Os impactos subversivos da questão ambiental
Vai eleição. Vem eleição. A cada dois anos, o Brasil cumpre o calendário eleitoral; a democracia representativa assume uma saudável rotina com defeitos e virtudes de um regime que, segundo Rousseau, “Se houvesse um povo de deuses, ele seria governado democraticamente. Um governo tão perfeito não convém aos homens”.
A rigor, o que convém à humanidade é conviver da melhor forma com as imperfeições; organizar a sociedade de modo a solucionar pacificamente os conflitos; e buscar o aperfeiçoamento das relações pela repetição da tentativa e erro de forma a alcançar a paz social mediada por instituições sólidas.
O artigo escrito em 2010 adotou o título “Os impactos subversivos da questão ambiental”, que revela o mais profundo e complexo conflito contemporâneo e o consequente desafio de enfrentá-lo: a guerra entre preservação e desenvolvimento, natureza e cultura, dentro de um paradigma adverso ao equilíbrio entre o máximo do ter e a possibilidade de ser.
Além de proposições legais que avançaram e que devem seguir sendo aperfeiçoadas, busquei enfatizar uma constatação nada original, porém, dramática: a natureza tornou-se ameaçadoramente escassa.
Dito o que, volto à abertura do texto, vai eleição e vem eleição e a triste conclusão a que, nós eleitores, chegamos é que, na cabeça dos estrategistas de campanha, meio ambiente não dá voto. É um assunto estranho à agenda dos candidatos e, quando mencionado, dá a ideia de que é para cumprir tabela (propício para os tempos da Copa). Mas, contestariam os formuladores dos programas presidenciais: “ora, para os candidatos, a prioridade é o desenvolvimento sustentável”.
Sustentabilidade é um polissílabo que enche a boca dos ora- dores; encanta os ouvidos dos incautos; parece uma arca de Noé de bugigangas onde cabe tudo; e, na prática, perde de goleada para o modelo prevalecente da insustentabilidade.
Sem pessimismo agourento, devidamente acompanhado por ato de contrição diante dos nossos pecados ambientais, dá para acreditar que os magos do marketing político, percorridos os caminhos entrelaçados da razão (cérebro) e da emoção (coração), virem o jogo: meio ambiente dá voto.
Difícil, mas dá. Com o talento quase mágico de comunicar, a maestria do marqueteiro faria o cidadão comum entender o “ambientalês”: meio ambiente é um tema transversal, ou seja, tema que atravessa as políticas públicas setoriais. É uma tarefa urgente até porque, em pesquisa recente do Datafolha (21 e 22 maio deste ano), o meio ambiente não aparece (espontânea) entre os principais problemas do País. Quando estimulada a pergunta, as pessoas manifestam muita preocupação.
Ora, a percepção social do meio ambiente, a despeito de significativos avanços, continua aferrada aos resquícios do pré- conceito, como se fora coisa de bicho-grilo e do mito da ararinha azul. Um lamentável preconceito. A questão ambiental permeia problemas que afetam o cotidiano do cidadão.
Neste sentido, ao se falar de saúde não custa lembrar que a tragédia do saneamento é uma tragédia ambiental (beneficia, apenas, 38,7% da população, havendo sido registradas, em 2013, 340 mil internações de infecções gastrointestinais das quais 171 mil de pessoas com até 14 anos), considerando que, no Plano Nacional de Saneamento Básico (PAC/2007) com recursos na ordem 304 bilhões de reais, cerca de 219 obras não atingiram o nível adequado de execução.
Com efeito, a mesma linha de raciocínio se aplica à epidemia de dengue e às doenças respiratórias em decorrência da poluição, que é considerada o maior problema ambiental do País (32%) que, somado ao lixo (13%) e ao saneamento básico (10%), totalizam 55% da percepção da população brasileira em relação ao meio ambiente urbano.
Adicione-se o fato de que ao falar em poluição, o cidadão reverbera sua insatisfação com a primazia do transporte privado frente ao transporte público, o que agrava seriamente a qualidade de vida e a produtividade da economia
Cabe, ainda, destacar que a crise hídrica é um efeito da contaminação dos corpos d’água, do desperdício (gestão) e da agressão à cobertura das nascentes pelas matas ciliares. Observa-se, ao longo das ultimas décadas, um deslocamento das preocupações dos brasileiros da agenda verde para a agenda do meio ambiente urbano. Este deslocamento se explica pelos resultados positivos na luta contra o desmatamento assim como pela ampliação da consciência ambiental do brasileiro que, entre outras atitudes, se mostra disposto, segundo pesquisas, a pagar mais por uma energia mais limpa.
O meio ambiente pode, sim, dar voto desde que o eleitor perceba que é parte do mundo natural; que o voto pode unir responsabilidade política da eleição com o destino das gerações e que cuidar da vida planetária é o imperativo ético que liga o presente ao futuro. Aliás, o futuro já chegou.

