Mercado aposta que Dilma está agora no fim

Posse de Lula na Casa Civil, suspensa por juiz federal, não daria ao governo fôlego político para evitar previsões pessimistas

João Batista Natali
17/Mar/2016
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Mercado aposta que Dilma está agora no fim

Em meio uma sucessão vertiginosa de episódios políticos desfavoráveis à presidente da República, a Lula e ao PT, uma das grandes certezas desta quinta-feira (17/03) foi a euforia do mercado.

Se visto como um termômetro, ele sinaliza que cresceu sensivelmente a possibilidade de Dilma Rousseff deixar em breve o Planalto. Um novo governo não tiraria agora o país da recessão, mas indicaria um caminho seguro para que isso aconteça a médio prazo.

Pouco depois das 14h o índice Bovespa subia 6,17%, contrastando com as quedas de segunda e terça-feira, que foram um indicador de pessimismo sobre o desfecho rápido da crise. O dólar caía 3,27%.

No fechamernto, o índice havia saltado quase 7% --e atingido o nível mais alto desde 22 de julho-- e o dólar teve a maior queda percentual diária em quatro meses,) vendido a R$ 3,653, com queda de 2,29% (R$ 0,086). O Ibovespa, índice da Bolsa de São Paulo, fechou o dia com alta de 6,6%, aos 50.914 pontos.

As ações de bancos e das estatais registravam altas excepcionais. Eram 10,1% do Bradesco, 9,2% do Itaú, 14% do Banco do Brasil e 11,2% da Petrobras.

O presidente do Itaú, Roberto Setúbal, segundo o Valor Econômico, abriu mão da tese de que Dilma deveria continuar no governo e passou a defender o afastamento dela.

Entidades empresariais aderiram em peso ao impeachment, casos da Fiesp e Ciesp, que reúnem as indústrias paulistas ou ao apelo de "renúncia já", a exemplo da Facesp, que agrupa 420 associações comerciais do Estado, inclusive a Associação Comercial de São Paulo, que publica o Diário do Comércio. As três representam milhares de empresas.

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Consultorias de risco que fornecem previsões políticas a grandes empresas acreditam que a possibilidade de Dilma deixar o governo é superior a 70% e dizem que isso pode ocorrer em torno de 30 dias.

Enquanto isso, o ex-presidente Lula tomou posse como ministro-chefe da Casa Civil no final da manhã, mas minutos depois ele era suspenso do cargo pelo juiz federal Itabiga Cata Preto Neto, da primeira instância da Justiça Federal de Brasília.

A liminar que ele concedeu argumenta que ele entrou no governo para escapar da Justiça. Mas ela dificilmente permanecerá de pé. Já há recurso da Advocacia Geral da União.

Outra petição contra a posse de Lula estava na mesa do ministro do STF Tori Zavascki. A oposição espera que os ministros fiquem zangados com a afirmação de Lula de que o tribunal “está acovardado” diante da Lava Jato.

A indicação de Lula para a Casa Civil, anunciada na quarta, coincidiu com a divulgação de gravações que o colocavam, ao lado de Dilma, sob a forte suspeita de obstrução da Justiça. Ficou também patente que Lula aceitou voltar ao governo para obter foro especial.

As gravações são também muito ruins para Dilma. Rodrigo Janot, o procurador geral da República que se encontra em Berna, na Suíça, deixou claro que poderá abrir procedimento de investigação contra ela por obstruir a Justiça ao levar Lula ao Ministério.

“Ser ministro não blinda ninguém”, disse ele. Afirmou que a Procuradoria manterá o mesmo ímpeto investigativo da Lava Jato.

Outro efeito da divulgação das gravações foi despertar novamente as ruas, que já haviam assistido, no domingo, manifestações em todo o país com 3,2 milhões de pessoas a favor do impeachment.

Nesta quinta eram dois os focos fortes de manifestantes. O primeiro, ao redor do Planalto, em Brasília, com 3 mil favoráveis ao impeachment e perto de 300 de apoio ao governo.

Em São Paulo, no entanto, instaurou-se a partir de 20h30 da quarta-feira um clima de vigília cívica. Manifestantes pró-impeachment ocuparam a avenida Paulista, nela passaram a noite e ainda a bloqueavam – seriam em torno de 50 mil – durante todo o dia desta quinta-feira (17/03).

As manifestações governistas permanecem comparativamente tímidas. Na quarta, um ato pro-Dilma na PUC-SP, no bairro de Perdizes, reuniu apenas em torno de mil simpatizantes do governo.

Nesta sexta-feira os governistas marcaram manifestação, também na avenida Paulista, e dizem poder reunir até 200 mil pessoas. O número parece irrealista.

O fato é que a não-posse de Lula no governo e os atos públicos eclipsaram aquilo que é institucionalmente o mais relevante no roteiro para o afastamento de Dilma: a instalação, pela Câmara dos Deputados, da comissão que cuidará do impeachment.

Nesse ponto, as notícias são também muito ruins para o governo. Apesar da tentativa de contratar Lula como bombeiro para pôr fim ao fogo da crise, Dilma poderá perder bem mais que o apoio do PMDB.

Deve desembarcar proximamente do governo o PRB (partido da Igreja Universal), enquanto PSD e PTB discutiriam o mesmo roteiro.

Lula tem o traquejo político para reverter essa tendência. Mas falta a ele munição (cargos no governo com bom orçamento). Os partidos da oposição estão agora excepcionalmente otimistas.

Por fim, Michel Temer, o vice que assumiria o lugar de Dilma em caso de impeachment ou renúncia, não esteve na posse de Lula e cancelou um encontro que teria com ele nesta quinta em São Paulo.

Os dois voltarão provavelmente a se encontrar. Mas na próxima semana de uma maneira formal, na residência oficial do vice-presidente, em Brasília.

A ausência de Temer foi uma demonstração de mau humor com o deputado peemedebista Mauro Lopes, que, ao contrário do que decidiu no sábado seu partido, aceitou de Dilma a Secretaria da Aviação Civil.

Mas o vice-presidente procura se resguardar. Não quer ser cobrado em público por algum gesto de solidariedade a Dilma, o que o indisporia com os manifestantes das ruas e com os deputados e senadores que já atapetam o caminho dele na direção do Planalto.

Também faltou à posse de Lula o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Ele já foi o mais confiável aliado de Dilma no Congresso. Mas mudou de barco na quarta-feira da semana passada (09/03), ao comparecer a um jantar de senadores no qual seu partido passou a negociar com o PSDB sobre a composição do futuro governo.

FOTO: José Cruz/Agência Basil

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