O Brasil na lista de desejos do consumo de luxo
Para além das vitrines, a busca por autenticidade, turismo de saúde e experiências exclusivas impulsiona o país como destino emergente para o mercado de bens e serviços sofisticados

Se o mercado de luxo global enfrenta ventos contrários, o Brasil parece viver uma realidade paralela. A presença internacional no consumo de alto padrão brasileiro cresceu significativamente nos últimos anos e, segundo especialistas, o país se consolida como um hub regional de consumo sofisticado.
Em 2025, 9,3 milhões de estrangeiros visitaram o país, um crescimento de 37,1% em relação a 2024, segundo dados do Ministério do Turismo. Nesse mesmo período, os turistas internacionais deixaram um recorde de US$ 7,9 bilhões na economia brasileira (cerca de R$ 41,7 bilhões), de acordo com o Banco Central. E, em 2024, os estrangeiros representaram 23% dos hóspedes em hotéis de luxo no Brasil.
Embora os números mostrem que o setor de serviços seja a principal porta de entrada para o país nesse contexto, também é possível observar que, em 2024 e 2025, o mercado de bens de luxo (moda, joias, acessórios e cosméticos premium) sustentou um crescimento, mesmo em um cenário de instabilidade internacional.
A joalheria Tiffany&Co mantém lojas em quatro capitais, enquanto a grife japonesa Comme des Garçons elegeu o Brasil, no último ano, para ser sede da sua primeira loja na América Latina. Outras marcas premium contemporâneas, como Veja e Alo Yoga, também escolheram o país para expandir sua atuação. Por trás desses movimentos, há uma mensagem de que o consumidor brasileiro está mais exigente e aberto a experiências que unem exclusividade e identidade.
A segunda edição do estudo “A nova era de crescimento do mercado de luxo”, realizado pela Bain & Company, indica um salto de 26% nas vendas entre 2022 e 2024, frente a uma queda global de 1% em 2024. A mesma pesquisa mostra que, ao todo, os brasileiros movimentaram R$ 98 bilhões, considerando nove segmentos de luxo. A análise indica que, prioritariamente, os gastos refletem uma busca por patrimônio e estilo de vida, com três categorias empatadas na liderança: Moda e Itens Pessoais; Imóveis; e Automóveis - todos com R$ 21 bilhões.
Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, cerca de 25% das transações de imóveis de luxo em 2023 envolveram compradores internacionais, de acordo com um estudo da Bain & Company. Os principais compradores vêm dos Estados Unidos, Europa e Oriente Médio. No estado carioca, europeus e americanos chegam a representar 70% das vendas de imóveis de luxo em bairros como o Leblon.
Abaixo do topo, o setor de saúde também se destacou, com R$ 17,3 bilhões, seguido por aviação (R$ 6,5 bi) e arte/móveis (R$ 4,2 bi). A única nota dissonante no relatório foi o segmento de bebidas finas, que apresentou uma leve retração, de 1%, quando os valores são convertidos para dólares.
Os segmentos que mais aceleraram anualmente foram os de automóveis (18%), hospitalidade (16%) e saúde (15%). Em destaque, a saúde premium, ou "turismo de saúde", com hospitais de ponta, como o Sírio-Libanês e Albert Einstein, em São Paulo, atraindo estrangeiros que buscam procedimentos de alta complexidade com hotelaria de luxo integrada. Segundo a empresa de pesquisa em negócios Brain Inteligência Estratégica, esse nicho cresce de 15% a 25% por ano no país e deve movimentar cerca de U$ 13 bilhões até 2030.
Em algumas observações, o estudo aponta que, além do desejo por bens tangíveis, o consumidor de alta renda brasileiro está investindo pesado em serviços e experiências, consolidando uma maturidade que desafia a instabilidade econômica observada em outros mercados internacionais.
Brasileiros comprando em casa
Embora o Brasil ainda não seja um destino de compras como Miami ou Paris, Robson Maciel, diretor comercial da CS Global, empresa de mobilidade de alto padrão, diz que o país atrai marcas estrangeiras em algumas categorias específicas, que vão além do eixo Rio-São Paulo. Escolhas como a da Chanel Parfums & Beauté, que abriu um ponto físico em Porto Alegre, dedicado exclusivamente a produtos de beleza da grife, reforçam esse movimento de descentralização.
