Muito além do turismo: Miami autônoma é vitrine de negócios de bilhões de dólares
Transporte de passageiros sem motorista, robôs de delivery de comida nas ruas como o Serve Robotics (na foto), drones de entrega de supermercado, ronda policial: tecnologia autônoma está por todos os lados, e mira além dos Estados Unidos

Pare. Olhe. Preste atenção. Se estiver andando por áreas centrais de Miami (Flórida), há grande chance de cruzar com um dos milhares de robôs de delivery de restaurantes. Se for atravessar a rua, pode ser que um veículo elétrico autônomo pare para que você possa fazer a travessia. Olhe para o alto, e poderá ver um drone levando uma compra de supermercado.
A tecnologia de transporte autônomo, seja de pessoas, comida ou demais mercadorias, é uma realidade que movimenta bilhões de dólares, com estimativas impressionantes de crescimento nos próximos anos, dentro e fora dos Estados Unidos.
A escolha das cidades iniciais para as operações dessas tecnologias não é apenas uma questão de infraestrutura. É uma estratégia de negócios que está dando muito certo. Miami é um exemplo disso. A região, que já é um grande polo turístico, ganha ainda mais visitantes ávidos por “experimentar o futuro”. As empresas que oferecem essas inovações, por sua vez, impulsionam seus planos de crescimento com a visibilidade ampliada que recebem nesses locais.
A Waymo, que se originou no Google e também pertence ao grupo Alphabet, é a novidade mais recente. Ela passou a operar seus veículos elétricos para transporte de passageiros sem motorista na cidade em janeiro deste ano. A princípio, o serviço de “robôs-táxi” funciona em um raio de 155 quilômetros quadrados em regiões centrais, incluindo áreas nobres como Design District, Brickell e Coral Gabels, entre outras.
Segundo a companhia, a atuação será estendida até o aeroporto de Miami, de olho no público formado por turistas. No primeiro mês de operação, cerca de 10 mil pessoas baixaram o aplicativo da empresa na cidade e estão aptas a usar o serviço.
No início de fevereiro, a Waymo anunciou o aporte US$ 16 bilhões obtidos em uma rodada de investimentos. Com os novos recursos, a companhia passa a ser avaliada em US$ 126 bilhões. Além da própria Alphabet, estão liderando os novos investimentos do projeto nomes como Dragoneer Investment Group, DST Global e Sequoia Capital, Andreessen Horowitz e Mubadala Capital, Bessemer Venture Partners, Silver Lake, Tiger Global e T. Rowe Price, entre outros.
“Nosso foco agora é a escala global, levando a segurança e a magia do Waymo Driver para ainda mais cidades este ano nos Estados Unidos e internacionalmente. Do nosso recente lançamento em Miami aos novos mercados que se aproximam, estamos expandindo a frota e nossa equipe de classe mundial para atender à crescente demanda global por mobilidade autônoma”, afirmou, durante o anúncio do aporte, Tekedra Mawakan, co-CEO da empresa.
A companhia já operava em outras cinco cidades anteriormente, em um processo que se originou com testes há alguns anos, foi ganhando capacidade de escala e estatísticas de segurança com o tempo, e preparando o grande salto anunciado agora. Além da entrada em mais de 20 cidades nos EUA, a expansão internacional deve começar por Londres (no Reino Unido) e Tóquio (Japão).
“Como líder em tecnologia no mercado de transporte, que movimenta trilhões de dólares, a Waymo ultrapassou os marcos da pesquisa para alcançar a excelência operacional, triplicando suas viagens semanais pagas em apenas um ano, mantendo a satisfação do cliente”, declarou Konstantine Buhler, sócio da Sequoia.
Atualmente, considerando Miami e as cinco cidades que operava anteriormente somadas, a Waymo faz 4 00 mil viagens, em média, por semana. Desde que entrou em operação, já foram mais de 20 milhões de viagens no total.
A companhia não é a única a operar o transporte dos “robôs-táxi”, mas a que parece estar se saindo melhor, com resultados de segurança consistentes, presença mais agressiva e a primeira internacional. A Zoox, da Amazon, atua apenas em Las Vegas (Nevada) e Austin (Texas), e a Tesla pretende lançar o serviço em breve. Na China também há empresas similares, mas limitadas ao mercado local.
De comida a compras de supermercado
Se a Waymo parece, por enquanto, reinar no transporte de pessoas, há uma guerra sendo travada no mercado de delivery autônomo de comida e mercadorias. E Miami, com seu poder de exposição, é o campo de batalha. A entrega feita pelos “robozinhos” de delivery não é exatamente uma novidade, já que os primeiros começaram a circular ainda em 2021. Mas o número de players no mercado e a quantidade de entregas biu tanto que se tornou parte do dia a dia dos moradores – e uma atração frequente para registro de turistas.
