Temores em relação à China ressuscitam uma economia zumbi

Continuam a circular histórias assustadoras sobre a suposta dependência financeira da China com relação aos EUA, e isso por parte de pessoas que nem sequer se dão conta de que há outras interpretações possíveis

Paul Krugman
04/Set/2015
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Matthew Klein observou recentemente no Financial Times que aquela Gente Muito Séria está preocupada agora com o fato de que os problemas econômicos da China — que levaram o país, de repente, a deixar de ser comprador dos títulos do Tesouro americano para ser vendedor — possam resultar na elevação das taxas de juros (leia aqui). Klein achou, e com razão, que esse argumento não era convincente, mas o que ele não percebeu foi que estamos diante de mais um caso de zumbi econômico em ação.

Isto porque esse novo receio em relação à China, em termos econômicos, é aquele mesmo antigo receio de que a China possa destruir a economia americana cortando financiamento, seja por razões políticas ou indignação com nossos déficits orçamentários. Essa ansiedade se explica pela incapacidade de sempre de compreender a lógica econômica, conforme já apontado inúmeras vezes no passado, não somente por este que vos fala, mas também por gente como Dan Drezner, professor da Tufts University, em 2009 (leia aqui).

O problema é que continuam a circular histórias assustadoras sobre nossa suposta dependência financeira da China, propostas por pessoas que nem sequer se dão conta de que há outras interpretações possíveis, muito menos percebem que estão falando bobagem. 

FÁBRICA DE CIMENTO EM CHANGZHI/FOTO: Adam Dean/The NYT

1998 em 2015

O economista David Beckworth postou recentemente em seu blog uma boa discussão, talvez excessivamente detalhada, sobre o namoro da China com a crise (Leia aqui). O que me impressiona é o tanto que a China conseguiu se meter em uma situação parecida com a que enfrentaram muitos de seus vizinhos no fim da década de 90. A moeda chinesa "quer" se depreciar, em parte por causa da desaceleração da economia e da injeção de capital no mercado e, em parte também, devido à crise de confiança e à fuga de capitais.

Contudo, as autoridades chinesas não estão dispostas a deixar que o renminbi caia exageradamente, talvez porque receiem que isso possa gerar conflitos comerciais, mas também porque as estatais e o setor privado detêm hoje uma dívida substancial em moeda estrangeira.   

O que aconteceu em 1997 e 1998 foi que a depreciação nos países asiáticos foi desastrosa para o balanço patrimonial, uma vez que as empresas domésticas estavam extremamente alavancadas e tinham muita dívida em dólares. A dívida disparou em relação ao PIB, não porque houvesse contratações maciças de novos empréstimos, mas porque o denominador entrou em colapso no momento em que as moedas despencaram.

Eu e outros escrevemos a respeito na época (Leia aqui). Dá para perceber, a propósito, porque não me incomodam as afirmações de que os economistas só deram atenção à dívida na crise de 2008, e também porque fiquei decepcionado comigo mesmo por não perceber que a quebra do setor imobiliário nos EUA pudesse resultar em estresse no balanço patrimonial, tal como se viu no colapso das moedas asiáticas em 1998.

Seja como for, é hora de recuperar a análise minuciosa que se fez na época. É claro que há diferenças importantes entre a China de 2015 e a Indonésia de 1998, entre elas o imenso volume de reservas em divisas estrangeiras da China e o que parece ser um volume muito maior e mais problemático de dívida interna pendente. No entanto, temos muito material a que recorrer — não é preciso começar tudo do zero. 

 

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