Lula está agora mais encrencado

Depoimento em delação premiada de Nestor Cerveró implica ex-presidente em empréstimo para o pagamento de chantagista

João Batista Natali
12/Jan/2016
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Luís Inácio Lula da Silva está encrencado.

Nesta terça-feira (12/01), a Folha de S. Paulo e o Valor Econômico relatam que, em delação premiada, o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró implicou diretamente o ex-presidente num empréstimo fictício para a compra do silêncio de um empresário de Santo André (SP), que tentava chantageá-lo.

O episódio já era conhecido dos responsáveis pela Operação Lava Jato. Em 2004, o fazendeiro José Carlos Bumlai – amigo do ex-presidente, preso desde 2015 – obteve do grupo Schahin um empréstimo de R$ 12 milhões.

A operação foi fechada pelo banco do grupo, que anos depois, por meio de uma empresa coligada, obteve da Petrobras um contrato de US$ 1,6 bilhão para o fornecimento de um navio-sonda. Em troca do contrato, o empréstimo foi considerado quitado.

A novidade trazida agora por Cerveró é de que Lula participou da operação e que, diante do êxito dela, nomeou-o para a diretoria internacional da Petrobras, onde ficou até 2008, sendo depois deslocado para a diretoria financeira da BR Distribuidora.

As duas promoções, disse o ex-diretor, foram a prova de que ele desfrutava de “um sentimento de gratidão dentro do PT”.

Em novembro último, o empresário Salim Schahin já havia confirmado a operação em delação premiada. No mês seguinte, em depoimento à Justiça Federal, o próprio Bumlai relatara a história, sem, no entanto, situar Lula como o operador direto.

Em dezembro de 2012 o mesmo episódio foi relatado pelo empresário Marcos Valério, condenado a 37 anos de prisão por seu envolvimento no Mensalão.

Valério – que agora tenta mais uma vez negociar uma delação premiada que reduza sua pena ou alivie o regime fechado de sua prisão – forneceu naquela época uma informação altamente comprometedora.

Segundo ele, o então presidente Lula, por intermédio de seu homem de confiança Paulo Okamotto, comprou por R$ 6 milhões o silêncio de um publicitário que disse ter provas para implicar o próprio presidente e seu assessor Gilberto de Carvalho no episódio que terminou com o assassinato, em janeiro de 2002, do então prefeito petista de Santo André, Celso Daniel.

O então prefeito teria reagido a um esquema de extorsão praticado sobre empresas que atuavam na região do ABC paulista, em benefício de personagens bem situados no Planalto.

Por mais que o PT e a polícia civil tenham concluído que a morte de Celso Daniel não passou de “crime comum”, ela gerou uma série de acontecimentos suspeitos.

Apareceram mortos o médico legista que periciou na época o corpo do prefeito e mais seis pessoas ligadas direta ou indiretamente ao caso, entre elas o garçom que serviu Celso Daniel pouco antes de seu sequestro, diante de num restaurante da alameda Santos, em São Paulo.

Bem mais recentemente, e sem que se saiba o que lhe perguntaram e o que ele respondeu, Lula prestou depoimentos à Polícia Federal em 17 de dezembro e em 6 de janeiro. Em nenhuma das duas ocasiões ele foi ouvido como réu. Mas sua condição se tornou delicada em razão de dois conjuntos de fatores.

O primeiro deles é a atuação de dois de seus filhos, um deles suspeito pela Operação Zelotes de ter praticado tráfico de influência para a edição de medida provisória com benefícios fiscais a montadoras.

O segundo conjunto de fatores está na relação do ex-presidente com a empreiteira Odebrecht e as conferências – sobre as quais não há evidências materiais – que ela teria patrocinado. Caso Lula não tenha feito essas palestras, ele teria sido remunerado como lobista. Ao todo, desde que deixou o Planalto, Lula recebeu por conferências R$ 27 milhões.

São igualmente curiosas as ligações de Lula com uma outra empreiteira que investiu num tríplex de propriedade da família, no Guarujá, e o caso de um num sítio em nome de terceiros e que o ex-presidente utiliza nas proximidades de São Paulo, segundo relato recente da revista Veja.

Corre paralelamente, e de modo muito discreto, a investigação por tráfico de influência contra Rosemary Noronha, ex-chefe do gabinete da Presidência em São Paulo, considerada amiga íntima de Lula e destituída em 2012. Ela foi denunciada em maio de 2014 por improbidade administrativa e é assistida por um grupo numeroso de reputados advogados.

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