Hospital veterinário investe em parcerias para abrir 12 novas unidades até 2027
Autointitulado “Einstein para pets”, o VFP cresce em cidades do interior de São Paulo e Minas por meio do aporte de investidores-sócios. Empresa planeja faturar R$ 35 milhões em 2026 e saltar para R$ 70 milhões no ano seguinte

O segmento de serviços veterinários, que engloba clínicas e hospitais, movimentou R$ 13,6 bilhões em 2025, representando 17,5% do faturamento total do setor pet, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (Abempet).
Mesmo com crescimento sólido, esse segmento ainda enfrenta problemas para se organizar. De um lado, tutores têm dificuldades para encontrar clínicas veterinárias que diagnostiquem doenças graves; de outro, veterinários temem perder clientes ao encaminhá-los a grandes hospitais.
Atento a essas dificuldades - e no crescimento dos serviços pet -, João Rios, ao lado de seu sócio Alan Mora, criou o Hospital Veterinário VFP (Vet for Pet), que, segundo ele, busca ser o "Einstein para pets”, com equipamentos avançados, como ressonância magnética, tomografia, arco cirúrgico para intervenções ortopédicas e equipamentos para medir o nível de contratilidade do coração em leitos de UTI.
A aposta deu certo. A empresa, avaliada em R$ 11 milhões em 2020, hoje tem valuation de R$ 105 milhões. Com um modelo de negócio B2B2C (Business-to-Business-to-Consumer), o VFP deve faturar R$ 35 milhões em 2026 e acima de R$ 70 milhões em 2027. O foco do negócio são cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais, onde existe menos competitividade.
O VFP busca resolver uma dor vivenciada por muitos veterinários que, apesar de possuírem clínicas, não dispõem de equipamentos para diagnóstico devido ao grande investimento necessário. A proposta do negócio é oferecer serviços de diagnóstico ao médico veterinário parceiro, que encaminha o animal para o hospital, e todo o tratamento e gastos são tratados diretamente com o cliente. Após os cuidados avançados, o paciente volta a ser atendido pelo veterinário que o encaminhou.
“Até recentemente, os veterinários temiam encaminhar o paciente para o hospital especializado com receio de perder o cliente. Havia uma falha na comunicação; não havia multidisciplinaridade. Por isso, nosso core business é voltado ao médico veterinário”, diz Rios.
O modelo funciona de forma semelhante ao atendimento com humanos, que recebem tratamento básico na clínica e, caso seja necessário um tratamento avançado, são encaminhados para o hospital. Esse tratamento pode ser realizado tanto no particular quanto pelo convênio médico do VFP.
Além disso, os médicos veterinários parceiros da empresa têm suas clínicas indicadas no convênio, contribuindo com a cadeia de serviços. Um dos principais diferenciais do negócio, segundo Rios, é que os atendimentos são realizados apenas via encaminhamento do veterinário.
Com quatro unidades - em Ribeirão Preto (SP), Araraquara (SP), São José dos Campos (SP) e Uberlândia (MG) -, os hospitais VFP recebem cerca de 30 pacientes por dia para atendimentos de alta complexidade. Outras cinco unidades estão em construção. O objetivo, segundo Rios, é chegar a 16 hospitais veterinários até 2027. “Nossa maior cidade será Campinas (SP), por ser um crescimento seguro”, diz.
UTI do VFP é equipada com aparelhos modernos capazes de realizar diagnósticos e intervenções precisas
Rios destaca o investimento feito em equipamentos de ponta. Por exemplo, as unidades podem realizar cirurgia ortopédica com arco cirúrgico, que permite ao profissional enxergar milimetricamente onde é preciso inserir o pino no osso do paciente, utilizando tecnologia de raio-X em tempo real.
“Hoje, nos leitos de UTI, conseguimos medir o nível de contratilidade do coração do paciente, administrando exatamente o medicamento que ele precisa. Isso é algo que apenas a UTI do Einstein faz”, diz.
Joint venture impulsiona expansão
De 2023 a 2025, o VFP observou sua receita triplicar, de R$ 400 mil para R$ 1,2 milhão. Esse crescimento está atrelado também ao modelo de negócio, que busca expandir por joint venture.
