Operação da PF impõe cerco a um dos filhos de Lula
Empresa de marketing esportivo de Luiz Cláudio seria fachada para lobby em favor de montadoras de automóvel

Nova etapa de operação da Polícia Federal compromete indiretamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e também atinge a reputação dos governos ligados ao Partido dos Trabalhadores (PT).
Como parte da Operação Zelotes, a PF apreendeu documentos no escritório da LFT Marketing Esportivo, de propriedade de Luiz Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente. O jornal O Estado de S. Paulo revelou que o empresário recebeu R$ 2,4 milhões para que fosse aprovada a MP 471, que prorrogou incentivos fiscais para montadoras de automóveis.
A operação não foi desencadeada apenas na empresa de Luiz Cláudio. Ela cumpre outros 32 mandados, seis deles de prisão preventiva e nove de condução coercitiva, em Brasília, São Paulo, Maranhão e Piauí, segundo a agência Estadão Conteúdo.
O advogado de Luiz Cláudio, Cristiano Zanin Martins, publicou nota em que qualificou a ação da Polícia Federal de "despropositada". A declaração dele está no site do PT. No site do Instituto Lula não há menção ao episódio.
Mas a Folha de S. Paulo cita conversas do ex-presidente em que ele responsabiliza Dilma Rousseff pelo comprometimento da imagem de seus familiares. Lula, em definitivo, não estava de bom humor nesta terça. Pesquisa Ibope revelou que 55% dos eleitores não votariam nele para presidente "de jeito nenhum", contra apenas 23% que o fariam.
O filho de Lula Luiz Cláudio disse, ao ser divulgado que ele recebera uma quantia desproporcional de dinheiro, que fora remuneração de um contrato de marketing esportivo, sobre o qual não forneceu mais informações, argumentando que eram questões sigilosas de sua empresa.
O irmão mais velho de Luís Cláudio, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, teve escritório no mesmo imóvel, em São Paulo, mas não está envolvido na operação. Segundo a revista Veja, no entanto, a mulher dele é a misteriosa nora do ex-presidente que recebeu de um lobista R$ 2 milhões para terminar de pagar um imóvel residencial.
Os parentes do ex-presidente são suspeitos de estarem envolvidos em irregularidades apuradas por duas operações da PF diferentes. Luís Cláudio está na mira da operação desencadeada em março para apurar irregularidades no Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), que faz parte do Ministério da Fazenda.
A esposa de Lulinha – a identidade dela não chegou a ser abertamente mencionada – aparece na Operação Lava Jato, que apura corrupção na Petrobras.
No caso da nora, ela foi mencionada durante a delação premiada de Fernando Soares, o “Fernando Baiano”, em meio a operação na qual teria atuado como intermediário o empresário José Carlos Bumlai, muito próximo de Lula.
Nenhum dos parentes de Lula foi indiciado em processo judicial. Mesmo assim, é inegável o desgaste político que esses episódios estão gerando. Lula teria há dias confidenciado sua revolta e desconforto com o vazamento de informações envolvendo seus familiares.
O ex-presidente teria se queixado à presidente Dilma Rousseff sobre o fato de o Ministério da Justiça ter “perdido o controle” sobre as ações da Polícia Federal, o que, de maneira indireta, abastece os argumentos da oposição no Congresso que é partidária do impeachment.
O fato de a PF ter desta vez chegado perto do ex-presidente também recoloca na ordem do dia o embate entre Lula e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, visto pelos lulistas como responsável pessoal por situações desagradáveis para o partido.
O próprio Lula é objeto de insinuações, como o fato de receber de uma empreiteira por palestras que, na realidade, serviam para acobertar um lobby pela obtenção de contratos externos, negociados em situação vantajosa, já que estariam acoplados os financiamentos do BNDES.
O ex-presidente teria sido também beneficiado pelo hoje extinto Bancoop – instituição financeira ligada ao braço sindical de seu partido – e pela construtora OAS na compra de um tríplex no município paulista do Guarujá.
CENÁRIO CONFUSO
Informações desfavoráveis a Lula permitem que a balança da crise política oscile desfavoravelmente ao PT, em meio ao impasse a que chegou o conflito entre o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e o Planalto, em torno do possível afastamento da presidente da República.
Nos últimos dez dias surgiram indícios incomprováveis sobre a existência de um acordo, pelo qual Cunha não colocaria o impeachment em votação, em troca da benevolência do PT na Comissão de Ética da Câmara, que poderia cassar seu mandato – ele está envolvido em corrupção e mentiu à CPI da Petrobras ao negar ter contas na Suíça.
Lula negou o acordo e disse na semana passada apenas esperar que Cunha ponha em votação os projetos enviados pelo Executivo e que visam tirar o país da crise econômica. Nesta segunda, declaração semelhante foi feita pelo ministro da Casa Civil, Jaques Wagner.
Cunha representa o lado mais frágil, por estar indiciado em três processos e por poder ser afastado não apenas por seus pares do Congresso, mas por uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
Quanto ao projeto de impeachment, ele foi provisoriamente abortado por três liminares do STF que suspenderam, para a iniciativa, os procedimentos do Regimento Interno da Câmara. As liminares foram inspiradas por um plano do qual o autor é Nelson Jobim, ex-ministro da Justiça de FHC, ex-ministro do STF e ex-ministro da Defesa de Dilma.
FOTO: Werther Santana/Estadão Conteúdo

