Lenda ou mito?

Um operário desconhecido entregou ao então presidente Ernesto Geisel uma pauta de reivindicações na época considerada ousada ou quase impertinente. Era Lula

Eymar Mascaro
10/Ago/2015
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Foi entre 1976 e 1977 que o presidente Ernesto Geisel fez uma de suas rumorosas viagens a São Paulo, constando de sua agenda de compromissos no Estado uma visita a uma montadora de automóveis no ABC, região que entraria para a história política do País por ser berço de nascimento do PT e do desabrochar do Lula político.

Aquela visita de Geisel representou muito para o governador da época, Paulo Egídio Martins, que era o principal guru do general-presidente e um de seus mais fiéis escudeiros na sociedade civil, em defesa da implantação da tão decantada distensão política, uma tímida abertura no fechado regime em que vivíamos e que ainda desagradava a chamada e temível linha dura do Exército.

Paulo Egídio era um dos raros civis que ligavam para o telefone exclusivo de Geisel e que falava diretamente com o presidente em Brasília, a qualquer hora do dia ou da noite.

Num desses telefonemas, por exemplo, o governador paulista passou ao presidente carrancudo a sinistra notícia da segunda morte registrada no DOI-Codi de São Paulo, a do operário Manoel Fiel Filho, ocorridas em circunstância semelhante à morte do jornalista Wladimir Herzog.

Antes de morrerem, Fiel e Vlado foram barbaramente torturados, como apurou a Comissão da Verdade.

A iniciativa do governador de abrir os olhos do presidente para a gravidade do que estava acontecendo de errado em dependências militares do Estado, resultou na exoneração do comandante do II Exército.

Durante a visita à montadora de automóveis, Geisel conversava com Paulo Egídio e diretores da empresa no centro do "galpão" onde funcionava a linha de montagem dos veículos. Como era tradicional nas visitas dos presidentes-militares aos Estados, os jornalistas credenciados para acompanhar o visitante eram obrigados a permanecer distantes do presidente, isolados num "chiqueirinho" montado pelos agentes de segurança.

Apesar da distância, os jornalistas puderam acompanhar os movimentos de Paulo Egídio quando ele se afastou do presidente e se dirigiu a um grupo de trabalhadores que conversava em outro ponto do "galpão".

O governador segurou um dos operários pelo braço e o levou à presença de Geisel, que manteve com ele um diálogo provavelmente inesperado. Ao final da conversa, o privilegiado trabalhador entregou um documento ao presidente, que deve ter sido lido por Geisel na viagem de volta a Brasília.

Abordado pelos repórteres, o moço se identificou com o nome de Luís Inácio da Silva, que fez questão de emendar que era mais conhecido nos meios sindicais por Lula.

Nessa época, Lula integrava a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Detalhe: o documento entregue ao presidente era uma pauta de reivindicações trabalhistas da categoria, com um texto ousado para a época de regime fechado que o País vivia, e que muitos consideravam ditadura.

Nas entrelinhas, o documento fazia reparos ao regime militar.

Naquela época, os quatro grandes jornais do eixo São Paulo-Rio, Estadão, Folha, Jornal do Brasil e O Globo, raramente publicavam notícias sindicais.

No dia seguinte à visita de Geisel a São Paulo, contudo, o documento de Lula foi divulgado pela imprensa nacional com destaque nas primeiras páginas dos jornais e serviu para comentários nas rádios e televisão.

Foi a deixa para que colunistas, comentaristas e editorialistas começassem a destacar o surgimento de uma nova e corajosa liderança sindical no Brasil, nascida sob a égide de um regime político que era contestado nas ruas com atentados a bomba e estranhas mortes de pessoas acusadas de colaborar com a repressão policial.

Não demorou muito para Lula curtir 41 dias de prisão no antigo Dops. Foi na prisão que Lula ficou sabendo pela boca do diretor do Dops, delegado Romeu Tuma, da morte de sua mãe. Surpreendentemente, o sinistro delegado Sérgio Paranhos Fleury, acusado de chefiar o pelotão de torturadores, consentiu que Tuma escoltasse Lula até o velório da mãe.

Paulo Egídio já era conhecido de um restrito grupo de pessoas por ter protegido no Palácio dos Bandeirantes jornalistas que eram perseguidos por militares “revolucionários” (designação dos que apoiavam o regime).

Sabe-se inclusive que "inimigos" da “revolução” chegaram a sair escondidos do Palácio, enrustidos em ambulâncias.

Paulo Egídio foi um dos principais fiadores da distensão política implantada por Geisel.

Pode-se dizer, ainda, que o governador deu um empurrão e tanto no operário Lula rumo ao estrelato no mundo político.

Nascia naquele instante a lenda ou o mito? O Lula sindicalista de quem Geisel apertou a mão calejada e conheceu de perto virou político, criou um partido que dá o que falar até hoje, disputou e perdeu uma eleição de governador em 1982, concorreu a outras cinco eleições presidenciais, perdendo três e ganhando duas.

Hoje, o PT criado por ele é alvo de denúncias de corrupção, o partido se enfraqueceu, mas o seu criador ainda é temido pelos adversários. A saraivada diária de críticas que sofre da oposição, e sobretudo da imprensa, incomoda mas não tira o ânimo de Lula.

Enfraquecido ou não, a verdade é uma só: quem quiser se eleger presidente da República, em 2018, vai ter de derrotar Lula nas urnas.

 

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