Produção industrial cai 0,3% em junho, informa o IBGE
Queda do setor é mais forte na comparação com igual mês de 2014, de 3,2%. Apesar do dólar alto, desafios para recuperação são a baixa confiança, aumento do desemprego e queda na renda das famílias

A produção industrial caiu 0,3% em junho ante maio, na série com ajuste sazonal, indica a PIM-PF (Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física), divulgada nesta terça-feira (04/08), pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Em termos anualizados, a queda foi de 3,2% sobre junho de 2014. Esta foi a 16ª taxa negativa consecutiva nesta comparação, algo inédito na série da pesquisa do IBGE, iniciada em 2002. No ano, a produção da indústria acumula queda de 6,3% até junho. Já em 12 meses, o recuo é de 5%.
"A pesquisa mostra que o país parou. Não adianta pensar que deixar de fazer o país crescer fará com que a inflação ceda, pois precisa de PIB potencial para que isso aconteça", analisou o economista-chefe da Saga Capital, Marcelo Castello Branco.
O economista avalia que a produção do setor industrial vai permanecer no campo negativo nos próximos meses, mas provavelmente não irá mostrar piora.
Apesar de uma cotação do dólar favorável para a exportação de alguns segmentos, a indústria ainda tem como desafio fatores internos como a baixa confiança, o aumento do desemprego e a queda na renda das famílias.
A análise é de André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE. Ele diz que uma melhora na atividade industrial será possível com a reversão de todos esses fatores.
Outro indicador mostra que o emprego na indústria registrou uma piora em junho, atingindo o menor nível desde dezembro de 2009. Ante maio, houve retração de 0,7% no nível de emprego. Em relação a junho de 2014, houve um recuo de 5,7%, informou a Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Até o momento, o gerente do IBGE observa que a indústria apresenta uma queda importante, de 6,3% no primeiro semestre deste ano em relação a igual período de 2014. Os veículos têm o principal impacto negativo, com baixa de 20,7% no período, mas não é o único setor. Ao todo, 24 das 26 atividades pesquisadas têm retração nesta base.
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No segundo trimestre do ano a produção industrial caiu 6,7% em relação a igual período de 2014.
A desvalorização do real ante o dólar já traz alguns efeitos positivos sobre a produção industrial, segundo Macedo. Apesar disso, a influência é pontual em alguns setores e não reverte o cenário negativo em que se insere a indústria como um todo, salientou.
"O câmbio tem favorecido os setores de celulose, aves e minério de ferro. Eles têm comportamento diferente da indústria, com influência do câmbio nesse processo. Mas por enquanto ainda não tem reversão de cenário, é um reflexo setorial", explicou Macedo.
No segundo trimestre de 2015, a produção de celulose cresceu 4,4% em relação a igual período de 2014. Nos primeiros três meses do ano, a alta havia sido de 1,7%, no mesmo tipo de confronto.
O avanço, segundo o gerente, é uma evidência do impacto positivo do câmbio nas exportações. "Provavelmente os favorecidos são os que já têm viés para mercado externo", afirmou.
Por outro lado, a valorização do dólar também pode prejudicar setores que utilizam de forma intensiva insumos vindos do exterior, reconheceu Macedo. "Isso traz uma preocupação. Um exemplo é o setor farmacêutico, cuja queda na produção pode ter relação com o custo adicional em função do câmbio", disse.
"Mas de alguma forma isso também pode ser uma saída uma vez que você pode substituir os produtos importados por produção doméstica. É claro que depende de negociação e de como as empresas utilizam esses insumos na produção de seu bem final", acrescentou.
BENS DE CAPITAL
A produção de bens de capital caiu 3,3% em junho ante maio, enquanto na comparação com junho de 2014 o indicador mostrou queda de 17,2%. No acumulado do ano, houve queda de 20% na produção de bens de capital em relação a igual período de 2014. Já no acumulado em 12 meses até junho, o recuo é de 15,4%.