Pensando em potencialidades locais, ele lembra, por exemplo, que o Brasil é autoridade em pedras preciosas e, somente com exportação, faturou mais de R$ 7 bilhões em 2025. Esse segmento emprega diretamente e indiretamente cerca de 480 mil pessoas, segundo dados da Associação Brasileira de Rochas Naturais (Centrorochas). Por essa razão, as opções de joias atraem colecionadores que buscam design autoral e exclusividade com matéria-prima local.
A ampliação da rede de serviços e experiências oferecidas pelas marcas de alta joalheria internacional no Brasil também indica um avanço dos próprios brasileiros comprando em casa. Por essa razão, muitos nomes têm apostado em aberturas e renovação de lojas, eventos e relacionamento próximo à clientela.
Em comunicado recente, Anthony Ledru, CEO da Tiffany & Co, confirmou a tendência ao lembrar que a companhia passou a investir em eventos para convidados escolhidos à dedo no Brasil, em formatos e com sortimento da alta joalheria que não eram trazidos anteriormente ao país. O anúncio citava que "notou-se demanda de compra de primeira vez de alta joalheria - peças de US$ 150 mil e US$ 200 mil - que indicam uma evolução para o Brasil e significa que o país está se tornando um lugar onde se pode ter a oferta top."
Outro exemplo vem do grupo JHSF, gigante do setor de luxo e lifestyle na América Latina, que diversificou seus negócios em segmentos focados no cliente “triple A”, com uma oferta de serviços que envolve aeroporto executivo, shopping, hotéis, restaurantes, clubes e, principalmente, imóveis de alto padrão.
Somente as vendas em shoppings do grupo, no acumulado do ano de 2025, foram de R$ 4,7 bilhões, uma expansão de 12,5% em relação ao ano anterior. Um dos destaques do grupo, o Shopping Cidade Jardim, registrou alta de 16,1% e mantém ocupação quase total, de 99,3%, preparando-se para receber ampliações de grifes como Dior, Prada, Rolex e Chanel.
Nessa linha, Maciel aponta que, se antes o valor residia na posse e na padronização impecáveis, hoje, o ponteiro do luxo aponta para a autenticidade. E, nesse cenário, define que o Brasil emerge não apenas como um destino, mas como um provedor de experiências que os centros tradicionais da Europa e dos Estados Unidos já não conseguem replicar com a mesma intensidade.
Maciel diz que o interesse desse público migrou de apenas pontos turísticos para experiências gastronômicas exclusivas, como spas de bem-estar e destinos de refúgio natural (especialmente no Nordeste). Nesse sentido, ele aponta que o papel do concierge moderno evoluiu para a figura de alguém que consegue abrir portas invisíveis, ganhando o status de "gerentes de estilo de vida", que conseguem reservas impossíveis em restaurantes e espetáculos, ou acessos ainda mais específicos, como o ateliê fechado de um designer brasileiro, o jantar privado com um chef autoral ou uma imersão em comunidades artísticas.
O especialista diz haver um movimento crescente de busca por itens de colecionador, como capacetes de Ayrton Senna ou camisas de Pelé, e até a curadoria de brechós de altíssimo nível, onde o cliente busca a peça que carrega uma alma e uma história que o dinheiro comum não compra.
"Para o turista estrangeiro que já viu o mundo todo, o consumo de luxo no Brasil vai muito além das vitrines de grife, o interesse agora recai sobre o que não pode ser copiado", diz.
Em busca dessa autenticidade, o especialista revela que, recentemente, os Lençóis Maranhenses, em São Luís do Maranhão, consolidaram-se como um dos principais destinos de alto padrão do mundo. Trancoso, Fernando de Noronha e Gramado também despontam no serviço de concierge de alta complexidade, diz.
O estudo da Bain & Company aponta que hotéis localizados em meio à natureza registraram taxas de ocupação acima da média de outros empreendimentos. A procura por atividades de bem-estar é considerada elemento fundamental para 80% dos turistas de alta renda e são variantes do aumento de receita. São particularidades que, segundo o material, colaboraram para o gasto médio da diária saltar de R$ 2,1 mil para R$ 2,9 mil, um incremento de 19% ao ano no período analisado.
A demanda por logística invisível é outro padrão importante nesse tipo de atendimento, segundo Maciel. Ele cita que, no último réveillon em Carneiros, no Recife, por exemplo, a companhia atendeu uma operação que envolveu uma frota de dez veículos blindados que estava 24 horas à disposição de clientes internacionais.
"O pedido mais valioso hoje não é por um objeto específico, mas pelo silêncio operacional: faça acontecer sem que eu precise me preocupar."
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IMAGEM: Tiffany&co/divulgação