O setor é impulsionado pelo grande volume de pedidos em aplicativos como UberEats e DoorDash. Cpiwibot estão entre as primeiras empresas a colocar seus equipamentos para atuar na área. A canadense Tiny Mile usou a movimentada Miami para testar seus veículos em 2024 e, em 2025, foi a vez da Serve Robotics, que já atuava em outras cidades, entrar para valer na disputa.
Quem se destacar tem muito a ganhar. Em jogo está, literalmente, um mercado bilionário. De acordo com estimativas apresentadas pela Serve Robotics em material a investidores, feitas com base em estudo da Ark Invest – Big Ideas 2025, o segmento de delivery por robôs e drones como um todo deve movimentar US$ 450 bilhões até 2030.
“Expandir para a região metropolitana de Miami é um passo importante em nossa missão de tornar as entregas autônomas e sustentáveis uma realidade em todos os EUA”, disse, ao lançar o serviço, Ali Kashani, CEO e cofundador da Serve Robotics. “Ao levar entregas robóticas para comunidades inovadoras e progressistas, estamos ajudando a reduzir as emissões e o congestionamento do trânsito, ao mesmo tempo que apoiamos restaurantes locais e aprimoramos a experiência do cliente.”
A empresa anunciou, em dezembro passado, ter atingido a marca de 2 mil robôs de entrega, registrando um crescimento de 20 vezes na frota em um ano, com atuação em sete mercados-chave nos Estados Unidos, incluindo Miami.
"À medida que continuamos aumentando nossa frota, também estamos expandindo os casos de uso para nossa tecnologia. A oportunidade de mercado para entregas autônomas e elétricas por robôs em calçadas é enorme e, no momento, estamos vendo apenas a ponta do iceberg”, revelou Kashani.
Supermercados, lojas de conveniência, encomendas pequenas e logística reversa são áreas em que a tecnologia autônoma se encaixa perfeitamente. "Em qualquer lugar onde haja entregas frequentes de curta distância, a tecnologia autônoma pode gerar valor real”, completa o executivo.
Congestionamento de robôs nas ruas?
A maioria dos robôs de entrega opera em um raio geográfico pequeno, geralmente transita pelas calçadas e em velocidade reduzida, mas a quantidade elevada de unidades deles já causa situações inesperadas. Quem flagra uma delas com o celular em mãos, viraliza. Mais um motivo de atração para visitantes.
Ficou famoso o vídeo em que um desses entregadores autônomos, rodando pelo meio da rua, causou um enorme congestionamento e entrou bem na frente de um carro dos bombeiros. Bastante acessado também foi um outro registro, o de um equipamento autônomo desviando de uma pessoa dormindo na rua. Houve, ainda, o debate na imprensa sobre o robô desavisado da Coco Robotics que entrou na linha de um trem e foi atropelado.
Preocupa, ainda, o risco desses equipamentos caírem de cima de pontes que se elevam sobre os muitos canais de Miami para a passagem de barcos. A população se divide entre os que apreciam o sistema, pela modernidade e sustentabilidade, e os que torcem o nariz, por conta da substituição de entregadores humanos e os novos problemas trazidos (como os acidentes). Para o bem, ou para o mal, essa visibilidade ajuda nos negócios.
Com as calçadas lotadas, a entrega autônoma começa também a tomar os céus. O que começou em 2021 de maneira experimental pelo Walmart e o serviço de entregas por drones do Google, o Wing, avança exponencialmente. De apenas duas cidades contempladas, passou para 120 no ano passado.
Questões de regulamentação aérea foram complicantes iniciais para o sistema, atrasando a operação, mas elas vêm sendo vencidas. Em janeiro, durante o encontro anual da National Retail Federation (NRF), o CEO do Walmart declarou a expansão para mais 150 locais até 2027, incluindo Miami (Flórida) e Los Angeles (Califórnia), somando 270 cidades.
Os drones, que operam de forma autônoma, levam pacotes pequenos, em distâncias curtas, com entregas feitas em até 30 minutos após o pedido. No entanto, de acordo com a varejista, metade das entregas ocorre em prazo mais curto, de até 20 minutos. A Amazon também opera entregas por drones, mas em abrangência geográfica reduzida nos EUA.
Inovações que vão se somando
Somam-se a essas inovações recentes de Miami, outras iniciativas que, além de tornarem a vida na cidade mais tecnológica, ajudam a atrair os milhões de turistas curiosos para experimentar o futuro. O primeiro carro de polícia autônomo do país foi apresentado na cidade em outubro do ano passado, o zoológico já mantém um ônibus elétrico autônomo que transporta seus visitantes, e não é difícil encontrar os garçons-robô em restaurantes por lá já há vários anos.
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IMAGENS: Divulgação
