômico que na maioria das vezes reflete a falta de oportunidades, a desigualdade de acesso à educação e a dificuldade de inserção no mercado de trabalho.

O número é apontado pelo Ministério do Trabalho como o principal alerta social do levantamento. Embora haja um componente sazonal associado ao início do ano letivo e ao encerramento de contratos temporários, o contingente continua expressivo e afeta especialmente as mulheres jovens.

A pesquisa também mostra uma juventude mais escolarizada. Atualmente, 73% dos jovens possuem pelo menos o ensino médio, enquanto 2,3 milhões frequentam o ensino superior. Apesar disso, 84% dos trabalhadores de 14 a 24 anos estão concentrados em ocupações consideradas generalistas, que não exigem formação técnica ou superior.

Para o Ministério do Trabalho, a ampliação dos programas de aprendizagem profissional é um dos caminhos mais promissores para melhorar a inserção dos jovens. Atualmente, o país conta com cerca de 708 mil aprendizes, número considerado insuficiente diante do universo de mais de 32 milhões de jovens brasileiros.

Segundo Paula, a modalidade combina formação teórica e experiência prática, permitindo que os jovens desenvolvam competências profissionais ao mesmo tempo em que permanecem vinculados ao processo educacional.

“A aprendizagem é uma excelente porta de entrada porque garante direitos, oferece capacitação e ajuda o jovem a descobrir quais conhecimentos e habilidades precisa desenvolver para construir sua trajetória profissional”, sinaliza.

 

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IMAGEM: CIEE

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