Juros minam investimentos e a taxa de obsolescência nas empresas chega 24%

Análises do setor produtivo apontam que a Selic elevada aumenta custo de produção, reduz recursos para inovação e dificulta o acesso das pequenas empresas ao crédito

João Mendes, de Brasília
02/Jul/2026
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Juros minam investimentos e a taxa de obsolescência nas empresas chega 24%

As altas taxas de juros no Brasil têm levado ao crescimento do custo de produção, à redução da abertura de novos negócios, à queda no investimento em inovação e ao aumento da mortalidade das empresas, principalmente dos pequenos negócios. A conclusão consta de diferentes análises de representantes do setor produtivo que participaram, nesta quinta-feira, 2/6, de seminário da Frente Parlamentar do Empreendedorismo, na Câmara dos Deputados.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), João Dornellas, afirmou que o baixo investimento, provocado principalmente pelas altas taxas de juros para crédito, tem causado um atraso tecnológico das empresas do país em relação ao mundo.

Dornellas utilizou dados do Banco Mundial para mostrar que o Brasil tem perdido a sua capacidade de investimento. Enquanto esses recursos crescem 16%, o nível de desgaste dos equipamentos necessários à produção aumenta em 21%, o que gera uma obsolescência anual de 24%.

“O Brasil está se tornando obsoleto antes de se tornar rico e as taxas de juros não estão estimulando o investimento”, ressaltou. No mundo, a expansão do investimento é, em média, 25,7%.

Atualmente, a indústria de alimentos brasileira, a maior exportadora do mundo, é responsável por 11% do Produto Interno Bruto (PIB), com a geração de mais de dois milhões de empregos, segundo a ABIA. Do total de empresas, 93% são micro, pequenos ou médios negócios.

“Precisamos investir em tecnologia para competir no mercado internacional. Aqui se gasta R$ 1,7 trilhão a mais do que nos países da OCDE (nações mais desenvolvidas) para ser competitivo. Isso é uma das consequências da elevada taxa de juros”, ressaltou Dornellas.

Ele comentou que operacionalizar o sistema de produção tem um custo significativo, que é dependente do capital de giro. “Com essas taxas de juros, é preciso ser muito corajoso para investir no país", enfatizou o presidente da Abia.

E o incentivo à aplicação no mercado financeiro em detrimento da atividade produtiva é apontado pelo coordenador da Assessoria Econômica da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), Evanio Nascimento, como um dos impactos diretos dos juros altos. Soma-se, nesse cenário, segundo ele, o aumento do custo de capital, a redução da abertura de novos negócios e de investimento em inovação e a expansão da mortalidade empresarial.

“A Selic é usada para controle da inflação, mas afeta diretamente o setor produtivo. Modifica o comportamento das empresas e impacta a confiança e previsibilidade da economia, gerando menos investimento futuro e postergando a competitividade”, destacou Nascimento.  

“Política fiscal vai em rumo diferente dos gastos públicos”

O Superintendente de Economia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Mário Sergio Telles, classifica como enorme o desafio do empreendedorismo brasileiro diante das elevadas taxas de juros. “E estamos perdendo esse desafio. O custo de financiamento é o maior dos componentes, o que retira nossa condição de competitividade com outros países e internamente”, alertou.

Segundo Telles, as importações de bens de consumo cresceram, em volume, 52% no ano passado. “Os importados estão tomando conta do nosso mercado e o custo de financiamento tem parte de responsabilidade nisso.

Ele responsabiliza o déficit das contas públicas. “O Banco Central aumenta a taxa de juros para bater a inflação, mas, por outro lado, há uma política que aumenta significativamente os gastos. A política fiscal vai em rumo diferente dos gastos públicos”, relatou.

Ele citou como exemplo o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que é um tributo regulatório que tem efeito no crédito, utilizado para cobrir a expansão das despesas do governo. “O crédito é o motor da economia e o IOF faz o crédito ser mais caro”.

O diretor-executivo de Economia, Regulação Prudencial e Riscos da Febraban, Rubens Sardenberg, afirmou que a alta na taxa de juros prejudica o acesso das micro e pequenas empresas ao crédito de instituições financeiras.

Segundo ele, o spread bancário, que é a diferença entre a taxa que o banco paga para captar recursos e a taxa que cobra ao emprestar, é 50% a 100% maior para os pequenos negócios por causa da confiabilidade e das garantias.

“Há uma fragilidade e uma vulnerabilidade maior. A qualidade das informações e confiabilidade, quando se faz empréstimo, interferem no acréscimo de risco nas taxas. Acaba sendo um custo para os bancos”, reforçou o diretor, que afirmou que as instituições financeiras têm tomado medidas para expandir a oferta de crédito para as micro e pequenas empresas.

Sardenberg comentou que falta a essas empresas mais clareza sobre a sua situação financeira. “Quanto mais tiverem suas finanças organizadas e demonstrações financeiras com padrão parecido com os de grandes empresas, melhor do ponto de vista do crédito. É preciso, ao ler o balanço, saber que os dados representam de fato a sua realidade”, argumentou.  

 

IMAGEM: FPE/divulgação

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