Santa Cecília vira a nova ‘praia’ paulistana
Bares do bairro, como o Van Grogh Praça Bar (na foto), lotam calçadas com cadeiras e espreguiçadeiras e atraem público em busca de clima ao ar livre

Depois do boom de bares, cafés e padarias descoladas, o bairro da Santa Cecília, na região central da capital de São Paulo, vem se tornando uma espécie de “praia urbana”. Basta andar pelas ruas, principalmente em dias quentes, para ver cadeiras de praia, espreguiçadeiras e mesinhas coloridas tomando o espaço das calçadas em bares e restaurantes como Van Grogh, Xepa e Ó Pro Cê Vê. O público? Gente atrás de sol, calor humano, bebida gelada e uma rua que virou protagonista da experiência.
Cadeiras de praia por demanda do público
No Van Grogh Praça Bar, a ideia não surgiu como tendência, mas como pedido direto dos clientes. Segundo Wedson Stavarengo, sócio do bar, foram eles que “sempre pediam para colocar mesas na parte externa”. Como resposta, a casa decidiu substituir mesas convencionais por cadeiras de praia. Hoje são 50 ao todo, que ganharam banquetas de apoio para os clientes colocarem os pedidos. Na parte interna há mais 110 lugares.
O sucesso é instantâneo: “em dias de calor, sexta e sábado, são preenchidas rapidamente”, conta o sócio, que reforça que a área não ocupa a calçada formal, “por isso não atrapalha os transeuntes”. “Alguns clientes chegam a trazer suas próprias cadeiras de praia para ficar lá no bar.”
A operação também foi ajustada para isso: há atendentes exclusivos para a área externa, fruto do “know-how para atender” esse público mais livre.
Por que as pessoas preferem ficar do lado de fora?
Wedson acredita que a mudança vai além do conforto: “eles se sentem mais pertencentes à cidade. Quando estão lá, exploram mais o bairro e o ambiente”.
O público que ocupa as cadeiras externas costuma buscar justamente essa sensação: um espaço sem o “confinamento de um bar tradicional” e onde se pode fumar com mais liberdade, analisa ele.
A tendência, para o empreendedor, não deve passar: “veio para ficar”, afirma. Nos últimos anos, o bar tem crescido em média 10% ao ano, sinal de que a rua vem somando na experiência.
Cadeiras na calçada são a alma do negócio
No Xepa e no Ó Pro Cê Vê, de Lierson Mattenhauer Jr., as cadeiras fazem parte do DNA desde a abertura. “Chamamos de cadeira de bar, não de praia”, afirma. “É um bar que eu fiz do jeito que eu gosto de consumir. Desde sempre tem cadeira na parte externa. É para o cliente curtir a rua, o clima e sentir o bairro.”
Lierson é categórico sobre o impacto disso no movimento: “na Santa Cecília, se você não tem esta cadeira, você não vai pra frente. Aqui as pessoas gostam de beber e viver a rua”.
O público tem perfil claro: moradores da região, de 30 a 45 anos, que já sabem o que gostam e são “muito bairristas”, ou seja, gostam de curtir o bairro, não pensam em sair para bares de outras regiões. E quando chegam no estabelecimento? Nem cogitam se sentar na área interna. “Quem vem beber já quer ficar fora, nem passa na cabeça a ideia de entrar, por isso, as filas de espera são constantes, especialmente nos fins de semana.”
A convivência com a Prefeitura já rendeu apreensões no passado. “Os fiscais tomaram todas as cadeiras porque eu não tinha licença. Agora tenho nos dois restaurantes e sigo todas as regras: respeitar o espaço de 90 cm nas calçadas para a passagem dos pedestres.”
No Xepa, que é um restaurante construído com a proposta de “servir o simples com excelência”, a rua também influencia menu e dinâmica: é um lugar pensado para servir na calçada. Para ele, isso muda tudo: socialização, interação e a energia do público. “O brasileiro gosta do calor, de sentir a vibração da rua. Isso é incomparável com qualquer outro ambiente em um estabelecimento.”
Por que isso virou um fenômeno?
As cadeiras de praia, segundo o consultor de gastronomia e inovação Ygor Brito, transmitem aconchego. “Não é luxo de ostentação. É algo mais verdadeiro, mais democrático. Atende a um público que quer fugir do glamour para viver uma experiência mais simples e se conectar consigo mesmo.”
Ygor também explica que a Santa Cecília não está sozinha nesse movimento. O fenômeno acompanha uma tendência global de apropriação do espaço público: “Toda capital tem uma via fechada para lazer. Isso tem a ver com o cidadão se sentir pertencente ao local, ainda mais em São Paulo, onde os carros dominam o asfalto.” Para ele, esse uso das calçadas “fortalece o bairro e é uma tendência mundial”.
Empreender na calçada: risco ou oportunidade?
Ygor é direto: empreender no Brasil já é arriscado por natureza. “Comparado aos riscos trabalhistas e cíveis, não tem como ver isso como risco e sim como oportunidade.”
E o impacto na experiência do cliente? “É enorme. Se não prejudica ninguém e traz benefício, é uma ótima forma de melhorar a experiência.”
Regras em SP para o uso de mesas e cadeiras na calçada
Bares, restaurantes, confeitarias e lanchonetes de São Paulo que desejam instalar mesas, cadeiras ou toldos no passeio público precisam obter o Termo de Permissão de Uso (TPU).
O que é exigido: para fazer a solicitação, o responsável deve ter cadastro no sistema eletrônico da prefeitura e CCM ativo. Entre as informações solicitadas estão:
- Endereço do estabelecimento;
- Número da licença de funcionamento;
- Área que será ocupada;
- Quantidade de mesas e cadeiras;
- Área de toldo (se houver);
- Uso de imóvel contíguo (quando aplicável).
Também é necessário manter:
- Documentação legal da empresa;
- Comprovação de representação do estabelecimento;
- Autorização do proprietário do imóvel vizinho (se houver); e
- Croqui com medidas do passeio público, disposição das mesas, cadeiras, toldos e equipamentos urbanos existentes.
Pagamento: a ocupação do espaço público exige o pagamento de preço público, feito exclusivamente por meio da guia DAMSP, emitida pelo sistema eletrônico da Prefeitura e paga na rede bancária.
Espaço para circulação de pedestres: deve ser respeitada a faixa mínima de 1,20 metro livre para pedestres, ou ao menos 50% da largura da calçada, quando ela tiver mais de 2,40 metros. O espaço pode ser delimitado com floreiras ou equipamentos removíveis.
A solicitação pode ser feita no site da Prefeitura de SP.
LEIA MAIS
Portinhas de comércio tomam ruas da Vila Buarque, na região central de SP
IMAGEM: Van Grogh Praça Bar/divulgação
