Propostas de política industrial
O ponto de partida para a revigoração da nossa indústria é equacionar, no plano federal, as questões horizontais, ou de te- mas que impactam toda a estrutura de preços relativos industriais.
Assim, a taxa de juros precisa ficar dentro da média dos BRICs, a taxa de câmbio mais competitiva, o governo precisa ter disciplina fiscal e a infraestrutura ser muito aprimorada. E ter as reformas política, tributária, trabalhista e um choque de gestão nas ações governamentais. A educação de qualidade é importantíssima, precisa ser aprimorada logo, mas não terá efeito sobre a produtividade do trabalho no curto prazo.
A disciplina fiscal é importante porque vários setores da indústria têm parte da receita dependente de compras e de outras decisões governamentais. Se a gestão das finanças e dos projetos públicos melhorar e houver mais recursos para investimentos em saúde, ferrovias, metrôs, estradas, obras de saneamento e educação profissional, vários setores industriais serão impulsionados. A força do interior é enorme, mas hoje opera em ritmo inferior ao potencial, pois os recursos públicos federais permanecem concentrados na União. A política de comércio exterior não tem sido usada como efetivo instrumento da política industrial. A integração brasileira às cadeias globais de valor e o consequente aumento do valor adicionado fabricado no Brasil é meta a ser buscada.
E há monopólios nos mercados de alguns insumos, com o que a indústria que os usa acaba enfrentando preços acima da média mundial. Cabe reduzir as alíquotas de importação desses produtos para forçar maior concorrência no seu mercado doméstico. O excesso de estímulos ao setor automotivo, o real valorizado e a inefetividade da Petrobrás distorceram a matriz metal- mecânica, muito forte no Brasil há 15 anos atrás. Muitas empresas familiares foram vendidas a multinacionais, que desativaram linhas de produtos e hoje os trazem de fora. A desindustrialização do setor seria atenuada se as regras fossem mais claras e estáveis, e os investimentos em infraestrutura destravassem compras de caminhões, vagões, navios e plataformas. São importantes demandantes da cadeia do setor e diversificariam as compras dentro dela. Hoje é excessivamente dependente do setor automobilístico, da renda da população e do crédito, todos de alto risco diante de crises internas ou externas.
Inovar em produto ou processo exige margem de lucro. Se muito apertada, não há como investir em P&D, softwares e laboratórios. Os reajustes salariais nos últimos anos têm superado ganhos de produtividade, comprimindo margens. O real valorizado e a concorrência de importados em setores que não têm como repassar esses custos, também têm estreitado margens e impedido investimentos em inovação.
A informação é outra importante ferramenta da inovação. O IBGE precisa ser reforçado para gerar mais dados úteis à indústria. Incentivos e pontuação acadêmica a doutores e professores que atendessem consultorias à indústria e a divulgação de guias para apresentar projetos de inovação à FAPESP e ao IPT, além da distribuição de um cadastro dos institutos de pesquisa, com as suas especializações, aproximariam o empresário da produção científica e tecnológica.
Quanto mais interligados estiverem os setores industrial e de serviços, menos vulneráveis estarão às oscilações do câmbio e à concorrência dos importados. Quem detém o mercado é quem conhece o cliente. Atividades de manutenção absorvem engenheiros, contribuem para as compras de produtos industriais e fornecem informações úteis ao processo de inovação. São colchões nas épocas de crises, pois retêm o emprego de profissionais qualificados e devem ser estimuladas.
Para mais investimentos ligados ao setor de energia é necessário dar sinais claros sobre tarifas que serão praticadas e os estímulos que serão dados, para definir composição das compras entre produtos substitutos no Brasil. E entender estratégias de países que os importam do Brasil. O mesmo ocorre com as leis aplicáveis à exploração e comercialização de insumos importantes para a indústria como borracha natural e sintética, tungstênio, cobalto, molibdênio, zinco, níquel e alumínio, entre outros.
O Brasil não é mais o país dos recursos naturais ilimitados. O aquecimento global e os aglomerados urbanos gigantescos como São Paulo submetem o meio ambiente a um enorme estresse, pondo em risco a própria população. Na política regional, é necessário estimular a dispersão da população em cidades de porte médio-grande. Na política de construção civil, punir o excesso de consumo de água, de energia e de produção de lixo e premiar soluções e construções novas e sustentáveis.
Por fim, os estímulos de uma política industrial não devem ser vistos como favores a grupos, famílias ou classes sociais, mas como instrumentos para gerar externalidades positivas, cujo benefício se dissemine por toda a sociedade.

