Renda encolhe e derruba setor de serviços

Com renda menor, famílias reduzem o consumo e puxam para baixo a receita das empresas do setor, que deve continuar em desaceleração neste ano

Estadão Conteúdo
16/Jul/2015
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Renda encolhe e derruba setor de serviços

A forte retração no rendimento médio dos trabalhadores é a principal razão por trás da intensa deterioração na evolução da receita dos serviços prestados às famílias ao longo de 2015, afirmou nesta quinta-feira (16/7) Roberto Saldanha, gerente da Coordenação de Serviços e Comércio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em maio, o faturamento do setor de setor de serviços de forma geral cresceu apenas 1,1%, menos do que em abril, quando a elevação foi de 1,7%.

No entanto, a receita dos serviços prestados para as famílias registrou queda nominal de 1,4% em maio, na comparação com igual mês do ano passado. Isso ocorreu pela primeira vez desde o início da série, em janeiro de 2012.

Os serviços prestados às famílias são, por exemplo, os de alojamento, alimentação fora de casa e pessoais. 

"É uma queda no poder aquisitivo da população que se reflete nesses serviços. Os brasileiros estão comendo menos fora de casa e viajando menos. Realmente vemos uma retração bastante expressiva na renda das famílias", disse Saldanha.

De acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego, também do IBGE, o rendimento médio real dos brasileiros encolheu 5,0% em maio ante maio de 2014.

Saldanha disse ainda que há um efeito base, diante dos resultados excepcionalmente favoráveis em maio e junho do ano passado em função da maior demanda por serviços às vésperas da Copa do Mundo. Mesmo assim, a queda na renda prevalece.

"As empresas realmente faturaram menos em relação a maio do ano passado. Ou seja, tirando o efeito da inflação, isso é muito mais negativo", afirmou o gerente.

Segundo o economista da RC Consultores, Marcel Caparoz, a receita dos serviços prestados às famílias deve contribuir para que a desaceleração do setor como um todo continue.

Até então a receita de serviços ligados à indústria contribuiu para a desaceleração da receita total nominal do segmento. Essa receita chegou ao seu nível mais baixo e estabilizou.

"Agora é a vez da receita de serviços prestados às famílias que vai, mês a mês, recuar. Reflexo de inflação elevada, desemprego em ritmo crescente, taxa de juros elevada, comprometendo o orçamento da família", disse.

Caparoz ainda chama a atenção para o resultado do setor nacional de serviços quando descontada a inflação do período pelo IPCA, que é de uma queda de 4,3% em 12 meses.

"Embora a receita nominal ainda esteja crescendo, quando descontamos a inflação, fica um volume negativo relevante. Esse quadro real acarretará em  menos mão de obra contratada pelo setor, queda de arrecadação de tributos para o governo. O quadro é ruim e reflete a perda de dinamismo da economia brasileira", afirmou.

Na avaliação do economista-chefe da INVX Global Partners, Eduardo Velho, a desaceleração da receita do setor de serviços mostra que a atividade econômica no segundo trimestre será muito fraca. 

Segundo ele, o dado do IBGE poderia indicar uma menor inflação de serviços mais à frente, mas ainda existe um problema de oferta que afeta o setor.

O economista lembra que o próprio ministro da Fazenda, Joaquim Levy, comentou recentemente que ainda há dúvidas sobre a persistência inflacionária e a possível desaceleração do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) a partir do segundo semestre.

 "A inflação de serviços ainda está rodando em quase 8% no acumulado em 12 meses, então claramente não está acompanhando por enquanto a intensidade da queda na demanda neste setor", disse Velho.

SERVIÇOS DE ENGENHARIA

Os gastos com consultorias, publicidade e propaganda e serviços de engenharia seguem na lista de cortes dos governos, tanto federal quanto estaduais, e provocam o encolhimento cada vez mais intenso no faturamento dos serviços técnico-profissionais.

"Neste mês de maio, identificamos uma queda em serviços de engenharia muito forte, e isso ocorreu em vários Estados. Não foi algo localizado", afirmou Saldanha, do IBGE.

"Tudo tem a ver com o ciclo da economia, são governos que cancelam projetos. Tudo tem a ver com cortes orçamentários, controle de gastos, e isso se reflete em menos contratações de serviços", diz.

Um ponto desfavorável, contudo, é que essa parcela dos serviços é justamente a mais qualificada e intensiva em conhecimento, segundo o órgão.

Em maio, a receita nominal dos serviços técnico-profissionais caiu 3,7% em relação a igual mês de 2014.

Por outro lado, o faturamento dos serviços administrativos e complementares cresceu 8,9% no período, muito acima da média da atividade (1,1%) no mês.

"São serviços de segurança, portaria e de limpeza, que as empresas terceirizam e não costumam cortar. Esses vêm se mantendo e sustentam os serviços como um todo. Mas de fato é um setor de baixa qualificação", ponderou Saldanha.

TRANSPORTE DE CARGAS

A queda na atividade industrial continua a prejudicar o setor de transportes de carga, apontou Saldanha.

Com isso, a receita dos transportes terrestres encolheu 1,9% em maio contra igual mês do ano passado em termos nominais - ou seja, antes mesmo de descontar os efeitos da inflação.

"Há uma queda no setor industrial, que é o maior demandante por transportes de carga, e isso continua a prejudicar o segmento. A agricultura, mesmo com um bom desempenho, não foi capaz sozinha de puxar para cima o resultado", disse Saldanha.

Em maio, a produção industrial avançou 0,6% em relação a abril, na série com ajuste sazonal, mas registrou perda de 8,8% em relação a igual mês de 2014. No confronto interanual, foi a 15ª taxa negativa consecutiva, segundo o IBGE.

Por outro lado, o setor de transporte aéreo interrompeu uma sequência de três quedas nominais na receita e faturou 1,2% a mais do que em maio do ano passado. "É uma alta ainda pequena. O que puxou mais foi o processo de redução tarifária, que estimulou a demanda", disse o gerente.

EMPRESAS DE COMUNICAÇÃO

Os cortes de gastos em empresas e principalmente governos estão deprimindo a receita das empresas de comunicação. Ganhos com publicidade e propaganda têm sido cada vez menores em rádios, televisões, agências de notícias e em outros veículos.

As próprias agências que elaboram as campanhas publicitárias registram queda no faturamento. No conjunto, a receita da atividade encolheu 10,2% em termos nominais em maio ante igual mês do ano passado, segundo o IBGE.

O segmento de serviços audiovisuais, de edição e agências de notícias inclui ainda produtoras e salas de cinema.

"Além disso, em maio e em junho do ano passado, os setores tiveram incremento de receita por conta dos contratos de publicidade firmados para a divulgação e transmissão do evento Copa do Mundo. Muitos contratos foram fechados em maio de 2014. Tem também esse efeito base", acrescentou.

Foto: Thinkstock

 

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