Leroy Merlin diversifica portfólio com aposta no mercado pet
De olho em um público fiel e em expansão, empresas de outros segmentos entram em uma das categorias mais promissoras do varejo e desafiam pet shops

O mercado pet, antes dominado por pet shops e e-commerces especializados, tornou-se o novo destino de grandes players que buscam diversificação e crescimento. O setor tem atraído negócios de segmentos tão distintos quanto construção, moda e alimentação. Juntos, eles enxergam nos animais de estimação uma oportunidade de ampliar receitas e fidelizar clientes.
A tendência reflete uma mudança estrutural: companhias consolidadas em suas categorias originais estão ampliando o mix de produtos para incluir linhas voltadas aos pets - de rações e acessórios a itens de higiene, brinquedos e mobiliário.
Para Eduardo Yamashita, diretor de Operações da Gouvêa Ecosystem, o movimento é natural em um cenário em que a competição e a busca por novas fontes de receita exigem inovação. “Esse tipo de movimento está bem alinhado com uma estratégia de diversificação e captura de novas oportunidades de consumo, considerando a base fiel de clientes e o tráfego, tanto nas lojas físicas quanto nos canais digitais, para atingir um outro pedaço do bolso desse consumidor”, explica.
A estratégia é aproveitar a base de consumidores já existente, o tráfego nas lojas e o apelo emocional ligado à relação dos tutores com os animais. No caso de redes como os home centers, caso da Leroy Merlin, isso pode aumentar o fluxo de visitas e gerar novas oportunidades de consumo. “O desafio é manter coerência estratégica e excelência operacional ao entrar em uma nova categoria”, diz Yamashita.
Além disso, essas empresas passam a explorar um setor que faturou R$ 75,4 bilhões em 2024, valor que deve subir para R$ 78 bilhões em 2025, segundo estimativas do Instituto Pet Brasil (IPB) e da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet). O mercado brasileiro deste ramo é o terceiro maior do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China.
Canal especializado
Esses movimentos mostram como o mercado pet vem atraindo redes tradicionais em busca de novas oportunidades de consumo para diversificar o mix e fidelizar clientes. Para os pet shops independentes, a chegada de grandes redes representa desafios e oportunidades. Investir em serviços personalizados, experiências únicas e programas de fidelização será fundamental para continuar competitivo.
O chamado canal especializado - formado por pequenos e médios pet shops, como o famoso Petz - ainda concentra a maior fatia das vendas. Segundo levantamento do IPB, cerca de 49% do faturamento do mercado pet brasileiro vêm desse tipo de estabelecimento, o que demonstra que há espaço para novos entrantes e formatos híbridos de venda.
Do cimento às coleiras
Um dos exemplos mais recentes desse movimento é o da Leroy Merlin, rede varejista de materiais de construção, que anunciou recentemente sua entrada no mercado pet com investimento inicial de R$ 1,5 milhão.
O projeto começou em cinco lojas do estado de São Paulo - Tietê, Morumbi, Ricardo Jafet, Raposo Tavares e Campinas Dom Pedro. A nova categoria inclui itens de cuidados, higiene, transporte, mobiliário, alimentação e acessórios - como camas, escadas, coleiras, brinquedos, comedouros, tapetes higiênicos, rações e petiscos.
A expectativa é atingir R$ 9 milhões em faturamento no primeiro ano das lojas-piloto, podendo alcançar R$ 81 milhões quando a operação for ampliada para todo o país. Segundo a empresa, o projeto ficará em fase de teste por seis meses e, após a avaliação dos resultados, poderá ser estendido.
José Luis Estivill, diretor-central de Oferta e Produto da Leroy Merlin, explica que a decisão de incluir a categoria no portfólio está diretamente relacionada à conveniência e ao novo perfil de consumo do lar.
"O objetivo da companhia é facilitar a jornada do nosso consumidor, oferecendo em um único lugar tudo o que ele precisa para o seu lar, incluindo cuidados com os animais de estimação, que hoje são parte da família brasileira e uma demanda crescente do mercado", diz. “Para isso, selecionamos produtos saudáveis para os pets, entre eles, petiscos com opções 100% naturais, antialérgicas e que acompanham a rotina, unindo praticidade, qualidade e bem-estar. Temos muito a agregar ao trazer em um único lugar tudo o que eles precisam”, afirma Estivill.
Dados da Associação Paulista de Supermercados (Apas) mostram que consumidores ‘pais de pet’ chegam a gastar até 40% a mais nos supermercados, evidenciando a força da categoria na decisão de compra.
Mercado internacional
O movimento não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, redes de construção e supermercados também estão ampliando sua presença no setor pet. A Lowe’s, tradicional varejista de materiais de construção, tem uma parceria com a Petco para oferecer produtos e serviços para pets em suas lojas. O projeto piloto começou em fevereiro de 2022, no Texas, e foi expandido para quase 300 lojas até o final de 2023.
As lojas participantes oferecem uma variedade de produtos, incluindo alimentos, brinquedos, soluções contra pulgas e carrapatos, além de marcas próprias da Petco. Algumas unidades também oferecem serviços veterinários e de cuidados para animais.
Já a Tractor Supply Company, uma das principais concorrentes da Lowe’s no setor de materiais de construção e estilo de vida rural, está ampliando significativamente sua presença no mercado pet. Além de vender produtos para animais em suas lojas principais, a empresa possui uma rede especializada chamada Petsense by Tractor Supply, dedicada exclusivamente a produtos e serviços para pets. A empresa anunciou planos de abrir 90 novas lojas até o final de 2025, incluindo 10 novas unidades da Petsense.
Outro exemplo dos EUA é o da cadeia de supermercados Kroger, que ampliou sua linha própria “Abound” com novas opções de rações e petiscos para cães e gatos, reforçando a aposta em produtos de marca própria com maior margem.
Moda
Outra empresa brasileira que não é do ramo, mas que aposta nesta tendência, é a Calçados Bibi. A marca do varejo infantil lançou a linha Bibi Pets, uma coleção de peitorais de passeio que alia conforto, estilo e funcionalidade.
Para Camila Kohlrausch, diretora de Marca e Varejo da Bibi, o objetivo da companhia é atender às necessidades do mercado e proporcionar momentos únicos entre crianças e seus animais de estimação. “A conexão emocional que os pequenos têm com os bichinhos, muitas vezes considerados seus primeiros amigos, foi um dos pilares que motivaram esse lançamento”, afirma.
Como resume Eduardo Yamashita, o segredo está no equilíbrio entre inovação e coerência. “Buscar novas avenidas de crescimento é essencial, mas o sucesso depende de manter coerência estratégica e excelência na execução. O mercado pet oferece essa chance - desde que seja encarado como uma expansão consistente, não apenas uma moda.”
A ampliação do interesse de empresas de diferentes portes e segmentos reforça também a competitividade do setor. A Petz - maior rede de lojas do segmento, que possui 260 unidades em cinco regiões brasileiras, comentou esse movimento de mercado por meio de nota.
"Caracterizado por uma concorrência qualificada e combativa, o varejo pet é um mercado altamente pulverizado e fragmentado. Diante da tendência de humanização dos animais e inovações no cuidado dos pets, o segmento tem atraído diversos novos players que se juntam às grandes redes, pequenas lojas de bairro, marketplaces e atacarejos para reforçar ainda mais a competitividade."
IMAGEM: Leroy Merlin/Divulgação