Em relação aos bens de consumo, a pesquisa registrou estabilidade (0,00%) na produção na passagem de maio para junho. Já na comparação com junho do ano passado, houve recuo de 2,4%. No acumulado do ano, a queda é de 8,6%, enquanto a taxa em 12 meses é de -5,6%.
Na categoria de bens de consumo duráveis, o mês de junho exibiu redução de 10,7% na produção ante maio e queda de 2,4% em relação a igual período de 2014.
No caso dos bens intermediários, o IBGE informou que a produção diminuiu 0,2% em junho ante maio. Em relação a junho de 2014, essa atividade caiu 1,7%. No acumulado do ano, o instituto observou queda de 3,1% na produção, enquanto a taxa em 12 meses também ficou em -3,1%.
Entre os semiduráveis e os não duráveis, a produção subiu 1,7% em junho ante maio e recuou 2,4% na comparação com junho do ano passado.
Mais uma vez os bens de consumo não duráveis ajudaram a produção industrial em junho, segundo análise da economista Jessica Strasburg, da CM Capital Markets.
"A exemplo do que aconteceu no mês passado, em junho de novo os bens de consumo não duráveis, que têm baixo valor agregado, ajudaram a produção industrial", diz Jessica. Para o resultado fechado de 2015, a CM Capital estima queda de 3,7% na produção industrial.
O diretor de pesquisa econômica da GO Associados, Fabio Silveira, avalia que a desvalorização do dólar começa a estimular setores industriais de menor valor unitário, como os de produtos não duráveis e semiduráveis, mas que os reflexos na economia do cenário político brasileiro ainda trazem incertezas para a indústria.
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"As indústrias de alimentos e têxteis mostram reação com o câmbio, principalmente porque há um deslocamento do consumo de importados, para uma demanda doméstica. Essa indústria começa a encontrar um piso, mas, por conta do desentendimento de Executivo, Legislativo e Judiciário, o cenário pode mudar e gerar novas incertezas", completou.
Portanto, segundo Silveira, a perspectiva de uma queda de 4% a 4,5% na produção industrial em 2015 ante 2014 - melhor que a baixa acumulada de 5% nos últimos 12 meses até junho - ocorre em um cenário com o dólar em torno de R$ 3,30, desemprego ao redor de 6%, crédito 4% menor e massa salarial com recuo de 2%.
"Se o cenário político aqui e se o setor externo piorarem e o dólar, por exemplo, for a R$ 4, é lógico que pode haver um reordenamento nas condições da economia e da indústria. Se o dólar mais alto estimula exportações de maior valor agregado, por outro lado pode explodir a dívida das empresas", afirmou.
ATIVIDADES
A produção industrial recuou em 15 das 24 atividades pesquisadas na passagem de maio para junho. As quedas mais significativas, segundo o órgão, foram registradas nos segmentos de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-12,7%) e de máquinas e equipamentos (-7,2%).
A produção de veículos automotores, reboques e carrocerias recuou 2,8% em junho ante maio, o terceiro principal impacto negativo no resultado geral da indústria, que teve queda de 0,3% na passagem do mês.
Os principais impactos negativos vieram de máquinas e equipamentos e de equipamentos de informática, nesta ordem. Também tiveram produção menor em junho as máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-6,3%), a metalurgia (-2,2%) e a indústria de borracha e plástico (-1,9%).
Do lado positivo, tiveram aumento na produção os setores de bebidas (+3,6%), de produtos alimentícios (+3,0%) e de perfumaria, sabões, detergentes e produtos de limpeza (+1,7%).
O índice de média móvel trimestral da produção industrial registrou queda de 0,4% no trimestre encerrado em junho em relação aos três meses até maio.
O IBGE revisou o desempenho da produção industrial em abril ante março. A queda na atividade foi de 1,4%, mais do que o recuo de 1,2% apurado anteriormente. O órgão ainda revisou o desempenho da atividade em fevereiro ante janeiro deste ano, de queda de 1,3% para baixa de 1,4%.
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