Rios explica que a decisão de adotar esse modelo veio por se tratar de um negócio que demanda alto investimento e possui administração complexa, por envolver unidades 24 horas e com mais de 60 funcionários. “Pensamos em expandir pelo modelo do franchising, mas nosso negócio não era muito conhecido e exigia grande investimento”, diz Rios.
No modelo societário adotado, os fundadores ficam com 51% da participação, assumindo a consolidação do balanço contábil da operação e sendo responsáveis pela gestão das unidades. Os sócios-investidores participam do negócio aportando recursos para a implantação de cada hospital, podendo haver um ou mais investidores por unidade.
O VFP utiliza também o modelo de locação Built to Suit (BTS), em que a locação imobiliária é realizada a longo prazo - de 15 a 20 anos - e o imóvel é projetado com as características necessárias para atender às necessidades do inquilino. Apesar de o preço do aluguel ser maior, a vantagem desse modelo é que o valor do investimento diminui, já que é revertido no aluguel.
“Por exemplo, o dono do imóvel tem um barracão que aluga por R$ 30 mil. Se ele investe R$ 1 milhão para deixar o imóvel no padrão VFP, ele vai alugar esse imóvel por R$ 40 mil”, explica Rios, que diz que, dessa forma, a empresa diminuiu seu capex (capital investido na aquisição) e aumentou a rentabilidade do imóvel.
Apesar de os serviços de atendimento de saúde para animais de estimação estarem crescendo no Brasil, com alguns grandes grupos como Petlove, Pet Care e outros mais regionais, como Amicão, Rios diz que ainda há muita informalidade no setor. "Há um mercado muito grande para explorar.”
Com plano de saúde a partir de R$ 49,90, um dos objetivos da empresa é democratizar esse mercado, fornecendo acesso ao público das classes B e C.
Segundo Rios, o segmento de saúde veterinária ainda não está consolidado, o que gera um ambiente propício para fusões e aquisições. “Nós estamos em uma rodada de negócios para captar R$ 15 milhões, vendendo pouco mais de 10% para expandirmos”, diz.
Maior longevidade dos animais tem levado cada vez mais tutores a buscar serviços especializados
Crescimento do setor abre espaço para hospitais
A maior longevidade dos animais de estimação, aliada ao aumento da conscientização sobre saúde preventiva, tem levado cada vez mais tutores a buscar serviços e produtos especializados, como hospitais veterinários. No entanto, fatores como a distribuição geográfica desigual dessas estruturas e a alta carga tributária limitam o ritmo de crescimento do setor.
“A Abempet avalia que o mercado tem enorme potencial de expansão, mas isso depende de três fatores fundamentais: a redução da carga tributária para tornar os serviços mais acessíveis, a expansão geográfica dos hospitais especializados e o desenvolvimento de modelos de negócio que ampliem o acesso, como planos de saúde pet e hospitais populares com preços diferenciados”, afirma José Edson Galvão de França, presidente do Conselho Gestor da Abempet.
Segundo França, embora a reforma tributária possa reduzir em 30% os encargos incidentes sobre serviços veterinários e planos de saúde pet, a medida ainda é considerada insuficiente quando comparada à realidade de outros países.
“Os planos de saúde pet estão em crescimento e podem ajudar a democratizar o acesso a serviços especializados. Ao mesmo tempo, serviços que ofereçam conveniência e bem-estar para os animais também ganham espaço, como creches, hotéis especializados e transporte para consultas”, diz.
Apesar de ainda existir um número maior de clínicas veterinárias do que de hospitais, França explica que essa é uma relação comum no desenvolvimento de qualquer sistema de saúde. No entanto, ele ressalta que a evolução desse segmento precisa ocorrer em um ritmo mais acelerado. O alto investimento necessário e a complexidade operacional dos hospitais ainda representam barreiras para a expansão desse tipo de estrutura.
“Vale destacar que já existe no Brasil, por exemplo, a Associação Brasileira de Hospitais Veterinários (ABHV), criada justamente para estabelecer padrões de referência para essas estruturas clínicas e hospitalares e promover uma medicina veterinária de alto nível. Também é preciso considerar que a demanda tende a ser concentrada: hospitais veterinários costumam se instalar em grandes centros urbanos, onde há volume populacional suficiente para justificar o investimento”, afirma.
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IMAGENS: VFP/divulgação
