Nos corredores de Brasília | Lula respira nas pesquisas, mas passa sufoco no Congresso

Desde a derrota com Jorge Messias, o presidente entendeu que não controla a pauta do Senado. Agora vê a PEC da 6x1 encalhar e pautas que considera ‘bombas’, como o socorro aos produtores rurais, ganharem terreno

Redação DC - Brasília
10/Jun/2026
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Nos corredores de Brasília | Lula respira nas pesquisas, mas passa sufoco no Congresso

Fôlego curto

A nova Quaest/CNN deu algum alívio ao Planalto, mas não tirou o governo da defensiva. Lula abriu 44% a 38% sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno, revertendo o empate técnico de maio, quando marcava 42% a 41%. No primeiro turno, o presidente também lidera, com 39% contra 29% do senador. A pesquisa ouviu 2.004 eleitores entre 5 e 8 de junho, com margem de dois pontos. No Congresso, o dado é lido com reserva: Lula respira melhor na disputa eleitoral, mas segue sem ar na relação com a base.

STF no circuito

Em publicação nas redes sociais nesta quarta-feira (10), o ministro Gilmar Mendes criticou a aprovação, pelo Congresso, de despesas sem avaliação adequada de impacto financeiro e disse ser necessário evitar a criação de “despesas casuísticas” que desrespeitem regras fiscais previstas na Constituição. A mensagem foi recebida no parlamento como recado direto de que a Corte pode decidir o jogo fiscal se o Legislativo aprovar pautas de alto impacto.

Senado sem tutela

A derrota de Jorge Messias no Senado ainda orienta a relação entre o Planalto e a Casa Alta. A rejeição inédita em mais de um século deixou claro que Lula já não controla a pauta nem mesmo quando o Supremo está no centro da negociação. Desde então, cada votação virou teste de autoridade para o governo, em meio ao mau humor explícito de senadores com a articulação política do governo.

Socorro aos produtores

O PL 5.122/2023, que trata do refinanciamento das dívidas rurais, chegou ao plenário do Senado como uma das maiores pressões setoriais sobre o governo. O texto prevê uma linha especial com juros de 3,5% a 7,5% ao ano e foi aprovada, mesmo sem acordo com a equipe econômica. No Senado, a disputa deixou de ser apenas fiscal: virou teste de força entre o agro, o governo e Davi Alcolumbre.

Acordo distante

A reunião que aconteceu minutos antes da votação com o ministro Dario Durigan (Fazenda) não destravou o PL 5.122/2023. O relator do texto na CAE, Renan Calheiros saiu dizendo que o ministro é “receptivo”, mas admitiu que “não tem acordo”. O encontro reuniu também Tereza Cristina, vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária no Senado, Jacques Wagner e o governador Eduardo Leite (RS). O ponto mais sensível é o alcance do texto: os produtores querem preservar uma solução ampla antes do Plano Safra 26/27 e a Fazenda tenta restringir o impacto fiscal de uma proposta que envolve R$ 170 bilhões em dívidas rurais.

6x1 no Senado

A PEC do fim da escala 6x1 entrou em semana decisiva no Senado, ainda sem rito pacificado. A pressão digital que ajudou a empurrar o tema na Câmara agora mira os senadores, mas, por enquanto, sem efeito prático. Mais uma vez, Alcolumbre desagradou o governo ao desmarcar de última hora reunião com o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Otto Alencar (PSD-BA), para discutir a tramitação da proposta. O cancelamento irritou o senador baiano que veio de Salvador a Brasília especialmente para o encontro.

Carne vira ativo político

O bloqueio da União Europeia a carnes e produtos de origem animal do Brasil entrou de vez no radar político. Ronaldo Caiado, Gilberto Kassab e Nelsinho Trad se reuniram com representantes europeus em Brasília para discutir a restrição, que passa a valer em setembro. A movimentação dá ao PSD uma vitrine sobre uma pauta sensível ao agro e expõe um flanco do governo na diplomacia comercial. Enquanto o Planalto tenta tratar o caso como questão técnica, a oposição e setores do Senado já exploram o episódio como sinal de fragilidade na defesa dos exportadores brasileiros.

Kassab em cálculo

No PSD, a eventual presença de Gilberto Kassab como vice de Ronaldo Caiado virou peça de contenção interna. A articulação tenta impedir que Caiado seja engolido por uma aliança mais ampla liderada pelo ex-governador de Minas Gerais e também pré-candidato à Presidência da República, Romeu Zema, enquanto Kassab mantém a candidatura viva e o partido com poder de barganha.

A conta vai chegar

A escalada dos gastos públicos em ano eleitoral traz temor ao próprio governo. Lula entrou no ano eleitoral disposto a trocar disciplina fiscal por sobrevivência política. O Orçamento de 2026 prevê R$ 6,5 trilhões em despesas e cerca de R$ 61 bilhões em emendas, enquanto a dívida pública segue em trajetória de alta. A crítica é que o governo vende pacotes de alívio como proteção social, mas a conta chega em juros, dólar, inflação e perda de confiança. Em Brasília, a pergunta deixou de ser se haverá gastança eleitoral e passou a ser quem será chamado a pagar depois da eleição.

Senado entra na jornada

Rogério Marinho (PL-RN) elevou o tom contra a PEC do fim da escala 6x1 e acusou o governo de tratar a pauta com “dificuldade técnica e cognitiva”. Autor da PEC do Trabalho Flexível, o líder da oposição no Senado tenta deslocar o debate do campo simbólico para o custo econômico da mudança. A estratégia é carimbar o texto aprovado na Câmara como inexequível e eleitoral, com risco de informalidade, passivo trabalhista e insegurança jurídica para pequenas e médias empresas. No Senado, Marinho defende que as duas propostas tramitem juntas, mas já trabalha com a hipótese de empurrar a discussão para depois das eleições.

 

IMAGEM: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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